Relacionamento

A carência é o maior alucinógeno que existe

Muitas vezes acreditamos que a carência é algo muito distante de nós; percebemo-nos atrás de uma armadura de super-homem/mulher-maravilha e, por sua vez, a imagem cristalizada da pessoa independente. Acontece que a carência, muitas vezes, está bem ao nosso lado. Ela está presente nas relações de uma forma tão sútil que muitas vezes não a percebemos. Ela é uma espécie de “ponto cego”.

É importante acolher a vulnerabilidade e ok, não é tão fácil chegar nesse lugar. Exige-se coragem para reconhecer essa parte não tão bonitinha, essa parte “fraca” (mais uma vez insira todas as aspas do mundo aqui), frágil e vulnerável de você.

Exige coragem & energia para reconhecer o quanto estamos buscando vínculos, laços e relações baseadas nas projeções de nossos vazios.

Mas olha, longe de mim querer desnaturalizar o que, às vezes, é tão comum: quando bate aquela carência – que você deve saber bem — mobiliza aquela vontade quase infantil de abraçar algo que tenha pele e osso, menos pelo do que seu gato e mais vida do que seu travesseiro, acompanhada daquela vontade de que alguém chegue um pouco mais perto do seu coração, da sua vida e do seu corpo do que um grande amigo.

Aí então, parece que tudo é motivo para criar uma dessas “ilusões de ótica” que faz o nosso coração transformar uma abóbora numa carruagem. Parafraseando Marília Mendonça + Inês Brasil, é aquele ditado: “Me apaixonei pelo que eu inventei de você”.

A carência afetiva pode ser mais ou menos intensa e pode durar um período curto ou longo. O que ocorre na maior parte das vezes é que acreditamos que esse “suprimento afetivo” só pode ocorrer se estivermos com um parceiro/a, como se isso fosse garantia de plenitude afetiva. Não é, e pelo contrário, muitas vezes é apenas um convite para relações abusivas ou desgastantes.

Nos vemos envolvidos com pessoas difíceis, insensíveis, desrespeitosas, com uma personalidade muito distante daquilo que pretendíamos ter ao nosso lado. E por medo da solidão, na ilusão de que estando com alguém estamos a salvo da carência, não nos damos conta de que continuamos nos esvaziando de afetos. 

Os pares que escolhemos para partilhar a vida estarão muito mais próximos de nos satisfazer afetivamente quando somos movidos pelo desejo, e não pela necessidade de suprir nossas carências. É muito importante reconhecer-se em você mesmo, para assim reconhecer o tanto de afeto que o cerca. E antes de sair desenfreadamente buscando do lado de fora preencher os vazios “de dentro”, faça por você mesmo o que gostaria que alguém fizesse.

Carentes ou não, vez ou outra precisamos mesmo de colo, de tato, de ouvido, ou de nada disso, mas sim de uma boa ilusão que abra nossos corações, desestruture nossas verdades e nos faça enxergar um pouco mais outros canais de sentido.

Ps: se você é vítima de violência psicológica, física ou sexual, busque ajuda. Ligue 180! Se você foi ou acredita que foi vítima, busque ajuda psicológica e judicial.

Apesar de ser um conceito subjetivo, todo mundo apresenta algumas ideias muito parecidas do que seria uma relação tóxica ou abusiva. E é certo que grande parte das pessoas, senão todas, já estiveram em uma relação assim.

Partindo da ideia de que cada um determina o que é saudável ou não, não pretendo aqui descrever o que seria uma relação abusiva. Mas, de antemão, gostaria de frisar: ATENTE-SE AOS SEUS PRÓPRIOS LIMITES.

Pergunte-se como você deseja ser tratadx. É uma pergunta fácil e muitas vezes encontramos ali, naquele velho “ponto cego”, um monte de comportamentos abusivos, fantasiados de amor. Com isso não quero dizer que a sua relação está fadada ao fim: desde que você não seja vítima de nenhuma forma de violência psicológica, física ou sexual, o diálogo é o primeiro caminho.

Recupere a sua autonomia (que não deve ser abandonada nunca) e pontue quais são os seus limites. Muitas vezes a pessoa nem sabe que tal comportamento é abusivo. Costumo dizer que isto torna-se um problema mais grave quando, mesmo depois de conversado, os comportamentos se repetem.

Em casos assim, percebe-se facilmente a discrepância no poder de um em relação ao outro, ou seja, uma posição de desigualdade. Esse tipo de relacionamento segue alguns padrões e gera sentimentos recorrentes como dúvidas, confusão mental, ansiedade, insegurança e esperança de que x parceirx mude.

Nessas relações, o outro se torna o centro da sua vida e seu comportamento é moldado com referência ao que elx espera de você. O resultado é que isso interfere na sua relação com a família, amigos, trabalho e, principalmente, na forma com que você se enxerga.

O que ninguém deve fazer é colocar mais culpa na vítima. Evite perguntar o que ela fez para isso acontecer.

✴️ Para casos de emergência, onde você percebe que alguém próximo é vítima de violência, ligue para a polícia (190). Se for para denunciar casos de violência que não estão ocorrendo naquele exato momento, ligue 180. Se você é vítima de violência psicológica, física ou sexual, procure ajuda judicial e psicológica.

Olhe para o seu corpo como você gostaria que olhassem. Cuide do seu corpo da mesma forma. Parece utópico, uma vez que a gente escuta a todo o tempo que ele não é bom o bastante. Mas entender que o seu corpo é a sua casa é o primeiro passo para livrar-se desses processos de autolesão. A “culpa” não é sua.

Envie esse texto para alguém que precisar ler. 

Fabiano Saft, Psicólogo Clínico atendendo a jovens, adultos e idosos. Possui experiência de atendimento clínico a pessoas LGBTQIA+ vítimas de violência de gênero. Além disto, tem abordado a importância da intersetorialidade com outras áreas do conhecimento, como por exemplo, Arquitetura e Urbanismo, Geografia, Ciências Sociais, Direitos Humanos e Saúde Mental. Atua principalmente nos seguintes temas: Diversidade Sexual, Relações de Gênero, Psicologia da Saúde, Saúde do Trabalhador e Direitos Humanos.

 

Para acompanhar mais do meu trabalho, siga @psi.fabiano

Você será sempre bem-vindx.

 

Referência Bibliográfica:

Vísceras – de Clara Baccarin. (Editora Patuá – 2019)

FABIANO SAFT
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2 Comentários

  1. Um dos maiores e mais terríveis problemas da humanidade é o Amor. Com letra maiúscula. Nem Jesus Cristo conseguiu Compreender o Amor. Guerras em nome de Deus .Matar ,violentar .

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