Saúde

A culpa materna

Ser mãe

Ser mãe é processo de amor tão grandioso que a mulher abre mão de si em prol do crescimento, bem-estar e desenvolvimento do seu bebê. A gestação é o início de um processo de entrega e dedicação tão espetacular que só o amor por um(a) filho(a) pode ser capaz de gerar tais atitudes nas mulheres.

Mas muitas percebem que a maternidade não é tão plena e prazerosa como ocorrem nas novelas e nos filmes, e muitas mulheres se veem com culpa porque a gravidez não está sendo como ela esperava.

E é nesse paradoxo que a gestante vai construindo a sua maternidade e, inevitavelmente, surge a culpa materna, ocorre uma verdadeira desautorização dos seus sentimentos se forem contrários à “plenitude da maternidade”.

Há inclusive uma banalização do seu mal-estar orgânico. “Gravidez não é doença”, mas a forma de vivenciar todas as experiências na vida é muito diferente para cada mulher, e com a maternidade não poderia seria diferente.

Então, como mulher, vivenciar esta experiência de forma equilibrada é poder expressar, sentir e admitir até para si, que a maternidade também tem pontos negativos e desafiadores, que não ocorre da mesma forma para todas as mulheres e muito menos como ela imaginava que seria, como acontece em todas as situações de suas vidas.

Sendo que em nenhum momento essa mãe está se referindo ao amor ao filho(a), mas à experiência da gravidez, às muitas mudanças que ocorreram e tantas que virão, bem como a descoberta e a constatação que este momento pode não estar sendo como se acreditou ou idealizou.

Problemas emocionais na gravidez

Não encontrar um espaço para verbalizar como se sente pode ser um dos fatores que levam ao aumento do estresse e da ansiedade que são inevitáveis, mas quando esses sintomas são muito elevados na gravidez, podem não só trazer consequências para a saúde emocional da mãe na gravidez, no pós-parto e nas futuras gestações, mas também ocasionar partos prematuros, interferir no desenvolvimento do feto, podendo causar problemas emocionais e comportamentais nestas crianças que podem se estender até a sua vida adulta.

Você pode estar se perguntando: Como que uma mãe pode ter problemas emocionais na gravidez se esse deveria ser apenas de momentos felizes?

Pesquisas apontam que a gravidez pode ser um do momento de crise emocional no processo de desenvolvimento de qualquer mulher, justamente por causa das muitas mudanças que ocorrem de diversas naturezas, são mudanças:

  • Físicas,
  • Hormonais,
  • Emocional,
  • Social,
  • Econômica,
  • Conjugal,
  • Familiar,
  • Psicológica,
  • Profissional,
  • Pessoal,
  • Etc.

Por isso, como impacta e afeta várias áreas na vida de uma mulher e de sua família, a gravidez pode gerar um sofrimento emocional que podem ocasionar o surgimento de alterações emocionais significativas. Para que tal situação não ocorra ou se agrave, o ideal é que a mulher busque o autocuidado emocional.

O autocuidado emocional

Vivenciar emoções faz parte da nossa experiência de vida, a presença delas, mesmo que seja um estresse ou uma ansiedade, não são sinais de problemas, mas quando tais sintomas são muito constantes, aparecem em vários momentos do dia ou aparecem sem ser por um motivo específico, então é um sinal de alerta para a necessidade de cuidados.

E durante a gestação ou a amamentação há um cuidado maior que se estende para os efeitos desses sintomas no bebê, pois a presença de altos níveis de ansiedade e de estresse podem ser fatores de risco para o equilíbrio emocional materno e para o desenvolvimento do bebê. 

A depressão é outro sintoma que pode estar presente nas mães, não necessariamente ocorre apenas no pós-parto, mas sua presença na gestação também traz prejuízos para a saúde da mãe e do bebê. 

Mas se você está vivenciando algum desses momentos, não é motivo de vergonha ou de culpa, cada um de nós reage da sua maneira às situações da vida, não significa que você não será boa mãe ou que seja um sinal de fraqueza, por isso é tão precioso cuidar da saúde emocional materna.

Sabemos que se você conseguir ter esse autoconhecimento e desenvolver mecanismos de equilíbrio, toda a sua história com a maternidade será mais leve e prazerosa mesmo com todos os desafios. E uma das formas de se alcançar esse autocuidado emocional é realizando o pré-natal psicológico.     

O que é o pré-natal psicológico? 

É um novo conceito de atendimento gestacional, realizado dentro da psicoterapia, voltado para promover um cuidado emocional para a mãe e para o casal nesse momento, que pode ser iniciado antes mesmo da gravidez, na fase do planejamento familiar e se estender durante a gestação, pós-parto e no processo de educação dos filhos durante a infância deles, na categoria de acompanhamento dos pais na parentalidade, que remete ao exercício das funções de pai e de mãe.

Por meio de uma escuta acolhedora são trabalhadas:

  • Todas as questões relacionadas à gravidez, parto, pós parto;
  • O vínculo mãe-bebê;
  • A relação do casal após se tornarem pais, os medos, inseguranças e preocupações atuais e futuras em relação ao bebê e à família;
  • A construção da parentalidade, que é a relação de cada um na sua função de mãe e de pai;
  • Trabalhar a confiança e o empoderamento na vivência da maternidade;
  • Depressão pós-parto, baby blues e psicose puerperal,

Além de outras questões que de alguma forma podem causar estresse, ansiedade, depressão e preocupações que possam interferir na relação consigo, dentro da maternidade/paternidade e com o bebê. 

Porque é importante realizar o pré-natal psicológico?

Por meio desses encontros é possível avaliar a saúde emocional da mãe, identificar o surgimento de alguma alteração emocional, evitar que estas alterações se intensifiquem durante a gestação e persistam após o parto, evitando assim prejuízos para o feto, como nascimento prematuro, baixo peso ao nascer, bem como a criança desenvolver problemas de comportamento presentes e futuros.

Além de ser um benefício para a mãe, por promover um cuidado, fornecer orientações, desconstruir pensamentos ou sentimentos que estão causando sofrimento, facilitar o autoconhecimento e o autocuidado.  

Então, a maternidade é uma fase de transição, de muitas mudanças e de total entrega, há dias ou momentos nos quais nem tudo estará bem, e perceber isso é importantíssimo para que você se prepare para toda a jornada, para que consiga se conectar consigo primeiramente como mulher, perceber que o incômodo, mal-estar e sentimentos inadequados não são com o seu bebê, mas com todas essas mudanças por se estar grávida e com as preocupações futuras consigo, com o(a) filho(a), com a família, e que podem ocorrer mesmo quando se desejou tanto ser mãe! 

É importante que você possa ter esse reconhecimento de si, de seus limites, suas dificuldades e posteriormente poder se entregar ao papel de mãe sem essa culpa, porque não se trata de amar ou não seu bebê, mas de como está sendo a experiência da gestação e maternidade para você, o que pode ser feito é tentar diminuir essa culpa aumentando a percepção de si e reconhecendo como legítimo cada sentimento e emoção nesse processo e buscando o autocuidado emocional. 

Micheline da Cruz Costa Sena

CRP 11/16084

Psicóloga Perinatal e da Parentalidade

Referências:

  1. ARRAIS, Alessandra da Rocha; MOURÃO, Mariana Alves; FRAGALLE, Bárbara. O pré-natal psicológico como programa de prevenção à depressão pós-parto. Saúde e Sociedade. v. 23, n.1, jan./mar. São Paulo, 2014.
  2. MALDONADO, M. T. P. Psicologia da gravidez. Petrópolis: Vozes, 1986.
  3. SCHIAVO, Rafaela de Almeida. Presença de Stress e Ansiedade em Primigestas no Terceiro Trimestre de Gestação e no Pós-parto. [Dissertação] Mestrado na Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências, BAURU, 2011.
Micheline da Cruz Costa Sena
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