Desenvolvimento pessoal

A importância de se conhecer com profundidade

O desenvolvimento do ser humano

Para a abordagem da Gestalt-terapia o ser humano está em constante processo de desenvolvimento. Na medida em que seu organismo passa por um processo de autorregulação, a pessoa passa também por ajustamentos criativos no contexto em que vive.

Isso implica dizer em outras palavras que o indivíduo influencia o ambiente e é influenciado por ele, e nesta relação com o meio seu organismo se “autorregula” como que para se adaptar ao campo em que está inserido. A pessoa também se utiliza de recursos internos disponíveis no momento, recursos estes totalmente desenvolvidos ou não, mas para a pessoa é o que ela tem para lidar com a situação vivida.

Uma criança de 3 anos de idade, por exemplo, não tem a capacidade cognitiva de um adulto. Assim, diante de uma situação de medo, esta criança pode sentir-se culpada ou envergonhada. Pois a tomada de consciência que ela tem de sua situação tem a ver com seus recursos psicológicos, sua capacidade cognitiva e com sua subjetividade que é única em cada um.

Um ser de relação, em constante contato consigo e com o mundo desenvolve-se a medida que entra em contato consigo mesmo e com o ambiente que o cerca. É nesta influência mútua que o indivíduo vai buscar “adaptar-se” através de constantes ajustamentos criativos (através dos recursos internos e externos que possui) e buscando também a homeostase, o equilíbrio de seu organismo.

A criança vai desenvolver a noção de EU a partir da relação com o mundo, com o outro, onde vai tomando consciência de si. Como se sabe, o primeiro campo de que esta criança faz parte é a família, então é de suma importância como ela se relaciona com a mesma e como esta família nutre e busca satisfazer as necessidades da criança como um todo.

Porém, o desenvolvimento humano para a Gestalt-terapia nunca acaba. As pessoas têm suas necessidades, estão sempre em ajustamentos criativos e buscando a autorregulação de seus organismos, autorregulação esta que é um processo inato. Neste campo “organismo-meio” está um emaranhado de necessidades, características genéticas, fisiológicas, familiares, sociais, políticas, pensamentos, sentimentos, fantasias, sensações corporais, que juntos vão fazer parte deste processo tão importante que é o desenvolvimento humano.

Que características/emoções posso identificar?

Ao entrar em um processo de aprofundamento de si mesmo, o indivíduo percebe e entra em contato com diversas características suas. Passa a conhecer melhor o funcionamento de seu corpo, suas sensações físicas e psicológicas também. Questões estéticas que sofrem também a influência social são importantes de serem vistas nesse processo, bem como quais habilidades a pessoa possui e como vive suas relações como um todo. Estas são algumas das características a serem percebidas de forma consciente pelo indivíduo, que podem ajudá-lo em suas vivências e dificuldades presentes.

Vale citar aqui o Psicólogo Howard Gardner que propôs a teoria das Inteligências Múltiplas, identificando tipos de inteligência, que também são importantes na identificação de potencialidades e características pessoais. Dentre elas, pode-se citar:

  • Inteligência linguística,
  • Inteligência lógico-matemática,
  • Inteligência espacial,
  • Inteligência musical,
  • Inteligência corporal e cinestésica,
  • Inteligência intrapessoal,
  • Inteligência interpessoal,
  • Inteligência naturalista, e
  • Inteligência existencial.

Perceber em que momentos sente raiva, medo, angústia, satisfação, tristeza é importante também para perceber como as relações estão sendo vividas pela pessoa, tendo em vista que o ser humano vive em constante processo de autorregulação organísmica e busca “adaptar-se” a esse meio que o cerca.

Identificar características e olhar para si com mais profundidade também implica olhar e aceitar como fazendo parte de si aquelas características, emoções e sensações que nem sempre são tão agradáveis quanto o indivíduo gostaria. Deste modo, num processo de integração, a pessoa pode se ver como um todo, experimentando e tomando consciência de suas partes, por mais difícil e doloroso que seja em alguns momentos.

Que possibilidades tenho na vida ao me conhecer melhor?

Como um ser racional e dotado de inteligência, o ser humano poderia em algum momento “pensar” que suas habilidades cognitivas são suficientes para lidar inclusive com suas problemáticas emocionais. Porém, por ser um ser bio-psico-social-cultural-espiritual ele deve ser olhado nestas dimensões, numa relação de interdependência entre as mesmas para que possa lidar melhor com suas dores emocionais e dificuldades como um todo.

Como relata Alice Miller, ao falar da infância, “a experimentação consciente pode nos revelar a verdade”. O que implica dizer que existem experiências na infância que permanecem “escondidas”, “no escuro”, sendo de suma importância uma percepção consciente das mesmas na vida atual da pessoa, para que possa elaborá-las e ressignificá-las.

Trazendo para a vida adulta também, pode-se dizer que existem experiências e sentimentos/emoções que podem ocorrer sem o devido contato profundo com os mesmos, passando estes “despercebidos” para o indivíduo que não sabe como identificá-lo como algo seu e nem sabem como lidar com uma situação conflituosa, por exemplo, por não se conhecer com mais profundidade, inclusive manifestando por vezes fortes dores emocionais e até sintomas psicológicos ou psicossomáticos.

Ao se conhecer com mais profundidade a pessoa entra em contato consigo, numa experimentação de sensações físicas, das emoções/sentimentos, dos relacionamentos consigo e com os demais, podendo levá-la a passar por ajustamentos criativos mais saudáveis e flexíveis. Por ajustamento criativo entende-se algo contínuo, de mudança, que é também vivenciar os acontecimentos da vida e torná-los próprios. Como se a pessoa colocasse no novo que surge, algo velho, algo que vem de si para dar um novo formato.

Todavia, existem muitos ajustamentos criativos que são disfuncionais e que ao passar por um aprofundamento em si o indivíduo tem a possibilidade de adquirir ajustamentos criativos mais saudáveis e flexíveis.

Para Kneller (1965), a criatividade parece envolver certas capacidades mentais, que abrangem a capacidade de mudar a maneira pela qual cada pessoa aborda um problema, de produzir ideias relevantes e, ao mesmo tempo, inusitadas, de ver além da situação imediata e de redefinir o problema ou algum aspecto dele.

Para Zinker(2001), a criatividade é concebida como um atributo essencial e vital do ser humano, um romper de barreiras, uma afirmação da vida, de nossa integridade e de nossa própria essência como seres humanos.

Assim sendo, em um processo de autoconhecimento profundo, as pessoas podem adquirir novas possibilidades e maneiras de viver, sempre olhando suas emoções, potencialidades, recursos internos e externos, bem como experimentando-se em situações não-resolvidas para que possam fluir em suas vivências atuais de acordo com suas possibilidades internas e externas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

O drama da criança bem dotada: como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos/ Alice Miller; tradução de Claudia Abeling. – Ed. rev. e atual. – São Paulo: Summus, 1997.

Zinker, J. Processo criativo em Gestalt – terapia. São Paulo: Summus, 2007.

Rayssa Mazza de Castro Alencar
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