Desenvolvimento pessoal

A pandemia alterou sua saúde mental?

O título deste artigo inicia-se com um questionamento, cujo objetivo, caro leitor(a), é fazê-lo(a) pensar sobre como era sua vida antes da crise do novo coronavírus e como ela é agora: Quais são seus sentimentos? Suas fraquezas e também suas fortalezas? O que a pandemia lhe retirou e o que ela lhe trouxe?

Ao tratar sobre saúde mental em meio à pandemia é necessário cautela, pois as pesquisas na área, devido ao aumento repentino da demanda, ainda são incipientes. Levando isso em consideração, este texto visa abordar o tema de forma mais reflexiva, discutindo sobre escolhas, qualidade de vida e qualidade do tempo despendido em vida.

Antes do surgimento do vírus era possível verificar a vida frenética que muitos levavam, frequentemente ouvindo-se queixas como “não tenho tempo para realizar o que quero” ou, então, “não tenho tempo para mim, a vida anda corrida”.

E essas queixas acabaram ficando paradoxais nos dias de hoje, pois o tempo que atualmente temos à disposição em razão do isolamento social nos permite pensar mais sobre nós mesmos, sobre nossas escolhas e sobre o estilo de vida que levávamos.

Esse maior tempo disponível, muitas vezes, nos causa angústia. Para tentar reduzi-la, há uma técnica utilizada na Psicoterapia chamada de questionamento socrático, a qual, conforme o nome prenuncia, provém do filósofo grego Socrátes, que consiste em levantar uma série de questionamentos, não apenas para obter respostas específicas, mas para encorajar também uma compreensão clara e fundamental do assunto. 

Assim, quando entramos em contato conosco mesmos, muitas questões se apresentam, pelo que utilizamos do método de Sócrates de forma quase que inconsciente. Nesse contexto, o tempo livre nos fez pensar mais e, consequentemente, chegar à conclusão de que utilizávamos da correria da rotina diária como estratégia de enfrentamento para não sentir nossas dores internas.

Será o novo normal?

Observa-se que, com a mudança de hábitos de higiene atrelado ao uso de máscaras de proteção, somadas às novas formas de trabalho e comunicação – como é o caso do home office e das vídeoconferências – surgiu um termo popular chamando esse conjunto de novidades de “novo normal”.

Dessa forma, questiono: a que normalidade estamos nos referindo? Será que em algum momento vivemos em normalidade?

O conceito de normalidade é complexo, sua etimologia provém do latim normalis, que significa “de acordo com a regra”. Este conceito reforça a ideia de que buscamos nos segurar em algo para viver. Antes da pandemia, tínhamos a falsa segurança do dia posterior, ilusão inevitável para a vida diária, pois é através dela que fazemos planos e deixamos para amanhã algumas oportunidades.

Acerca do tema, o filósofo Canguilhem, que estudou a relação entre o normal e o patológico, descreve que tanto a saúde quanto a doença são normais, pois elas se referem a uma norma de vida, isto é, não há uma normalidade, mas distintas normalidades.

A definição muito tem de subjetivo, pois como seres individuais enfrentamos a saúde e a doença de diferentes formas. A saúde está sempre relacionada à forma pela qual o indivíduo interage com os eventos da vida, forma que é construída ao longo da existência, desde a infância.

O estigma

O receio da contaminação está presente nos nossos dias, contudo, devemos tomar cuidado com expressões como “vítimas”, “famílias COVID-19” ou “doentes”, termos que devem ser substituídos por “pessoas que têm COVID-19” ou “pessoas em recuperação de COVID-19”.

A forma como nos expressamos pode acentuar e perpetuar estereótipos e fortalecer falsas premissas tanto sobre pessoas quanto sobre a doença, o que pode, inclusive, causar pânico e desumanizar aqueles que são acometidos por ela.

O enfrentamento de cada pessoa é diferente

No enfrentamento da pandemia é perceptível os diferentes comportamentos individuais. Há os que se encontrem em um processo de negação e acreditam que o vírus não é algo tão perigoso, motivo pelo qual não tomam os devidos cuidados.

Outros, porém, cientes do perigo enfrentado, seguem as recomendações dos órgãos competentes, no entanto, por conta dessas próprias medidas de proteção, sentem-se abalados emocionalmente, pois uma vida “sem segurança” seria impossível de ser vivida. A pandemia, de uma forma violenta, colocou-nos na linha limítrofe da nossa fragilidade.

E se essa fragilidade sempre existiu, a quarentena e o isolamento social a potencializaram. Cabe aqui a reflexão: quem sabe este é o momento de cuidarmos das nossas dores internas, nossos traumas que sempre estiveram guardados e não foram tratados como deveriam e aparecem agora intensificados.

E quando tudo isso passar, poderemos ter relações mais saudáveis conosco mesmos. Vale rememorar o trecho de uma música de Milton Nascimento, que diz: “abelha fazendo o mel, vale o tempo que não voou.”

Sugestões de atividades para o enfrentamento dos desafios impostos pela pandemia

As recomendações a seguir têm o objetivo de potencializar a produção de estabilização emocional dos indivíduos no momento da pandemia. São elas:

  • Estabelecer uma rotina diária para si e para a família;
  • Realizar exercícios físicos;
  • Realizar exercícios cognitivos, cursos online e leitura de livros;
  • Realizar exercícios de relaxamento, atividades como meditação e controle da respiração ajudam a aliviar o estresse;
  • Buscar conteúdos e práticas que restabeleçam a confiança em si mesmo, seja de ordem intelectual, terapêutica, religiosa ou espiritual;
  • Manter uma alimentação saudável;
  • Eleger alguns canais de comunicação confiáveis para buscar notícias;
  • Limitar o tempo gasto buscando informações, ou seja, buscar informações sobre a pandemia uma ou duas vezes por dia, em um tempo limitado de 30 minutos.
  • Questionar informações que não possam ser verificadas;
  • Planejar suprimentos;
  • Estar atento ao consumo de bebidas alcoólicas;
  • Estabelecer um tempo de convivência com os moradores da casa;
  • Estabelecer contatos telefônicos ou online, enquanto contatos face a face não forem possíveis;
  • Prestar atenção nos próprios sentimentos e necessidades;
  • Lembrar que o distanciamento social, mais que uma obrigação ou imposição, é um ato de altruísmo;
  • Participar de grupos de apoio online ou buscar apoio especializado, como profissionais da psicologia que estão atendendo de forma online.

Por último, mas não menos importante, o psicanalista Alfred Adler descreve que o interesse social é uma força motriz, ou seja, é a base para qualquer desenvolvimento humano, o qual consiste em ajudar a sociedade a alcançar a meta de um convívio mais adequado.

É no senso de solidariedade, na relação de um homem com o outro, que se demonstra a mais ampla conotação de uma noção de fraternidade na comunidade humana. Preservar a vida, cuidar de si, também faz parte do cuidado social.

 

Para conhecer mais meu trabalho, siga-me em https://www.instagram.com/psijanayna/

 

Referências Bibliográficas:

COELHO, Maria Thereza Ávila Dantas; ALMEIDA FILHO, Naomar de. Normal – Patológico, Saúde – Doença: Revisitando Canguilhem. Physis, Rev Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 1, n. 9, p. 13-36, 1999. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/physis/v9n1/02.pdf. Acesso em: 11 ago. 2020.

SAÚDE MENTAL E ATENÇÃO PSICOSSOCIAL NA PANDEMIA COVID-19. Brasil: Ministério da Saúde – FIOCRUZ, 2020. Disponível em: https://efg.brasilia.fiocruz.br/ava/pluginfile.php/73441/mod_resource/content/7/cartilha_quarentena.pdf. Acesso em: 11 ago. 2020.

SCHMIDT, Beatriz et al . Saúde mental e intervenções psicológicas diante da pandemia do novo coronavírus (COVID-19). Estud.psicol, Campinas, v.37, e200063,2020. Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103166X2020000100501&lng=en&nrm=iso>.access on  11  Aug.  2020.  Epub May 18, 2020.  https://doi.org/10.1590/1982-0275202037e200063

Janayna Longhi
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