Desenvolvimento pessoal

Psicologia Humanista: sua fonte de autorrealização

Para início de conversa

A expressão humanismo surgiu no renascimento entre o final do século XIV e o início do século XV, e designava tanto um sentido literário quanto um viés filosófico, atentando-se com o valor do ser humano e a tentativa de compreendê-lo em seu mundo.

Apesar do caráter atual do termo, podemos resgatar uma história mais extensa do humanismo, relacionando-o a todo movimento que busque pensar o ser humano a partir do que mais o singulariza. 

Nesse sentido, o movimento humanista teria começado na Grécia do século V a.C., com os sofistas, especialmente com o primeiro deles, Protágoras, que denotava um pensamento que ainda hoje repercute entre nós: “O homem é a medida de todas as coisas, das que são, enquanto são, e das que não são, enquanto não são”.

O humanismo de Protágoras consiste numa relação dialética com os fatos e com a realidade que cada ser humano instaura vez por vez, segundo suas disposições, idade e situação histórica. Destaca-se, em vista disso, a autonomia humana; não há destino ou um determinismo pelo qual o ser humano é submetido ou arrastado.

No decurso da idade média, exterioriza-se um humanismo teocêntrico (ou cristão), para o qual o valor do ser humano é concedido na relação imanência-transcendência; ressalta-se, nessa forma de humanismo, que Deus é o centro do ser humano.

No renascimento, temos o advento do humanismo antropocêntrico, que tem por pressuposto a ideia de que o ser humano é ele próprio o seu centro, e assim de todas as coisas. Modernamente e de um ponto de vista individual, os pensadores do Iluminismo, cada um a seu modo, deram contribuições fundamentais à compreensão da especificidade do ser humano, sem deixar de incluir uma discussão sobre o seu valor. 

O humanismo na psicologia

Reconhece-se, nesta perspectiva, que o humanismo é “o retorno à máxima sofista que a experiência humana é a medida de todas as coisas” (GOMES, 2010, p. 8). Mas como o humanismo chega à psicologia?

As raízes do humanismo psicológico estão na fenomenologia, que foi desenvolvida pelo matemático e filósofo alemão Edmund Husserl e, juntamente com o advento de uma forte corrente de pensamento europeu, o existencialismo, que ganha força com as obras de Jean-Paul Sartre, Martin Heidegger, Maurice Merleau-Ponty, entre outros, eles se erguem em um movimento que visa refletir sobre a própria existência do ser humano, sua subjetividade.

Como assinala Holanda (1997, p. 37), “a Fenomenologia é um esforço, uma tentativa de clarificação da realidade humana. É uma abertura à experiência, à vivência integral do mundo”.

Filósofos como Husserl e Merleau-Ponty estavam convencidos de que a psicologia deveria lidar com o estudo da relação íntima e fundamental entre o sujeito pensante e o objeto pensado, ou seja, que a psicologia deve chegar à própria essência das coisas, por isso que o termo fenomenologia significa ciência do fenômeno.

Os representantes dessa corrente fenomenológica criticaram fortemente o método experimental, porque defendem a ideia de que o ser humano é uma totalidade e, como tal, não está sujeito à análise do cientista, mas ao de sua própria reflexão.

Perspectivas diversas

Tanto os filósofos como os psicólogos seguiram abordagens fenomenológicas, com perspectivas muito diversas, como a Gestalt e a Abordagem Centrada na Pessoa; mas em todas elas, a filosofia e a psicologia se confundem no famoso enunciado de que “a existência precede a essência” (SARTRE, 2014).

Existência significa emergir ou tornar-se; essência implica uma substância estática imutável. Existência sugere processo; essência se refere a produto. A existência está associada a crescimento e à mudança; essência significa estagnação e finalidade.

Essa constatação nos faz compreender que, primeiro, o ser humano existe, surge no mundo, só depois, a partir do seu processo de relações, é que ele se define, delineia sua essência, sua personalidade, cujo núcleo fundante é o projeto de ser.

Dessa maneira, tanto filósofos quanto psicólogos encontram no existencialismo e no humanismo pontos comuns que levam à constatação de que a preocupação básica da psicologia deve ser a existência humana e que ela se desdobra no presente, não no passado e nem no futuro.

Consequentemente, esses estudiosos entendem que a realidade humana é sempre o produto das percepções únicas do mundo de uma pessoa em particular, e que os seres humanos têm a capacidade de fazer suas próprias escolhas, com base na construção desse mundo íntimo e único de cada pessoa.

A terceira força em psicologia

Desse modo, a psicologia humanista tem sua origem na década de 1930, nos Estados Unidos, e teve seus primeiros trabalhos lançados a partir dos anos 1940.

Todavia, somente na década subsequente esse movimento obteve reconhecimento. Os principais autores considerados mentores do movimento humanista na psicologia são Abraham Maslow, Gardner Murphy, Gordon Allport e Carl Rogers.

Esses autores foram os protagonistas de um movimento que veio a ser denominado como terceira força em psicologia, pois se pressupunha como uma alternativa a dois outros movimentos muito fortes nos Estados Unidos da época, o behaviorismo de John Watson e a psicanálise de Sigmund Freud.

Contudo, a psicologia humanista não tem como objetivo a revisão nem a adaptação de nenhuma escola de pensamento. O humanismo, na psicologia, enfatiza a autonomia do ser humano bem como a sua experiência consciente, o livre-arbítrio e a plena capacidade do indivíduo realizar sua satisfação. 

Podemos apontar, desta forma, que a abordagem humanista é uma perspectiva diametralmente oposta ao determinismo da abordagem psicanalítica e ao objetivismo da abordagem comportamental; e que enfatiza a confiança no ser humano, bem como em suas aspirações positivas. Como assinala Amatuzzi (2012, p. 17), “o pressuposto humanista é diferente: é o pressuposto da autonomia”.

Para finalizar a conversa

Justifica-se, neste sentido, nossa predileção pela psicologia humanista por esta ser mais inclusiva do que exclusiva, assumindo uma atitude mais integrativa do que dicotômica em face das outras escolas da Psicologia.

A abordagem humanista entende o ser humano como um ser em constante busca pela construção de si mesmo, tendo que fazer uso de seus recursos para desenvolver plenamente seu potencial. Uma concepção comum e imprescindível na psicologia humanista, e que sustenta a condição de autonomia com relação às determinações, é a autorrealização, que pressupõe um potencial a ser realizado e uma tendência à sua realização.

A psicologia humanista quebrou a rigidez monolítica das abordagens deterministas e objetivistas, que já vinham sendo minadas por pluralismos internos, embora compatíveis entre si. Com o irromper veemente do humanismo na psicologia, a condição de autonomia com relação às determinações veio para ficar.

A entrada triunfal de novas perspectivas de compreensão da especificidade do ser humano, na esteira científica de Abraham Maslow, Gardner Murphy, Gordon Allport e Carl Rogers, rompeu o silêncio dos astros com o barulho da terceira força em psicologia.

O mundo da psicologia se converteu em um canteiro de obras, com demolições e construções.

Lá, no coração do ser humano, a subjetividade acordou do sono tradicional do império das autoridades. Tudo passa pelo crivo da autorreflexão. Nenhuma posição consegue firmar-se com autoridade absoluta e definitiva. A psicoterapia tornou-se um processo livre de busca de crescimento pessoal.

Marcos Santos (CRP 07/34049)

Referências bibliográficas

  1. AMATUZZI, M. M. Rogers: ética humanista e psicoterapia. 2. ed. Campinas: Alínea, 2012.
  2. GOMES, W. B. Relações metodológicas entre fenomenologia, historiografia e psicologia humanista. Revista da Abordagem Gestáltica, v. XVI, p. 3-11, 2010.
  3. HOLANDA, A. Fenomenologia, psicoterapia e psicologia humanista. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 14, n. 2, p. 33-46, 1997.
  4. JACÓ-VILELA, A. M.; FERREIRA, A. A. L.; PORTUGAL, F. T. (Orgs.). História da psicologia: rumos e percursos. 3. ed. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2014.
  5. ROGERS, C. R. Tornar-se pessoa. 6. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017.
  6. ROGERS, C. R. Um jeito de ser. São Paulo: E.P.U., 2016.
  7. SARTRE, J. P. O existencialismo é um humanismo. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
  8. SCHULTZ, D. P.; SCHULTZ, S. E. História da psicologia moderna. São Paulo: Cengage Learning, 2014.
Marcos Santos
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