Ansiedade

E se isso acontecer mesmo?

Muitos de nós já ouvimos falar na palavra ansiedade, no entanto, o que exatamente ela significa? Podemos ouvir de um amigo: “Nossa, cara! Não tô conseguindo fazer nada hoje, tô desesperado. Não paro de pensar  na prova que acontecerá segunda. Já reprovei duas vezes! E se eu falhar mais uma vez? E se isso acontecer mais uma vez?”.

Aqui vemos uma pessoa aflita, pensando no pior que o amanhã pode trazer, como exemplo, um evento marcado na agenda que sinaliza possível sofrimento, pois, ela teve experiências punitivas em situações iguais ou semelhantes no passado. 

Como você descreveria o estado dessa pessoa?

Apreensiva, triste, preocupada? Aposto que muitos pensaram na tal da Ansiedade, e como essa pessoa está sofrendo por algo, que de fato, ainda não ocorreu. Inclusive, pode ser que nem ocorra (passou na prova, por exemplo). 

A ansiedade não é a causa dos comportamentos, e não se trata de algo longe do nosso alcance, ou seja, impossível modificar essa difícil realidade.

Análise do comportamento

A Análise do Comportamento, como ciência do comportamento humano, possui diversos estudos que mostram sua contribuição na modificação de comportamento e consequente melhoria da qualidade de vida.

Seu precursor foi o psicólogo e biólogo norte-americano B. F. Skinner. Para ele, de forma bem resumida, todo comportamento ocorre diante de um antecedente (local onde ocorreu, diante de quem, situação), e é mantido ou enfraquecido pelas consequências que produz no ambiente.

As consequências são reforçadoras (aumentam as chances do comportamento ocorrer no futuro) ou punidoras (diminuem as chances do comportamento ocorrer). 

Reforço no cotidiano

No dia a dia você pode perceber como as consequências determinam nossos comportamentos. Por exemplo, você está na sala, vê todos os colegas, e chega a hora de apresentar seu trabalho para todos (antecedente), você vai ao centro da sala e começa a apresentar todo seu trabalho (comportamento), e após finalizar a apresentação, a sala toda aplaude e seus colegas o elogiam muito, além da boa nota dada pelo professor (consequência reforçadora).

É provável que você volte a fazer apresentações no futuro, pelo fato de você gostar muito de receber elogios das pessoas. Não só na faculdade podem aparecer os comportamentos mencionados, mas também em ambientes parecidos que demandam o comportamento de “falar em público”. 

E a punição?

Agora imagine, digamos que ao invés de receber elogios, ganhar atenção do público e boa nota do professor, após a apresentação você recebesse críticas dos colegas, além de perceber que alguns até riram de um momento em que gaguejou (consequências punidoras). 

Supondo que “críticas” sejam coisas muito desagradáveis a você, é provável que “apresentar alguma coisa para um grupo de pessoas, falar em público” tenha tido suas chances de ocorrências enfraquecidas em situações parecidas no futuro.

Se essa situação se repetir outras vezes, a experiência vai ficando cada vez mais aversiva, e logo temos um potencial contexto gerador da famosíssima ansiedade.     

Um estado corporal

 A Ansiedade pode ser entendida como um estado corporal gerado quando o ambiente sinaliza a possível ocorrência de um evento aprendido como muito perturbador.

Nesse estado corporal estão presentes respostas fisiológicas (taquicardia, suor intenso etc.), comportamentos do tipo pensamento e sentimentos (tristeza, desespero), sendo que ambos ocorrem debaixo de nossa pele, ou seja, não passíveis de observação direta por outra pessoa. 

Também estão presentes comportamentos visíveis por outras pessoas, como por exemplo “andar pra lá e pra cá”, dizer algo como: “Meu Deus, se isso acontecer tá tudo acabado”.

Alguns comportamentos que produzem consequências importantes para essas pessoas, como trabalhar, ler um livro, praticar esportes, tornam-se cada vez menos frequentes.    

Qual seu contexto?

Imagine que você se preparou durante um mês para um teste prático de direção na autoescola, não faltou nenhuma aula, está conseguindo pilotar bem o veículo.

No dia do teste prático para conseguir a CNH, estava dando tudo certo, o avaliador entra no seu carro e dá início ao teste. No momento da baliza (a famosa baliza), você comete um pequeno deslize e acaba esbarrando no carro a frente, resultando em sua reprovação imediata (sabemos que os testes são bem rígidos).

Ser reprovado, na maioria das vezes, é uma experiência muito desagradável e frustrante, podendo prejudicar a forma como nos autoavaliamos.  

Como ela se formula?

Podemos entender que toda essa cadeia de respostas, como entrar no carro, colocar o sinto, dar partida e prosseguir, manobrar o carro para a baliza, bater no carro da frente, teve como consequência imediata uma severa punição, no caso, a reprovação, que ainda impõe que você faça novamente o teste no mês seguinte (pagando por ele).

A punição diminui as chances dos comportamentos ocorrerem no futuro, portanto, todos os comportamentos mencionados foram enfraquecidos. 

Após a punição

Tudo que se envolveu nessa experiência pode se tornar algo desagradável para você, como as lembranças do dia do teste, pensar na possibilidade de se fazer o teste, entrar no carro, pilotar um automóvel, além disso, como a experiência aversiva envolveu uma “prova”, temos o risco que você generalize tudo isso para outras situações de “prova”, como uma prova da faculdade, uma prova na escola. 

Próximo ao evento

O teste é remarcado para 20 dias após a reprovação (sinalização de ocorrência da punição), ou seja, tem todo esse tempo para você se preparar, mas, ao invés de estudar e praticar, você começa a lembrar daquele dia tão estressante, e como seria péssimo passar por isso novamente.

Isso desencadeia uma série de respostas no corpo, como taquicardia, sudorese, ao invés de focar no que está fazendo no presente, você passa a imaginar a reprovação inevitável.

Aí sim, podemos chamar tais comportamentos de “ansiedade”.

A Ansiedade é parecida com o Medo, porém, ela ocorre diante da sinalização de um perigo que ainda de fato não ocorreu. Perceba, por meio deste último exemplo que citamos, que você age como se já estivesse no dia e momento do teste. 

Ansiedade e improdutividade

Perceba que no início do paragrafo anterior, ao invés de se concentrar, estudar e praticar direção para melhorar suas chances de passar no teste, você se comportou de maneira bem diferente. Ficou pensando em algo que ainda nem ocorreu, ficou andando pra lá e pra cá, perdendo bastante tempo, ou seja, esteve bem improdutivo. 

Seus comportamentos produtivos pertinentes à tarefa foram suprimidos drasticamente. A supressão é um efeito vinculado à Ansiedade, diminuindo frequência de comportamentos que poderiam produzir consequências reforçadoras. 

História evolutiva

Por mais que a Ansiedade nos pareça um “bicho papão”, ela tem importância no histórico de evolução da espécie humana.

Quando entramos no carro para ir trabalhar, muitas vezes nos preocupamos e tememos que haja um acidente (evento punitivo). Ficamos ansiosos, mas num nível em que começamos a se comportar para evitar o evento punitivo (acidente), ou seja, há certa preparação. 

A espécie humana não teria chegado onde chegou sem esses comportamentos, como o Medo e a Ansiedade. Em algum momento da vida vamos estar ansiosos, é essencial que saibamos de sua importância e que possamos analisar se ela realmente está causando perturbações. 

Ansiedade na pandemia

É simples de entender como o comportamento ansioso prejudica a qualidade de vida das pessoas. Imagine agora na pandemia, onde há uma sinalização de perigo constante (adoecer por COVID-19, ir ao hospital, falecer etc.).

Algumas pessoas ainda não contraíram o vírus, mas há esse pensamento de perigo iminente (sinalizado por notícias todos os dias).

Além do vírus, existem muitas pessoas com dificuldades financeiras, sendo também um contexto que pode desencadear ansiedade. A pessoa vê suas contas acumularem, recebe cobranças (sinal de possível punição) e comporta-se de forma ansiosa: “posso acabar perdendo meu apartamento”.  

Lidando com a Ansiedade

Para lidar com a Ansiedade, é muito importante que você busque ajuda profissional, pois, é necessária a análise do contexto onde costuma ocorrer e quais as consequências que mantêm esses comportamentos. Isso pode ser muito difícil de conseguir sozinho(a). 

Nunca acontece “do nada”, assim como qualquer outro comportamento humano. 

O psicólogo precisa entender não só a queixa de ansiedade, mas entender todo o histórico de vida do paciente. Muitas vezes a Ansiedade pode ser acompanhada por déficits em outras áreas, como habilidades de socialização, transtorno depressivo, rigidez de comportamento, síndrome do pânico, fobia social. 

Psicólogo e intervenções

A partir da identificação da função que a ansiedade tem na vida do paciente, o Psicólogo pode ajudá-lo a modificar seu próprio ambiente e comportamento, com base nas suas próprias capacidades.

No exemplo mencionado no início do texto, você estava apreensivo, pois, o dia do teste prático da CNH se aproximava. Imagine que você tentou mais três vezes e foi reprovado em todas elas.

Devido as contínuas reprovações, você acaba desistindo do processo. Você começa a fazer psicoterapia e começa a perceber o quão ampla é a situação, e que existe um motivo para você se sentir ansioso.

Como só a ideia de entrar no carro já desencadeia ansiedade, o psicólogo começa a te expor, pouco a pouco, sobre assuntos que envolvem carros, pilotagem, ruas etc. 

Após você estar habituado aos assuntos, você é exposto a vídeos sobre carros, vídeos de pilotagem. Em seguida, o psicólogo te acompanha até os arredores de onde é realizado o teste prático, conversa sobre o que lembra desse lugar, o que sente, e te parabeniza muito por todo esforço, progresso e conquistas.

Esse tipo de intervenção faz com que todo o evento aversivo, gradualmente, deixe de gerar os sentimentos perturbadores. 

Procedimentos aliados

O Mindfulness, uma técnica de meditação que já possui pesquisas que mostram resultados em autocontrole, concentração.

As práticas de exercícios físicos liberam neurotransmissores responsáveis pela sensação de prazer, como a serotonina e endorfina, auxiliando também na diminuição do estresse.

Mas vale lembrar, que também tudo isso depende muito da preferência do paciente, precisa ser de seu interesse.  

Ressaltando

Esses exemplos de intervenções se basearam na situação hipotética do teste de CNH (bem simples). Não existem intervenções preestabelecidas, pois cada um é cada um, os procedimentos mudam de acordo com a singularidade do paciente, e o psicólogo precisa avaliar constantemente cada caso particular.

Espero ter te ajudado a entender um pouco melhor sobre as funções da ansiedade na vida humana.

Obrigado por sua atenção!

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

COELHO, Nilzabeth Leite; TOURINHO, Emmanuel Zagury. O conceito de ansiedade na análise do comportamento. Psicol. Reflex. Crit.,  Porto Alegre ,  v. 21, n. 2, p. 171-178,    2008 . Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-79722008000200002&script=sci_arttext

Ferreira, D. C., Tadaiesky, L. T., Coêlho, N. L., Neno, S., & Tourinho, E. Z. A interpretação de cognições e emoções com o conceito de eventos privados e a abordagem analítico-comportamental da ansiedade e da depressãoPerspectivas Em Análise Do Comportamento, v.1, nº 2, p. 70-85, 2010. Disponível em: https://doi.org/10.18761/perspectivas.v1i2.27

GUILHARD, Hélio José. Controle Coercitivo e Ansiedade – Um caso de “transtorno de pânico” tratado pela Terapia por Contingências de Reforçamento. Instituto Terapia por Contingências de Reforçamento (ITCR). Campinas, pág. 01-48, 2004. Disponível em: http://www.itcrcampinas.com.br/pdf/helio/Controle_corecitivo_ansiedade_TCR.pdf

Rhai Estevam da Silva
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