Saúde

Agressividade masculina: Como quebrar o ciclo de violência?

No dia 25 de novembro, lembramos de uma palavra muito importante para as nossas vidas: o NÃO. Esta é a base do Dia Internacional da Eliminação da Violência contra as Mulheres, uma reflexão sobre o quanto podemos nos unir para quebrar o ciclo de violência que está presente em nossas vidas. 

Uma reportagem do G1 mostra que 48% das agressões contra as mulheres ocorrem em casa, sendo 25% delas praticadas pelos próprios companheiros. Por isso, é muito importante falar sobre esse tema não só hoje, como em todos os dias do ano. 

Conversamos então com o psicólogo Aristeu Junior sobre a violência contra a mulher e a agressividade masculina para entender um pouco o motivo desses números serem tão altos no Brasil e como podemos quebrar este ciclo.

A base de uma cultura de agressão 

Você já percebeu que muitas vezes, quando ouvimos um caso de agressão contra uma mulher, logo pensamos em um homem agressivo e com raiva? 

Por que será que normalmente temos a ideia de que o homem sempre reage da forma mais agressiva ou violenta diante de um conflito?

Aristeu falou um pouco sobre isso e disse que isso está associado à criação e ao machismo: “O Brasil ainda tem pessoas com a cabeça muito fechada, que colocam o homem como o detentor da mulher e a tratam como um objeto”. 

Por isso, neste caso, quando o casal briga, “a reação do homem é sempre desproporcional, coisas pequenas viram coisas grandiosas e ele pode responder com mais veemência e com violência, às vezes não só com a física, mas com a psicológica”, explica.

Quando a realidade e a ficção se misturam 

No ano de 2021, a Netflix lançou a série Maid, que explica um pouco de uma barreira que enfrentamos constantemente: o reconhecimento de que palavras ofensivas, ameaças e manipulações também são formas de ataque. 

Para Aristeu, apesar da agressão física ser muito triste, porque muitas vezes leva a mulher à morte, “ela é mais perceptível, então é mais fácil de ajudar”. 

Infelizmente isso não acontece com a agressão psicológica, em que a pessoa sofre em silêncio. “Com aquela pressão interna”, explica o psicólogo, “ela fica sempre na defensiva, sentindo-se extremamente fragilizada, e frequentemente não tem coragem de mostrar o que acontece dentro de casa”. 

Além disso, temos uma cultura aqui no Brasil de “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Então, muitas pessoas ouvem os vizinhos brigando ou até mesmo ouvem barulhos que parecem tapas ou socos, mas acabam ficando quietos e não denunciando para não se intrometer na briga.

Na experiência de Aristeu, as pessoas falam: “’Ah, é casal, é briga de marido e mulher’, e nessa história infelizmente muita gente morre porque a nossa cultura é muito egoísta, não é altruísta”. 

Ele afirma que é preciso agir diante de casos de agressão: “Até quando você vai esperar para ajudar a sua vizinha? Será que você tem que esperar isso acontecer com um parente próximo para entender que isso é coisa séria?”.

Outro ponto levantado pelo psicólogo é que temos uma tendência de colocar a culpa na mulher, porque “ela teve o que merece, ela não fez comida”. Contudo, quando é a mulher que sofre as agressões, ela é a vítima. Aristeu esclarece que, nessas situações, muitas vezes a mulher se sente culpada, mas a culpa é do agressor, e não dela. 

Quebrando o ciclo da violência 

Agora, vamos imaginar que um homem está indo na terapia, que já teve um maior trabalho de autoconhecimento, trabalhou algumas questões e percebe que está agindo de forma violenta. O que ele pode fazer para quebrar esse ciclo de agressividade? 

Aristeu explica que o fato de o homem já estar fazendo terapia é um passo muito importante e que ele precisa “ter consciência do hábito, porque se eu não tenho consciência do que faço, eu não mudo”. A questão da mudança é muito trabalhada por ele em sua prática, já que ele segue a abordagem humanista: “é um trabalho de aceitar a realidade”, diz.

Se um homem se torna consciente de que ele agrediu e leva isso para a terapia, isso quer dizer que, de alguma forma, isso o incomoda e ele pode querer mudar. O psicólogo ressalta que é importante pontuar algumas coisas para o paciente: é preciso, reforçar que agredir “é errado porque você feriu o outro, é ilegal, é crime”.

Além disso, Aristeu também aponta que a agressão, muitas vezes, tem repercussões que extrapolam o momento em que ela acontece: “quando o homem está agredindo uma mulher, está agredindo uma vida inteira, a construção de um sonho e de uma família. Está frustrando a uma pessoa e a si mesmo”.

Na terapia, a realidade é confrontada e o objetivo é fazer o paciente perceber a situação e convidá-lo para uma reflexão pessoal, já que “não adianta fazer discursos, se o homem não for consciente e nem se sentir incomodado.”

Para finalizar, Aristeu dá um exemplo prático sobre uma reflexão: “Parar de culpar a vítima é o essencial. Você pode até não concordar em uma discussão ou até estar com razão, mas, se você for violento, perde totalmente a razão. Nada justifica uma agressão. Se você foi traído, separa, não agrida, Vai fazer isso para quê? Para se sentir mais homem?”.

O aumento de casos na pandemia 

Infelizmente, por conta da pandemia, mais pessoas ficaram dentro de casa, convivendo diariamente com as agressões e com os agressores. 

Para Aristeu, se fizermos uma análise técnica do aumento de casos de violência doméstica, podemos entender que isso pode ter acontecido porque ficamos no mesmo lugar, 24 horas. “A violência que era mais pontual se tornou algo rotineiro, por várias coisas, como o estresse. Isso não justifica a violência, mas ajuda a entender a sua origem”, ressalta ele.

Outra explicação é que muita coisa mudou no nosso interior com a pandemia e o isolamento. Assim, vieram à tona muitas questões que já estavam presentes há muito tempo na relação do casal e que não eram faladas, como o ciúme.

De fato, o estudo da G1 mostra que 17 milhões de mulheres sofreram algum tipo de violência no último ano, o que deixa claro que ainda esse assunto precisa ser muito debatido.

O que uma mulher que sofreu violência pode fazer?

O que podemos fazer, então, se vemos que uma mulher está passando por um ciclo de violência?

Aristeu explica que temos de pensar em quem é essa mulher como um todo, porque a maioria das que sofrem violência abdicam da sua vida para cuidar dos outros. “Na terapia, além de buscar entender a realidade dessa mulher, mostramos que a violência não é normal”. Depois que se torna consciente do que está passando, ela é orientada a buscar um apoio social e psicológico, além, claro, de fazer a denúncia.

Ele complementa dizendo que trabalharia para que ela se percebesse como sujeito e que existem outras possibilidades fora do casamento. Porém, esse processo é uma construção diária e muitas vezes difícil. Para exemplificar, ele nos traz um relato real de uma paciente:

“Eu atendi muitos casos de violência em que a mulher não sabia o que fazer. Uma vez, um menino chorando e desesperado me parou no meio da estrada e me pediu ajuda. Eu fui ajudá-lo porque ninguém pede socorro à toa. 

Quando eu cheguei na casa dele, vi uma mulher desmaiada e, depois de prestarmos a assistência física, fizemos a psicológica. Perguntamos se ela queria falar sobre o assunto e ela disse que sim.

Ela disse que era agredida pelo marido e que não se separou porque não tinha para onde ir, que sua família disse que isso estava acontecendo porque ela não era uma boa esposa, e por isso, não ajudavam. Ela não se separava para dar comida para o filho, que tinha fome”. 

Difícil ler um caso assim, não é mesmo? Mas, infelizmente, essa é a realidade de muitas mulheres que vivem presas no ciclo da violência. E falar sobre isso diariamente ainda é um futuro distante, porque esse tema ainda gera muito desconforto e medo, apesar de estarmos rodeados por situações como essa o tempo todo.

Precisamos conseguir discutir isso em casa, no dia a dia. Nas escolas, começando pelas crianças, que passam a questionar coisas simples como: “Papai, não grita com a mamãe”. Identificando a violência, podemos rompê-la. 

Se você presenciar alguma situação de violência contra a mulher, não deixe de denunciar, pelo número de telefone 180.

Mas, se você é um homem que reconhece que age de maneira agressiva com a sua companheira, a terapia é um bom espaço para falar sobre isso e para mudar. É um lugar em que você não será julgado, mas ajudado.

Você não será menos homem por quebrar esse ciclo de violência, nem por ir à terapia. Ao contrário, estará sendo humano!

Referências

  1. https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/06/07/1-em-cada-4-mulheres-foi-vitima-de-algum-tipo-de-violencia-na-pandemia-no-brasil-diz-datafolha.ghtml
  2. https://www.metropoles.com/ponto-de-vista/nao-ha-pilula-contra-a-violencia-de-genero-a-solucao-e-complexa
  3. https://www.uol.com.br/splash/noticias/2021/10/17/maid-conheca-a-historia-real-por-tras-da-nova-minisserie-da-netflix.htm
  4. https://www.uol.com.br/splash/noticias/2021/10/17/maid-conheca-a-historia-real-por-tras-da-nova-minisserie-da-netflix.htm
  5. https://blog.psicologiaviva.com.br/violencia-psicologica-contra-mulheres/
  6. https://blog.psicologiaviva.com.br/a-violencia-psicologica/
  7. https://blog.psicologiaviva.com.br/mulher-violencia-e-pandemia/
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