Ansiedade

Ansiedade: Bicho papão ou melhor amiga?

Em tempos modernos, nessa era instantânea, onde estamos sempre produzindo, estamos sempre trabalhando, onde cada vez mais perde-se a noção de “horário de trabalho”, em que precisamos estar engajando, promovendo; em que as pessoas se destacam por curtidas ou seguidores, e se projeta cada vez mais no futuro, no amanhã, no que vai acontecer se, o que vamos fazer se, e se? E se não der certo? E se não gostarem?, etc. O fato é que a ansiedade certamente vem aumentando. 

Ser ou não ser?

Ter ansiedade é algo normal, é de se estranhar não se sentir ansioso. A ansiedade é um processo natural do ser humano, um mecanismo para nos impulsionar à ação necessária para um fim. Um friozinho na barriga na iminência de uma decisão a ser tomada, parar por um instante e pensar no que precisa ser feito para alcançar o que se precisa, como decidir as opções para cursar uma faculdade na hora de se inscrever no vestibular, pois muitas questões estão envolvidas, como não ter a opção que se deseja na cidade, o que a pessoa a pensar se vai precisar se mudar, como seria a logística, além da pontuação necessária para passar.

Então, ter um nível de ansiedade nessas situações da vida é algo normal.

Quando vira um problema?

A ansiedade se torna um problema quando não se reconhece e portanto não se sabe lidar com ela, e na tentativa de resolver determinada situação, utiliza-se de mecanismos que na verdade resultam em uma solução disfuncional. Por exemplo, não enviar o currículo para uma vaga de emprego por pensar na verdade que não se está preparado, mesmo estando de fato, e mesmo transparecendo estar, mas de certa forma a pessoa se sabota, cria justificativas muitas vezes bem racionais. Ou seja, quando a ansiedade começa a atrapalhar a vida, é um sinal de alerta.

Como identificar?

Ênio Brito Pinto, em seu livro: Dialogar com a ansiedade, usa esse termo que traduz perfeitamente como entender melhor esse processo e o que acontece conosco. Pois dialogar com a ansiedade, no sentido de tentar entender o que ela nos diz, sobre os caminhos a se seguir, é um movimento de entrar em contato com nós mesmos, de nos perceber, de nos acolher e buscar o autoconhecimento.

Ou seja, é importante identificar se se está num ciclo de ações repetidas, uma forma de agir que não está sendo funcional, que não funciona em situações similares e mesmo assim insiste em continuar.

Utilizando ainda o exemplo da vaga de emprego, seria como se todas as vezes que surgissem oportunidades de emprego muito boas a pessoa sempre racionalizasse da mesma maneira para justificar o fato de não ter enviado o currículo, mais uma vez se sabotando, como se ela não fosse merecedora de uma oportunidade de emprego tão boa, ou como se a própria pessoa não se reconhecesse como sendo capacitada para tal cargo.

O monge vietnamita Thich Nhat Hanh diz que devemos tratar nossa ansiedade, ódio e paixão com gentileza e respeito. Pacificando-nos com eles ao invés de resistir a eles. É uma ideia muito legal para se afastar de sentimentos como culpa por exemplo. A ideia de dialogar, de acolher, com gentileza e respeito, faz com que estejamos atentos a nós mesmos, entrando em contato com nossos sentimentos, sensações, com mais consciência, prestando atenção aos sinais do que está sendo disfuncional, para conseguir viver com mais tranquilidade e consciência.

Mas e quando não identificamos os sinais?

Quando não conseguimos perceber esses mecanismos disfuncionais sozinhos, é importante perceber quando se está precisando de ajuda profissional.

Muitas vezes nós demoramos a perceber a importância de buscar atendimento psicológico, pois acreditamos que “damos conta”. Porém todos nós precisamos de ajuda, nem sempre conseguimos enxergar as situações nas quais estamos imersos.

E é importante separar as coisas! Amizade é boa pra desabafar, e muitas vezes, para desabafar, um bom amigo é capaz de nos ajudar naquele momento, mas se a pessoa está em um ciclo de ações disfuncionais, por exemplo, correndo risco da ansiedade estar se tornando uma ansiedade patológica, ou já estar nessa situação, ela precisa de uma escuta ativa e profissional. 

A terapia é muito importante para ajudar a ampliar a consciência da pessoa com relação à ansiedade, sobre como dialogar mais com ela e não tê-la como inimiga mas como uma parceira, entendendo o que ela tem a dizer e buscando soluções saudáveis.

Pois como diz Jorge Ponciano “O terapeuta não faz, ele se faz com o outro. Desce a corredeira no mesmo barco que o cliente e apenas discute com ele a melhor opção. A escolha da melhor passagem é do cliente. O terapeuta discute com ele o melhor caminho e o ajuda a visualizá-lo”.

Entrando em contato

Para entrar em contato é importante compreender que quando ficamos ansiosos, de forma que essa ansiedade esteja começando a se complicar, mantemos certos padrões de comportamentos, de forma que achamos que estamos resolvendo os problemas, mas em geral não estamos.

Estamos evitando, evitamos conflitos, evitamos os diálogos, evitamos admitir o que está acontecendo, e todo tipo de evitação do contato. 

Fazer contato é fazer contato com o que se sente, com o que o outro sente, com a situação como ela é e se apresenta, é entrar em contato com o conflito, por que não? É diferente de brigar, mas os conflitos existem, e evitá-los pode gerar um problema maior no futuro.

Por exemplo, trazendo para o momento presente, precisamos fazer contato com a forma que a pandemia está nos afetando. Pois precisamos lidar com os fatos, de que estamos numa pandemia, de que é necessário o isolamento, é necessário a vacinação, o uso de máscara e de todos os protocolos. 

Não entrar em contato com o que nos afeta faz com que não seja possível dialogar com a ansiedade que tudo isso possa estar trazendo.

E o que acontece? Evitando esse contato pode ser que só se perceba que não pode ficar em casa direto, que é um absurdo, que não dá para ficar preso sem sair pra resolver nada, que não tem problema um aniversário, ou abraçar os amigos, ou qualquer racionalização que possa surgir.

Ao passo que entrando em contato, entendemos que é um momento e que se todos se esforçarem passaremos por essa pandemia com o menor dano possível, e que me protegendo estou protegendo o próximo, e que se trata de um esforço necessário.

É diferente de ficar dentro de casa de máscara, ou de fazer um teste porque deu um espirro apenas, ou deixar de seguir protocolos porque estão “pegando” mesmo os que seguiram, ou qualquer exagero decorrente de um não diálogo com a ansiedade, um não contato, que acarreta numa ansiedade patológica realmente.

E fazer uma avaliação se comportamentos como esse não são tipos que se repetem, como não querer mais namorar ninguém depois de relações que “não deram certo” ou toda vez que tem uma coceira já corre para a consulta, toda vez que o filho tosse uma vez leva logo no pediatra, ou já compra um monte de xarope; ou o clássico que fulano morreu de câncer, eu fumo há anos e estou ótimo. E assim o tempo passa e a pessoa não se reavalia, não entra em contato e segue assim. 

A terapia

Falar em entrar em contato parece fácil, mas muitas vezes, ou a maioria das vezes, não é. Vivemos nos negligenciando, nos deixando para depois, e esse depois nunca chega, acabamos priorizando uma série de coisas e esquecemos da saúde mental, não entendemos ainda que é ela que “segura as pontas”.

E se nossa saúde mental estiver se comprometendo, nosso “alerta” nos derruba mesmo, quem nunca teve uma gastrite? Enxaquecas intermináveis? Casos de depressão tiram a pessoas do trabalho, casos fortíssimos de ansiedade destroem relações. 

A terapia vai realmente dar o suporte para que a pessoa consiga se enxergar, perceber o que está acontecendo, e entrar em contato com aquilo que não conseguia. E não é fácil, vai ser difícil olhar pra dentro e ver o que está acarretando do lado de fora. Dói, sim, precisa estar disponível para si, porque quando cuidamos de nós, cuidamos de quem está próximo a nós, de quem queremos próximos a nós, e das relações que construímos. Da relação consigo e com o mundo lá fora.

Christiana F da S Chagas | Psicóloga 05/ 65213 – CRP

Christiana F da S Chagas
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