AnsiedadeSem categoria

Uma ansiedade que não desliga

Assim funciona a mente ansiosa

E se acontecer isso…? E se acontecer aquilo…? E se…?!

E assim se passam os dias e noites de quem sofre com a Ansiedade, e que tende a conviver com a expectativa de algo que acontecerá, fora de seu controle.

Daí que a cada novo pensamento, mais afastados de seu controle, os acontecimentos parecem ficar. Então, na tentativa de recuperar esse “controle”, a pessoa ansiosa, amplia suas estratégias, pensando mais e mais, sobre o que e como fazer se algo acontecer.

E como esses pensamentos são muitos, transbordam, inundam também o corpo, fazendo aparecer

  • Dores de cabeça,
  • No estômago,
  • Na coluna,
  • Enrijecimento dos ombros,
  • Respiração encurtada,
  • Dificuldade para dormir, só para citar alguns exemplos.

Não bastasse isso, a Ansiedade também pode levar a pessoa a desenvolver estratégias contra os males de um corpo “inundado”.

São as várias idas ao médico, exames, remédios para isso, para aquilo. E mais, quando alguém ousa sugerir algo, vem imediatamente a resposta pronta “isso eu já sei…”, acompanhada de um glossário de explicações que sustentam uma corrida interminável.

É possível haver paz na vida de um ansioso?

Mas, alto lá! Só de ler isso, já causa ansiedade, pois parece que não há saída, não há paz na vida de um ansioso(a). Nossa, deixe-se respirar para prosseguir!

Como se diz no futebol: “vamos colocar a bola no chão”. E para começar, vale lembrar que nossa sobrevivência como espécie, está intimamente ligada ao medo e a Ansiedade, e isto, que é algo natural em nós, já salvou muitas vidas.

Isto porque o organismo humano, assim como outros, tem no sentimento de medo, diante de um perigo, um poderoso acionador para respostas orgânicas. De fato, sempre precisamos de uma “certa dose” de tensão, de alerta, para respostas de luta ou fuga, e isto faz parte da sobrevivência dos organismos vivos.

Já na Ansiedade, estamos diante de uma preparação a uma ameaça futura, estando esta frequentemente atrelada a um comportamento de mais cautela ou esquiva. E isso não é de agora, voltando a um momento da história da humanidade, vamos nos referenciar no homo sapiens, cujo surgimento foi a cerca de 120 mil anos, só isso já nos permite pensar, há quanto tempo carregamos em nós, esses “sistemas de alerta”.

Então, há algo de bom em tudo isso, e o problema só surge quando esses sistemas de alerta não se “desplugam”, e então, aquele alerta que tem um “objeto real”, ou seja, uma ameaça ao sujeito, permanece ali, como se algo sempre fosse acontecer. Então algo se sucede, pois ao contrário da ansiedade que nos protege, agora aquela sensação de prontidão persiste, mas não há um objeto real ao qual esta se refira.

Então, diante disso, o psiquismo, sempre ativo, trabalha atrelando essa “energia” a uma representação, ou seja, a uma ideia ou a um afeto, dando assim um destino a isso que insiste em nós. E daí lá vamos nós de novo e de novo, numa roda-viva interminável.

E é isso! Surge daí um ciclo de sentimentos, pensamentos e comportamentos, que ao longo da vida se repetem e repetem, e mesmo que o sujeito saiba disso, isso não o livra do sofrimento já descrito acima. Saber não basta, é preciso fazer uma travessia por aquilo que deflagrou o quadro de ansiedade, por aquilo que o mantém, pelos “ganhos” que o sujeito se dá, ao manter seu quadro de ansiedade.

O jogo de palavras cruzadas

Fazendo uma pequena analogia com o jogo de palavras cruzadas (que adoro), no qual a cada palavra desvendada, abre-se a possibilidade de desvendar outras e outras, até que se veja melhor o conjunto de palavras que surgem, e daí novos conhecimentos lhe são acrescentados ou lembrados.

Contudo, em momentos do jogo, é preciso ter ajuda de alguém ou mesmo consultar a resposta, já que esta não vem sozinha, pelo seu conhecimento acumulado. E aí, vencido aquele jogo, novas possibilidades se abrem e o desafio continua.

Sair do ciclo da Ansiedade

Mesmo sendo trabalhoso, às vezes doloroso, mas mesmo assim é possível sair do “ciclo da ansiedade”. É possível reconstruir caminhos que te permitam reorganizar sua vida. Isso pode iniciar-se ao considerar-se a “construção” desse modo de ser, como já dito, o que levou algum tempo e permitiu muitas soluções para o seu dia a dia.

Soluções para lidar com os desafios da vida, ou seja, soluções para o convívio com os outros na família, no trabalho, com os amigos, com os estranhos, lidar com a enxurrada de informações que hoje nos “atropelam”, lidar consigo mesmo, com seu próprio corpo, lidar com o que esperam que sejamos ou façamos numa sociedade cheia de “modelos” a se seguir. 

O interessante é que invariavelmente estas soluções apontam para algo como se fosse uma ameaça, algo prestes a não estar sob o controle, daquele(a) que anseia poder se antecipar ao que ocorrerá ao seu redor.

Tudo isso dá sentido ao seu viver, e por isso mesmo, para mudar, demanda que haja um desejo seu de buscar outras formas, outros “ares”.

Isso não significa que seu modo de ser está errado, e que há um certo. O que há de fato é o quanto permanecer num quadro de ansiedade te faz sofrer ou não, o quanto isso interfere nos seus relacionamentos, no seu progresso, na sua saúde.

Essa é uma daquelas decisões solitárias e mesmo ouvindo dos outros “calma, você não precisa ficar assim, que exagero!”, ou mesmo “…você não pode ter controle sobre tudo…” (que raiva que as vezes dá de ouvir isso), mesmo assim, a escolha é sua, o direito de ser feliz é seu, mas isso envolve também todos aqueles que você ama!

 

Referência Bibliográfica

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5 – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed, 2014.

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. 24 ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2009.

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Acaso e repetição em psicanálise. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1987.

Luiz Henrique da Silva Pimentel
Últimos posts por Luiz Henrique da Silva Pimentel (exibir todos)
Etiquetas

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar