Saúde

Você arranca os cabelos? Entenda essa compulsão

O que é a tricotilomania?

A tricotilomania (TTM) é um transtorno relacionado ao controle dos impulsos que consiste no ato de arrancar os próprios fios de cabelo ou pêlos de outras partes do corpo, como por exemplo sobrancelhas, cílios, púbis e barba, no caso dos homens.

É comum que pessoas com tricotilomania realizem “rituais” como procurar um tipo de fio/pelo específico para arrancar baseados na textura, cor, tamanho, assim como arrancar de uma certa forma (puxar com a raiz, quebrar).

Outros sintomas comuns são a presença de falhas ou cabelos ralos que não são causados por outros problemas, como é o caso da alopecia (queda repentina de cabelos e pelos que podem gerar calvície), tentar parar de arrancar e não conseguir e a presença de estados emocionais durante ou antes de arrancar, como sentimentos de ansiedade, tédio e prazer ao arrancar com sensação imediata de alívio e relaxamento. 

Apesar de ser um transtorno presente em média de 0,6% a 3,6% da população mundial, muitas pessoas convivem com o problema durante anos por pensarem que se trata apenas de uma “mania” antes de descobrirem que o problema tem nome.

Além disso, outros fatores como a vergonha e medo de julgamento em revelar esse comportamento a outras pessoas dificulta a procura por ajuda. 

O dilema entre prazer e sofrimento

Apesar de parecer um ato doloroso para quem não tem o transtorno, o ato de arrancar os fios é sentido como prazeroso e até mesmo relaxante por quem sofre com a questão. Com isso, os episódios compulsivos estão muitas vezes associados a momentos de tensão ou ansiedade e acabam funcionando como válvulas de escape.

Os problemas relacionados à tricotilomania não costumam ser imediatos, mas sim de médio e longo prazo. 

A sensação de prazer imediata é substituída rapidamente por sentimentos de culpa e vergonha que vêm ao olhar os tufos de pelos e cabelos espalhados pelo ambiente, ao notar que o cabelo está ficando mais ralo ou está passando a apresentar falhas visíveis aos outros.

A pessoa acaba se colocando em um dilema de prazer e sofrimento pois ao mesmo tempo que o ato é prazeroso de imediato, assim como um vício, traz consequências negativas com o passar do tempo. 

Impactos na autoestima causados pela tricotilomania 

É impossível pensar em tricotilomania e não pensar nos impactos negativos na autoestima. Muitas pessoas passam um grande tempo do seu dia a dia tentando esconder ou mascarar os danos causados pelo ato de arrancar.

Como podemos perceber por meio das mídias sociais, a aparência e o padrão estético têm um peso muito grande na forma como as pessoas se sentem ou enxergam a si mesmas.

No caso das mulheres, a tricotilomania pode piorar por conta das alterações hormonais causadas pelo ciclo menstrual e pela menopausa. Apesar de todos sofrerem devido aos padrões de beleza, as mulheres são ainda mais cobradas e o cabelo é alvo de constantes cuidados e ponto importante da vaidade.

Não é incomum ouvir relatos de mulheres que por conta da tricotilomania passaram a se sentir inseguras com seus parceiros amorosos ou passaram a evitar os salões de beleza por receio dos questionamentos e julgamentos. 

Por que é tão difícil parar de arrancar?

É esperado que os seres humanos busquem o prazer e se afastem daquilo que causa desprazer. Como já apontado, a tricotilomania traz um prazer imediato e acaba funcionando em momentos de tensão e ansiedade, aliviando as sensações desagradáveis, mesmo que momentaneamente. 

Esses efeitos acabam “viciando” a pessoa e se torna uma compulsão. Além disso, é um ato que não exige muito esforço, o que acaba sendo prático. Outro ponto é o de que por ser um ato realizado no próprio corpo e que não exige nada além das mãos, está sempre “disponível” para ser realizado, tornando o parar ainda mais difícil. 

Como a psicoterapia pode ajudar você?

A psicoterapia pode ser entendida como um processo que tem como principal objetivo analisar a relaçãos que o comportamento do paciente tem com seu ambiente, ou seja, com toda a sua vida externa e interna.

Compreendendo essa relação, é possível modificar o comportamento que traz sofrimento melhorando a qualidade de vida, além de desenvolver novos comportamentos e habilidades que tornarão a pessoa mais satisfeita consigo mesma e com os outros a sua volta.

Dentro da psicologia existem diversas formas de lidar com um mesmo problema. Nos casos de tricotilomania, a psicoterapia mais indicada são as comportamentais, tendo resultados comprovados em diversos estudos.

A Terapia de Reversão de Hábitos é carro chefe no tratamento desse transtorno e tem como principal objetivo tornar a pessoa mais consciente do comportamento e problema e substituir o ato de arrancar por um outro que não seja prejudicial, bem como construir comportamentos que impossibilitem o arrancar. 

Caso outros transtornos ou problemas estejam presentes, também serão trabalhados em sessão, uma vez que o foco sempre será a qualidade de vida do paciente como um todo e não apenas a tricotilomania. 

Algumas dicas para ajudar você no controle da tricotilomania

  • Uso de esparadrapos nas pontas dos dedos: Usar esparadrapo nas pontas dos dedos que são usados para arrancar os cabelos diminui drasticamente a sensibilidade dos dedos o que dificulta o ato de arrancar.
  • Manter o cabelo preso: é uma atitude simples e que pode ajudar na diminuição do número de fios arrancados.
  • Uso de vaselina nos cílios e sobrancelhas: A vaselina torna os pelos extremamente escorregadios e com isso dificulta de ocorrer a compulsão.
  • Uso de brinquedos sensoriais: No mercado existem diversos produtos que têm como objetivo usar as mãos para ajudar a relaxar em momentos estressantes. Além de ajudar a acalmar, mantém as mãos ocupadas o impossibilita arrancar os pelos.
  • Anotar os dias que está sem arrancar: Essa é uma prática que ajuda no autocontrole além de ajudar no  reconhecimento de que você está dando duro, mantendo a motivação. Existem aplicativos  de celular que tem exclusivamente essa função, o que facilita bastante o processo.
  • Uso de lenços e turbantes: além de formar uma barreira física, pode ajudar na autoestima, uma vez que pode ser incluído como acessório no dia a dia.

Referências bibliográficas:

  1. Toledo, E. L., Taragano, R. O., & Cordás, T. A. (2010). Tricotilomania. Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo), 37(6), 261-269.
  2. Goulart-Junior, R. M., & de Souza Britto, I. A. G. (2010). Intervenção Analítico-Comportamental em Tricotilomania. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 12(1/2), 224-237.
  3. Fischer, A. R., Regino, C. M., Grzybowski, L. M. C., Roste, R. R. L., & Carvalho, M. F. C. M. (2018). Tricotilomania: uma Visão Geral de Aspectos Neurobiológicos e Comportamentais. Ensaios e Ciência C Biológicas Agrárias e da Saúde, 22(1), 27-32.
Vanessa Martins da Silva
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