Desenvolvimento pessoal

Memórias: uma máquina altamente sofisticada

Memória é a aquisição, a formação, a conservação e a evocação de informações. A aquisição é também chamada de aprendizagem: só se “grava” aquilo que foi aprendido. A evocação é também chamada de recordação, lembrança, recuperação. Só lembramos aquilo que gravamos, aquilo que foi aprendido. (IZQUIERDO, 2018).

Podemos afirmar que somos aquilo que recordamos, literalmente. Não podemos fazer aquilo que não sabemos como fazer, nem comunicar nada que desconhecemos, isto é, nada que não esteja na nossa memória. Não podemos usar como base para projetar nossos futuros possíveis aquilo que esquecemos ou que nunca aprendemos. Também não estão à nossa disposição os conhecimentos inacessíveis, nem formam parte de nós os episódios dos quais nos esquecemos ou pelos quais nunca passamos. O acervo de nossas memórias faz com que cada um de nós seja o que é, com que sejamos, cada um, uma pessoa, um ser para o qual não existe outro idêntico.

Individualidade, esquecimento e passado

Podemos também acrescentar: “e somos o que resolvemos esquecer.” Sem dúvida; não há como negar que isso já constitui um processo ativo, uma prática da memória: nosso cérebro “lembra” quais são as memórias que não queremos” lembrar”, e esforça-se muitas vezes inconscientemente para fazê-lo. Escolhe cuidadosamente quais são as “más lembranças” que não deseja trazer à tona e evita recordá-las: as humilhações ou vergonha, por exemplo, ou as situações profundamente desagradáveis ou inconvenientes. De fato, não as esquece, senão o contrário: as lembra muito bem e muito seletivamente, mas as torna de difícil acesso.

O passado, nossas memórias, nossos esquecimentos voluntários, não só nos dizem quem somos, mas também nos permite projetar rumo ao futuro; isto é, nos dizem quem poderemos ser. O passado contém o acervo de dados, o único que possuímos, o tesouro, que nos permite traçar linhas a partir dele, atravessando o presente em que vivemos, rumo ao futuro. Ao contrário disto, não seríamos nada; não poderíamos sequer existir. Se não nos lembramos de como se faz para caminhar, não poderemos fazê-lo.

Memórias e personalidade

O conjunto das memórias de cada um determina aquilo que se denomina personalidade ou forma de ser. Um humano ou animal criado no medo será mais cuidadoso, introvertido, lutador ou ressentido, dependendo mais de suas lembranças específicas do que de suas propriedades congênitas. Nem sequer as memórias dos seres clonados (como gêmeos univitelinos) são iguais; as experiências de vida de cada um são diferentes, exceto na aparência física.

Memória tem os computadores, as bibliotecas, o cachorro que nos reconhece pelo cheiro depois de vários anos, os povos ou países e, logicamente, nós, os seres humanos. Cada ser humano é quem é, um indivíduo diferente de qualquer congênere, justamente pela memória; a coleção pessoal de lembranças de cada pessoa é distinta das demais, é única. Todos podemos recordar dos nossos pais, mas os pais de cada um de nós foram diferentes. Todos recordamos, em geral, vaga, mas prazerosamente, a casa onde passamos nossa primeira infância; mas a infância de uns foi mais feliz que a de outros, e as casas de alguns trazem más lembranças. Todos nós podemos recordar nossa rua, mas a rua de cada um foi outra.

Eu sou quem sou, cada um é quem é, você é o que é, porque todos nos lembramos de coisas que nos são próprias e exclusivas e não pertencem a mais ninguém. As nossas memórias fazem com que cada ser humano ou animal seja um ser único.

A história da cada um

O acervo das memórias de cada um, nos converte em seres humanos. Porém, tanto nós como os demais animais não sabemos viver muito bem em isolamento: formamos grupos. A necessidade da interação entre membros da mesma espécie ou entre diferentes espécies, inclui, como elemento chave, a comunicação entre seres. Essa comunicação é necessária para o bem-estar e para a sobrevivência. Nas espécies avançadas, o altruísmo, a defesa de ideais comuns, as emoções coletivas são parte de nossa memória e servem para nossa intercomunicação. Procuramos laços, geralmente culturais ou de afinidades, e com base em nossas memórias comuns, formamos grupos: comarcas, tribos, povos, cidades, comunidades, países. Consideramo-nos membros de civilizações inteiras e isso nos dá segurança, porque nos proporciona conforto e identidade coletiva. Sentimo-nos apoiados pelo resto do grupo, chama-se este de bairro, cidade, país, continente. Com eles compartilhamos uma série de memórias e uma história.

A recordação dos hábitos, dos costumes e das tradições que nos são comuns leva a preferências afetivas e sociais. A identidade dos povos, dos países e das civilizações provém de suas memórias comuns, cujo conjunto denomina-se História. Temos uma identidade individual que depende da história de cada um. Todos possuímos memórias (histórias) próprias de cada país. Em seu sentido mais amplo, a palavra “memória” abrange desde os mecanismos que operam nas placas de um computador, até a história de cada cidade, país, povo ou civilização e as “memórias” individuais das pessoas e animais.

Não podemos generalizar e considerar nossa memória igual à do computador. O computador tem “chips” e precisa estar ligado na tomada para funcionar; eu ou você, certamente não. Aliás, se eu colocar os dedos na tomada, sofrerei um choque e aprenderei uma memória da qual o computar é incapaz de aprender, pelo menos até os dias de hoje, a não colocar os dedos na tomada novamente.

Memórias e o estado de ânimo

Memórias são feitas por células nervosas (neurônios), são armazenados em redes de neurônios e são evocadas pelas mesmas redes neuronais ou por outras. São moduladas pelas emoções, pelo nível de consciência e pelos estados de ânimo. Todos sabemos como é fácil aprender ou evocar algo quando estamos alertas e de bom ânimo; e como fica difícil aprender qualquer coisa ou até lembrar o nome de uma pessoa ou de uma música quando estamos cansados, chateados, levemente deprimidos, tristes ou muito estressados.

Os maiores reguladores da aprendizagem, da formação e da recordação das memórias são justamente as emoções e os estados de ânimo. Nas experiências que deixam memórias, aos olhos que vêem se somam o cérebro que compara e o coração que bate acelerado. No momento de recordar, muitas vezes, é o coração quem pede ao cérebro que lembre, e, muitas vezes, a lembrança acelera o coração.

Nossa memória pessoal e coletiva descarta o trivial e, às vezes, incorpora fatos irreais. Vamos perdendo, ao longo dos anos, aquilo que não interessa, aquilo que não nos marcou: ninguém lembra do ano em que foi construída aquela casa feia aos seus olhos do outro lado do quarteirão ou de onde morava aquele colega da escola com quem pouco tivemos contato. As memórias dos humanos e animais provém das experiências. Por isso, é mais sensato falar em “memórias” e não em “memória”, já que há tantas memórias possíveis quanto forem as experiências possíveis. Falando ainda sobre a importância do esquecimento: Sem o esquecimento, o convívio entre os membros de qualquer espécie animal, inclusive os humanos, seria impossível. Do contrário, imagine cada reunião de condomínio, cada jogo de futebol, cada eleição, cada discussão de um casal, como poderia acabar? A característica mais saliente da memória é justamente o esquecimento. Não se preocupe, pois, a imensa maioria de tudo aquilo que aprendemos, de todas as inúmeras memórias que formamos na vida, se extingue. Não se espante, é isso mesmo.

Cérebro X carros de fórmula 1

Mas como podemos então garantir o nosso bom funcionamento dessas engrenagens fantásticas e conseguir garantir a manutenção de nossas memórias?

Em cada momento, para cada pessoa, dadas suas circunstâncias emocionais e anímicas, a memória está sempre trabalhando perto do máximo da sua capacidade. Quando determinada pessoa apresenta falhas da memória, em condições padrão de saúde, o problema se deve a cansaço, saturação do sistema, desatenção, influência negativa de alguma via modulatória, hiper ou hipossecreção de algum hormônio. Uma vez corrigido o problema, segundos ou minutos depois, ou se necessário, depois de um sono reparador, a pessoa voltará ao normal. Se o problema for devido ao estresse ou alta ansiedade (aprendizagem em ambiente hostil ou traumático) será corrigido pela mudança de ambiente.

Segundo Izquierdo (2018) o cérebro age como uma máquina altamente sofisticada, complexa e reguláveis, como os carros da Fórmula 1. Em condições ótimas, são excelentes. Em condições menos do que ótimas (má pilotagem, excesso de temperatura, uma leve torção de alguma peça, chuva), seu rendimento cai. Não porque o motor esteja mal desenhado, mas justamente por ser tão sofisticado e de delicado equilíbrio, feito para funcionar muito bem sob condições realmente apropriadas.

E você, o que tem feito para manter suas engrenagens e a manutenção das suas memórias funcionando saudavelmente?

Texto Descrição gerada automaticamente

Referência

  1. IZQUIERDO, I. Memória. 3.ed. Porto alegre, RS, Brasil. Artmed, 2018.
Juliane F da S Figueiredo
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