Desenvolvimento pessoal

Assertividade

Já ouviu esse termo? Se já, você se identifica como assertiva ou assertivo em suas relações interpessoais? Independente da sua resposta, o convite deste texto é para uma breve reflexão sobre o uso da assertividade nas interações sociais. Vem comigo.

O treinamento de habilidades sociais

A assertividade costuma ser discutida no âmbito das habilidades e competências interpessoais. E frequentemente ela é relacionada ao Treinamento de Habilidades Sociais, ou apenas THS como é referido comumente entres as(os) estudiosas(os) do tema, por ser uma das habilidades do treinamento.

As habilidades sociais correspondem há um vasto campo que discute as relações interpessoais e se estende para além da prática assertiva, incluindo outras habilidades que visam contribuir para um desenvolvimento socioemocional adequado. É importante ainda destacar a fala de autores que são referência no assunto em nosso país: “[…]o TSH nada tem em comum com os populares programas de autoajuda que proliferam nas livrarias, com títulos às vezes bastante sugestivos, prometendo muita coisa com pouco esforço” (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 1999, p.24, grifo nosso).

A busca por respostas imediatas e com pouco ou nenhum esforço pode até ser verdadeira, contudo não é assim que funciona. E promessas não asseguram resultados. A socialização humana é um processo complexo, que se dá ao longo da vida e sofre influência de diversos fatores.

Por meio dela, nós aprendemos regras e normas sociais. Inicia-se no grupo familiar e depois se estende à escola, trabalho, faculdade, relacionamentos afetivos, levando em conta a interferência de elementos culturais, econômicos, religiosos, e atualmente podemos incluir a forte influência das mídias sociais. Porém, alguns fatores podem contribuir para um repertório de interação social pouco ou minimamente habilidoso, como por exemplo:

  • Ausência de modelos adequados na infância;
  • A presença da ansiedade nas relações interpessoais dificultando respostas socialmente adequadas;
  • Crenças (ideias rígidas) distorcidas ou equivocadas;
  • Insegurança para se pronunciar na defesa dos próprios direitos;
  • Autoestima fragilizada e ausência de motivação para interações sociais.

Em situação de conflito ou até mesmo em uma situação diferente no cotidiano, sendo você assertiva(o) ou não, é preciso uma boa observação do todo antes de agir. É importante autoconhecimento para identificar as próprias emoções, percepção dos sinais do ambiente onde se desenrola a situação e do interlocutor, controle de si para não responder de forma imediatista à situação e uma breve reflexão sobre as possíveis consequências. E é exatamente nesse sentido que o Treino de Habilidades Sociais se desenvolve.

Habilidades sociais

De acordo com Del Prette e Del Prette, as Habilidades Sociais podem ser definidas como um conjunto de desempenhos que são expressos por uma pessoa frente a situações, problemas ou demandas que surgem nas relações interpessoais (1999). As habilidades foram divididas pelos autores nas categorias indicadas a seguir:

  • HS de comunicação;
  • HS de civilidade;
  • HS de assertividade;
  • HS empáticas;
  • HS de trabalho;
  • HS de expressão de sentimentos positivos

Quando estas habilidades são aprendidas, desenvolvidas e/ou reforçadas elas possibilitam:

  • O reconhecimento das próprias emoções;
  • O reconhecimento das emoções da outra pessoa com quem interagimos;
  • Maior compreensão da relação entre pensamentos, emoções e nosso comportamento; uma maior possibilidade na resolução de problemas, entre outras atitudes.

E como foi dito no início, o Treino de Assertividade faz parte desse conjunto, e agora vamos falar sobre isso.

Assertiva(o): ser ou não ser?

Ser assertiva(o) é ser capaz de afirmar seu próprio direito, considerando o direito do outro. É ser capaz de expressar de forma clara, objetiva e honesta seus pensamentos, emoções e sentimentos, mas também permitir que o outro o faça do mesmo modo.

Contudo, ser assertivo não é sair por aí dizendo “não” ou exigindo o cumprimento dos meus direitos. É uma comunicação transparente, lúcida das possibilidades reais para a busca por uma resolução, visto que somos todos sujeito de direito e também de deveres. Comunicar-se assertivamente inclui expressões verbais e não verbais. Expressar verbalmente: “Ok! Pode pegar minha caneta”. E com os olhos e ombros expressar: “Me devolve essa caneta” é desconsiderar a capacidade do outro ser humano em reconhecer o dito e o não-dito por nós.

A comunicação do tipo assertiva tem um caráter ético e muitas vezes flexível, e deve ser emitida com um conjunto de expressões faciais, gestuais, corporais que indiquem esse respeito a si e ao outro.

O Treino de Assertividade, que pode ser individual ou em grupo, engloba habilidades como:

  • Defender os próprios direitos e o direito das outras pessoas,
  • Emitir opinião,
  • Aceitar e recusar pedidos, dirigir-se a figuras de autoridade, fazer e receber críticas, expressar emoções (incluindo raiva, tristeza, frustração) e solicitar mudança de atitude da outra parte. Mas também inclui pedir desculpas e admitir os próprios erros.

Vale a pena ressaltar que, em algumas ocasiões, o provérbio “não basta ser, tem que parecer” é válido, pois, há situações e situações. Há situações em que ser assertivo não basta e pode ser necessária a utilização das Habilidades Empáticas. Visto que, em uma comunicação baseada na empatia, ao expressar de forma firme mas compreensiva e afetuosa, é possível criar uma conexão mais profunda e busca coletiva por resolução. Mas, esse assunto fica para outro momento.

Não nascemos assertivos(as), mas podemos nos tornar!

O treino de assertividade necessita primeiro de uma avaliação minuciosa para identificar no repertório as inadequações e os prejuízos acarretados ao longo das interações sociais. Isso pode ser realizado de diferentes formas (entrevista semiestruturada, escalas, inventários) pelo profissional da psicologia. Após a identificação, segue-se a etapa de intervenção. E antes de falar sobre isso, vale ressaltar que na Terapia cognitivo-comportamental (a abordagem que utilizo) o processo é colaborativo e isso implica na participação ativa da(o) cliente nestas etapas, pois como foi mencionado no início, não se obtém resultados bons e duradouros sem nenhum esforço!

No processo de intervenção, pode-se valer de técnicas cognitivas ou comportamentais como:

  • Psicoeducação,
  • Treino de relaxamento,
  • Restruturação cognitiva,
  • Ensaio cognitivo e/ou comportamental,
  • Role-play ou dinâmicas (quando o treino é realizado em grupo).

As técnicas e recursos objetivam contribuir para o processo de aquisição de um repertório mais assertivo, que permitam ao individuo:

  • Expressar seus sentimentos e emoções adequadamente;
  • Oportunizar resoluções mais possíveis para seus problemas (ou ao menos ser capaz de ver alternativas de resolução);
  • Ser capaz de reconhecer e diminuir a ansiedade e desconforto, e por fim,
  • Usufruir de relações interpessoais cada vez mais satisfatórias.

Embora seja comum a aquisição das habilidades sociais ao longo da vida, quando o meio onde se está inserido não promove esta aprendizagem isso pode acontecer através de treinamento dentro de um processo psicoterápico, por meio do desenvolvimento de estratégias, na aquisição de novas habilidades e no aprimoramento de habilidades já existentes. Em um ambiente seguro, com um profissional habilitado para tal, com uma escuta empática.

Espero ter ajudado!

 

Anne Emanuelle Cipriano da Silva – CRP 13/6513

 

Referências Bibliográficas:

CABALLO, V. E. Manual de avaliação e treinamento das habilidades sociais. São Paulo: Livraria Santos Editora, 2003.

DEL PRETTE, Z. A. P.; DEL PRETTE, A. Psicologia das habilidades sociais. Petrópolis: Editora Vozes, 1999.

DEL PRETTE A.; DEL PRETTE, Z. A. P. Psicologia das relações interpessoais: vivências para trabalho em grupo. Petrópolis: Editora Vozes, 2011.

RANGÉ, B. P (Orgs.) Psicoeducação em terapia cognitivo-comportamental. Novo Hamburgo: Sinopsys, 2019.

Anne Emanuelle Cipriano
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