Saúde

Os enfermeiros também sofrem: a Síndrome de Burnout na área de enfermagem

A classe de enfermagem é uma das mais atingidas no cenário da COVID-19. Segundo pesquisas, o Brasil é um dos países que mais sofreu perdas de profissionais enfermeiros nos últimos meses. O Mistério da Saúde desenvolveu ao longo dos meses protocolos de segurança para o uso de equipamentos (EPIs) e guias para o cuidado em saúde mental destes trabalhadores. 

O Enfermeiro em sua formação tem uma gama de áreas de atuação e até mesmo dentro de uma instituição hospitalar ele tem a possibilidade de atuar em setores diferentes: maternidade, ginecologia, hemodiálise, pronto atendimento, blocos de internações, exames, CTI, entre outros. 

O papel da enfermagem é cuidar do outro, zelando pela saúde do paciente com acolhimento e humanização. Além dos enfermeiros temos a equipe de auxiliares em enfermagem e técnicos de enfermagem que também executam uma tarefa complexa no cuidado do paciente, além do aspecto do adoecimento esta equipe deve estar preparada para lidar com os familiares e acompanhantes, trabalhando também com o emocional no ambiente de trabalho. 

As dificuldades enfrentadas pelos enfermeiros e demais profissionais da saúde

É nítido que o cenário de saúde mudou no mundo, e, diante da COVID-19, os profissionais da área da saúde também são acometidos por doenças, especialmente a equipe de enfermagem. Os enfermeiros, auxiliares e técnicos estão na linha de frente de atendimento, ajudando, acolhendo e cuidando da camada da população que sofre com os sintomas da COVID-19, mas como fica a condição de saúde mental destes profissionais?

Quais são os tipos de cuidados que estão recebendo para não adoecerem no aspecto mental? E como ficam os profissionais das áreas da CTI- UTI?

Quando falamos em saúde mental do trabalhador na área da saúde já podemos acrescentar o estresse referente à profissão, pois cuidar de pessoas em situação de fragilidade não é uma tarefa fácil. E ainda podemos imaginar que o profissional da área da CTI tem um nível de estresse maior, pois além dos protocolos rígidos de segurança, estão frente a frente com pacientes em estado grave e muitas vezes também lidam com óbitos rápidos da COVID-19. 

Como lidar com estes profissionais? O que fazer para eles não adoecerem? Qual contribuição mais adequada para o cuidado destes profissionais?

Em minha atuação como psicóloga clínica, especialista em saúde mental do trabalhador, encontro no ambiente hospitalar angústias complexas dos profissionais, patologias como depressão, ansiedade, dependência química, transtorno bipolar, episódios de delirium, episódios psicóticos/esquizofrênicos, suicídio e muitas vezes a instalação de sintomas como a da Síndrome de Burnout (esgotamento).

Os sentimentos mais encontrados em profissionais atendidos da enfermagem foram:

  • O medo do contágio e de contagiar seus familiares;
  • Insegurança pelo amanhã;
  • Mudança total em sua rotina;
  • Isolamento;
  • Diferenciação de outros membros da equipe por trabalhar em setor de risco;
  • Conflitos entre equipes;
  • Ansiedade pelo estado do paciente e sua condição grave de saúde;
  • Tristeza ao lidar com óbitos e familiares;
  • Falta de esperança;
  • Dificuldade para dormir;
  • Cansaço extremo devido aos plantões excessivos e número reduzido de profissionais dentro das instituições.

Essas questões emocionais geram nos profissionais conflitos e estresse crônico. Com o diagnóstico de Burnout, o profissional terá que cuidar dos sintomas um a um e buscar o equilíbrio emocional para conseguir superar a síndrome. 

Afinal, o que é a Síndrome de Burnout?

A origem do termo burnout (SB) se deu em meados da década de 70 pelo psicólogo americano Herbert Freudenberger que se refere à completa falta de energia e desgaste emocional no ambiente de trabalho. A SB ou burnout caracteriza-se por três fatores:

  • Exaustão emocional,
  • Despersonalização (distanciamento emocional no trabalho),
  • Baixa realização pessoal (baixa autoestima e sentimento de insegurança no ambiente de trabalho).

Tais fatores acarretam em transtornos psicossociais principalmente aos profissionais da saúde. 

Estudos atuais caracterizam essa síndrome em especial aos profissionais da saúde, pois é entendido que a exposição a tal ambiente é insalubre e desgastante, e também um estimulador de adoecimento, devido a grande carga de trabalho física e emocional suportada pelos profissionais. 

Os sintomas mais comuns da Síndrome de Burnout são?

  • Pressão para lidar com o ofício;
  • Fadiga extrema, dores corporais e enxaquecas; 
  • Sono excessivo ou insônia;
  • Angustia de retorno ao lar pelo medo da contaminação aos familiares;
  • Medo do contágio;
  • Afastamento dos demais profissionais de outras equipes e muitas vezes o sofrimento de preconceitos por trabalhar em uma área que é fluxo de COVID-19;
  • Alguns profissionais em casos mais graves são acometidos por depressão e ansiedade, ou o misto das duas patologias;
  • Abuso de substâncias psicoativas para darem conta da situação estressante vivida;
  • Lentificação do raciocínio e perdas na memória;
  • Alteração abrupta de humor;
  • Crises de choro.  

Tratamento e cuidados

É importante para o profissional saber que ele não está só neste momento, o autocuidado é importante para preservar sua saúde. Além da boa alimentação, sono regular e tranquilo, exercícios físicos e relaxamento mental, o acompanhamento psicológico é necessário, pois é no processo terapêutico que o profissional tem a chance de compreender suas aflições e aprender a lidar com elas. 

Outras medidas foram tomadas no cenário de pandemia, o Ministério da Saúde, desenvolveu um forte material de apoio para estes profissionais, como guias e protocolos de segurança.

Os hospitais também vêm contribuindo para o cuidado do cuidador, pois é sabido que é de extrema urgência cuidar da saúde mental da equipe e compreender as angústias individuais destes que enfrentam diariamente o risco de contaminação e as pressões da profissão. 

Como psicóloga, tenho trabalhado com grupos terapêuticos que apoiam os profissionais de enfermagem e medicina. Neste espaço seguro, reconfortante e acolhedor, os profissionais relatam e compartilham seus pensamentos e sentimentos.

Além do espaço de escuta aberta, também é oferecido técnicas de meditação e relaxamento para ensinar a lidar com a ansiedade no decorrer do plantão. 

Algumas dicas podem auxiliar no momento de crise

  • Reserve um tempo para descanso e lazer com a família e amigos;
  • Mantenha contato com familiares e amigos, mesmo por telefone e mensagens;
  • Pense em estratégias para lidar com o estresse, inclua hobbies como ver filmes, ouvir músicas, ler livros, jogos, cozinhar, etc;
  • Fique longe de noticiários que trazem sensacionalismo ou fake news;
  • Reconheça as limitações de seu trabalho e até onde você pode chegar, aprendendo a dizer “não” quando necessário e pedindo ajuda;
  • Lembre-se que tudo vai ficar bem e que este cenário logo mudará; 
  • Medite, relaxe e tranquilize-se;
  • Aprenda a reconhecer os sinais de seu corpo e busque apoio de outros profissionais.

E lembre-se: Você não está só neste momento difícil. Tudo vai melhorar. 

Jaqueline Rodrigues dos Santos – Psicóloga Clínica / Especialista em Psicologia do Trabalho e Consultora de Carreira. CRP:06/102600

Referências:

SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICOLOGIA. Como manter a saúde mental em época de COVID-19. Disponível em: <https://www.sbponline.org.br/2020/03/como-manter-a-saude-mental-em-epoca-de-covid-19>. Acesso em 02/07/2020

OPAS BRASIL: Disponível em: <https://www.paho.org/bra/gclid=CjwKCAjwi_b3BRAGEiwAemPNU0ZE2jOX3HtUj9zwZZXBwy0-ekqFMLwxUFIGfEnF_cboIRe3RF8gYRoC6hsQAvD_BwE>  Acesso em 02/07/2020

MINISTÉRIO DA SAÚDE: Disponível em <https://coronavirus.saude.gov.br/profissional-gestor>   Acesso em 02/07/2020

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