Psicologia geral

Outubro Rosa: Câncer de mama e a ressignificação do corpo

A campanha Outubro Rosa teve início na década de 90 nos EUA chegando ao Brasil em 2002, com objetivo de divulgar informações sobre o câncer de mama e fortalecer o movimento de prevenção e detecção precoce da doença. É graças a essa campanha que as informações sobre o câncer de mama se tornaram muito mais acessíveis, fazendo com que muitas mulheres incorporassem o autoexame às suas rotinas.

Os principais sinais do câncer de mama são:

  • Alterações no tamanho e formato das mamas, com assimetria, aparecimento de nódulo/caroço, afundamento, endurecimento ou enrugamento da pele, inversão súbita do mamilo e veias muito aparentes;
  • Dor constante na mama e/ou axila, inchaço na axila e/ou clavícula;
  • Vermelhidão e/ou coceira na mama e/ou ao redor do mamilo;
  • Pequenas feridas na pele;
  • Líquido de origem desconhecida sendo expelido pelo mamilo.

Não existe uma ação definitiva para prevenir o câncer de mama, mas existem coisas que você pode fazer para diminuir o risco. Uma das principais formas de perceber a doença o quanto antes, é estar atenta ao seu próprio corpo. 

Alguns cuidados que podem ser tomados no sentido de prevenir e se atentar aos sinais do câncer de mama são:

  • Ter uma alimentação saudável, sono regular e prática de exercícios físicos, o que é positivo para qualquer pessoa;
  • Realizar o autoexame mensalmente, já que com a frequência você passa a conhecer melhor o seu corpo e consegue perceber com maior facilidade as mudanças que podem acontecer, como os sinais listados anteriormente;
  • Consultar-se com sua médica ginecologista ao menos uma vez ao ano, e realizar o exame da mamografia anualmente a partir dos 40 anos de idade

O autoexame é realizado em três etapas:

  • No espelho: Verificação da aparência das mamas, atentando-se para qualquer alteração que não tenha sido observada no autoexame anterior, em posições diferentes (braços levantados, caídos, abertos e colocando as mãos apoiadas na bacia, fazendo pressão para observar se existe alguma alteração na superfície da mama);
  • Em pé, durante o banho: Com o corpo molhado, braço esquerdo erguido, mão esquerda atrás da cabeça e a mão direita ensaboada, apalpe e pressione a mama esquerda com a mão direita, de forma circular e vertical, em busca de corpos estranhos. Repita o processo com a outra mama, invertendo a posição dos braços. Após essa etapa, pressione os mamilos e verifique se eles expelem algum líquido de coloração e/ou cheiro anormal.
  • Deitada: Deite e coloque o braço esquerdo na nuca e coloque uma almofada ou toalha debaixo do ombro esquerdo para ser mais confortável. Apalpe a mama esquerda com a mão direita, da mesma forma que fez no banho e em seguida repita o processo na outra mama, invertendo a posição dos braços.

É de extrema importância que o autoexame seja feito com frequência, para que você possa conhecer sua mama e perceber as diferenças entre um autoexame e outro.

Os seios são uma parte do corpo carregada de simbologia em diferentes culturas, sendo um símbolo de feminilidade, maternidade, amamentação, sexualidade, desejo, prazer e em alguns momentos, protesto. Ele faz parte da identidade social e simbólica feminina e tem um valor estético, sendo a “chegada do seio” constantemente muito aguardada por jovens meninas.

Pensando a partir da psicanálise, o corpo não é apenas o real, orgânico e concreto, ele também é constituído por uma parte simbólica. 

O corpo simbólico é constituído a partir da linguagem, da incorporação de significantes, ele “é falado”, no sentido de que “somos ditos” por um outro, que irá nos nomear como “fulana”, “filha”, “mulher”, “bonita” ou “feia”, que servirá como uma “segunda pele” simbólica de identificações e introjeções que fazem parte do desenvolvimento psíquico de cada sujeito. Nisso podemos perceber que o “ser mulher” e a construção da feminilidade estão muito ligados socialmente à maternidade, que coloca uma grande importância no seio, sendo aquele que amamenta e dá o primeiro alimento ao bebê, possibilitando que ele viva, ao mesmo tempo em que é visto como um símbolo de desejo erótico e zona de potencial prazer.

O cuidado com o câncer de mama parte do autoexame, que pode ser um momento ansiogênico para a mulher, tanto pelo contato concreto e real com o corpo que é carregado de tantos significantes, quanto pelo medo de descobrir ali algo que pode ser indício da doença. Isso também se apresenta no encontro com a médica ginecologista e com a mamografia, que popularmente é conhecida como um exame muito doloroso, mas que a tolerância é singular para cada mulher.

O contato com a ginecologista é um contato com a sexualidade, com o corpo e a vulnerabilidade, por ser uma consulta que toca – real e simbolicamente – em partes muito íntimas e sensíveis das mulheres, sendo extremamente importante um cuidado e paciência por parte da profissional em entender e respeitar os limites do corpo da paciente. 

Além disso, devemos considerar a discrepância do acesso a esse serviço de saúde pela população de alta e baixa renda, com a população mais pobre e distante da capital tendo menos possibilidades de encontro com profissionais ginecologistas devido à distância e/ou demora para conseguir atendimento, além de menos acesso à informação, ocasionando em diagnósticos tardios que dificultam o tratamento precoce – algo que melhorou com a ampla divulgação da campanha do Outubro Rosa.

Receber a notícia de um câncer não é fácil. O câncer surge como um furo no imaginário do sujeito, em que o corpo é afetado por algo real e concreto, com a possibilidade de perda – sendo essa a de um corpo sadio, autonomia e principalmente a própria vida, sofrendo uma castração do ideal simbólico de um sujeito que não falha, estando em uma situação fora do controle dele e dos familiares, precisando apostar em seu tratamento. 

O câncer é uma doença que deixa marcas mesmo após ser vencido, como os efeitos colaterais do tratamento e, mais especificamente no câncer de mama, cicatrizes de uma possível mastectomia – cirurgia em que ocorre a retirada da mama. As marcas deixadas fazem com que o sujeito tenha que lidar com a realidade de ter estado doente e com a possibilidade de não ter sobrevivido, além de não ser mais o mesmo do que antes da doença. A mutilação aparece como uma castração no real, que deixa marcas orgânicas.

Vemos em alguns casos, pacientes que percebem o câncer como um alerta de que algo em sua forma de viver a vida não estava certo, procurando se reinventar, distanciando do que poderia fazer mal a própria saúde. No câncer de mama, essa reinvenção passa pela imagem simbólica da mulher, que pode acontecer com o implante de uma prótese mamária que ocuparia o lugar da mama que foi amputada e/ou tatuagens em torno da cicatriz ou de um “mamilo tatuado”, por exemplo, além da utilização de perucas e lenços quando se perde cabelo no processo de quimioterapia.

A procura de ajuda profissional pode ser extremamente importante para a paciente que vivencia ou vivenciou o câncer de mama, assim como seus familiares. A doença causa no sujeito o luto do corpo que anteriormente era saudável, precisando ser vivido e ressignificado, sendo esse um processo singular de cada uma. A psicoterapia/análise surge como um espaço de escuta que fornece ferramentas para que esse luto seja vivido e tudo o que foi experienciado possa ser dito, escutado e cuidado.

É importante trazer o assunto do câncer de mama em transexuais, que sofrem com preconceito, invisibilização e falta de informação, sendo essas barreiras que podem impedir a conscientização e o cuidado com a doença.

As mulheres trans têm o risco ligado aos hormônios de afirmação de gênero. O rastreio para o câncer de mama em mulheres transgênero pode ser realizado naquelas com ao menos 5 anos de uso de hormônios feminilizantes. 

Os homens trans, caso não tenham realizado a mastectomia masculinizadora, devem realizar a mamografia para rastreio de câncer de mama conforme as orientações atuais para mulheres cisgênero. Caso tenha sido realizada a mastectomia masculinizadora, é necessário que seja procurado atendimento médico na presença de alterações para discutir o rastreamento.

No caso de homens cisgênero, deve-se desconsiderar a ideia de que esse tipo de câncer não atinge essa população, já que mesmo com a baixa incidência, esse tipo de câncer apresenta um alto percentual de mortalidade e, na maioria das vezes, o diagnóstico é feito tardiamente com a falta de adesão por parte deles na realização anual da mamografia por causa do preconceito e desinformação.

O câncer de mama impacta na saúde física e mental de quem é acometido pela doença, causando feridas simbólicas e reais no corpo. O autoexame mensal e a ida anual à médica ginecologista funcionam como prevenção, possibilitando que os sintomas sejam percebidos o quanto antes para um tratamento precoce e efetivo. A doença deixa marcas, mas essas podem ser cuidadas em um processo de psicoterapia/análise. 

Caso você esteja vivenciando a doença nesse momento, ou seja familiar de alguém que esteja passando por essa experiência, não hesite em buscar ajuda! Cuidando da saúde mental, torna-se ainda mais possível cuidar da saúde física.

Luiza Agostini | CRP – 04/63593

Referências 

  1. ARAÚJO, Ronaldo Sales de; LIMA, Nádia Laguardia de. A clínica psicanalítica no hospital com mulheres em tratamento de câncer de mama. Tempo Psicanalítico, Rio de Janeiro, v. 47.2, p. 90-102, 2015. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/tpsi/v47n2/v47n2a06.pdf Acesso em: 25 de outubro de 2021.
  2. CARVALHO, Icaro. Câncer de Mama em Transgêneros. Dr. Icaro Carvalho, 03 de outubro de 2019. Disponível em: https://dricarocarvalho.com.br/index.php/blog2/141-cancer-de-mama-em-transgeneros Acesso em: 25 de outubro de 2021.
  3. FERREIRA, Melo Deborah; CASTRO-ARANTES, Juliana Miranda. Câncer e corpo: uma leitura a partir da psicanálise. Analytica, São João del-Rei,  v. 3, n. 5, p. 37-71, julho/dezembro de 2014. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/analytica/v3n5/v3n5a04.pdf Acesso em: 25 de outubro de 2021.
  4. NEVES, Úrsula. Câncer de mama masculino: 5 sinais que podem detectar a doença. Portal PEBMED, 13 de outubro de 2020. Disponível em: https://pebmed.com.br/cancer-de-mama-masculino-5-sinais-que-podem-detectar-a-doenca/ Acesso em: 25 de outubro de 2021.
  5. ROCHA, Ana Miranda Gorito da et al. Seios, anseios e perdas: o corpo feminino e o câncer de mama como alvo de investimentos subjetivos. Revista Mosaico, Rio de Janeiro, janeiro/junho de 2013. Disponível em: http://editora.universidadedevassouras.edu.br/index.php/RM/article/view/160/76 Acesso em: 25 de outubro de 2021.
  6. SEDICIAS, Sheila. Como fazer o autoexame de mama: passo-a-passo. Tua Saúde, outubro de 2021. Disponível em: https://www.tuasaude.com/como-fazer-o-autoexame-da-mama/ Acesso em: 25 de outubro de 2021.
Luiza Agostini de Paula
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