Psicanálise

A clínica psicanalítica com autismo: Como viver este desafio?

O “diagnostico” e identificação do autista tem demandado muitas discussões por meio de vários estudos e linhas de pensamentos, em que cada um enxergam o tema de maneiras diferentes. 

A base teórica presente na sociedade com maior “visibilidade” e exercida pela maioria dos profissionais é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), no qual as abordagens psicológicas e a psiquiatria médica são tidas como direção de tratamento.

Um olhar psicanalítico do Autismo

Dessa forma, proponho trazer um olhar diferente daquilo que é “comumente” falado, e que não vai de acordo com a linha de percepção do DSM, em vez disso, minha proposta tem com base a teoria freudiana. Isto posto, trago neste texto, a luz da Psicanálise, seu olhar diante do Autismo, destacando o seu rigor singular, em que nos façam localizar a resposta particular de cada sujeito, ou seja, transmitir a clínica do caso a caso, como é denominada, em que questiona as determinadas práticas que prometem resultados concretos.

Com base no Livro “A batalha do Autismo” do Psicanalista Éric Laurent (2014), no qual o autor discorre sobre alguns questionamentos de ordem científica e psicanalítica, fazendo refletir sobre como o Autismo está inserido na sociedade, questionando o próprio sistema do DSM, rejeitando o seu caráter reducionista e autoritário, no sentido de que este seja um transtorno puramente cognitivo, em que tentam buscar uma solução única para ele. 

À vista disso, Laurente (2014, p. 11) fala que “Essa é a luta da Psicanálise. A batalha do autismo é uma proposição de respeito à forma de ser de cada um.”

Abordando a respeito da singularidade do sujeito, essa que a Psicanálise defende e que muitas vezes é desconsidera, Laurent (2014, p. 10) elabora que é fácil cegar-se para a delicadeza desse trabalho. Basta acreditar que já nasceríamos com um kit pronto para essa tarefa. Ele seria feito por nossos genes, por exemplo, que se incumbiriam de definir a direção correta estabelecida pela criação. Sempre que as ações dessa concepção de homem sobem na bolsa da cultura, o autista tende a ser tomado unicamente como portador de um déficit social, irreparável. Poderia apenas ser treinado a adquirir capacidades, não importando que sentido elas teriam para ele.

Questionamentos como esses são importantes, a partir do momento em que a sociedade, “adquire” estereotipias e maneira de classificar um sujeito. Tratando-o como um ser “anormal”, aquele que foge dos padrões existentes ou tentando encaixá-lo dentro de regras e comportamentos para ser inserido na sociedade.

Mas, será que podemos separar as pessoas dessa forma? Será que existe padrões a serem seguidos, no sentido de que todos os seres humanos pensam e reagem da mesma forma? Precisamos refletir…

Trago o Autismo como uma das respostas possíveis do sujeito, sem a pretensão de rotular e classificar, como é comumente apresentada pelo DSM. A psicanálise insiste nessa resposta singular, não se trata de categorizar, determinar comportamentos específicos para o Autismo, para todos os sujeitos. Mas, em agir para que os autistas não fiquem esquecidos atrás do enigma que encarnam. 

Segundo o escritor Laurente (2014, p. 09) “Cada um sustenta a seu modo a arte de viver esse desafio. […] Para cada um esse cruzamento é único e distinto e mantém-se às custas de um trabalho contínuo”.

“Objeto Autistico” e sua relação com o sujeito 

A relação totalmente particular que os autistas têm com certos objetos é uma das principais pistas que orientam nossa abordagem psicanalítica do Autismo.

Pode-se, com efeito, detectar diferentes modalidades de acoplamento do sujeito autista com um objeto particularizado, suplementar, eletivamente erotizado. O corpo do sujeito está numa relação de colagem incessante a esse objeto de gozo fora do corpo.

Trata-se de uma tentativa de se situar em relação a esse objeto – ao qual se cola e que também rejeita. Bola, caixa, copo, computador… esse objeto é essencial. Ele é inseparável do sujeito. (LAURENTE, 2014, p. 51-52)

O sujeito elege um “objeto autistico”, este que é sempre apaziguador, dando-lhe sentido único. Assim, o autista cria sua maneira singular de se manter na vida, ainda que estas invenções incluam a manipulação constante e diária de objetos escolhidos por eles. A invenção que implica em uma solução singular e ímpar – para amenizar o intenso sofrimento no qual está mergulhado o autista.

É o caso, particularmente, dos objetos que, em nossas civilizações, fazem borda com o corpo, como os calçados, as luvas, ou aqueles que o cobrem, como o avental, a roupa. […] O que se toca quando se tira a roupa é sua pele. Para o sujeito autista, esses objetos são na verdade peles que tiramos de seu corpo. (LAURENTE, 2014, p. 52)

Conclusão

Por isso, se faz necessário um olhar para além do diagnostico desse sujeito. Sendo considerado sua maneira singular de enxergar o mundo e sua forma de lhe dá com o Outro. 

A pedra angular dessa batalha consiste em permitir que cada criança elabore, com seus pais, um caminho próprio, e prossiga nele na idade adulta. E isso levando em consideração a incrível variedade de sintomas que o denominado “espectro do autismo” abarca. Trata-se, pois, de uma batalha pelo respeito à diversidade. (LAURENTE, 2014, p. 19)

Portanto, também é preciso destacar a importância do cuidado para com os pais ou responsáveis, assim como qualquer sujeito, em que precise ser escutado. Pois, na maioria das vezes, o olhar e o cuidado se voltam para o sujeito esquecendo-se das suas questões particulares, por estarem inserido no processo de cuidado.

Também é preciso dizer o quanto pais de crianças autistas, em particular as mães, puderam encontrar apoio numa análise para não se verem sozinhos num combate exaustivo por hipotéticos direitos futuros. Esses pais não são apenas “acompanhados” a títulos de pais: a análise deles é sobretudo o lugar onde podem elaborar sua própria verdade subjetiva, para além da infelicidade que os aflige.

Há outras formas de desculpabilizar além do universo da ciência. É possível reconhecer a particularidade de um sofrimento sem fazer dele uma identificação comunitária ou anulá-lo em função de uma causa “natural” sem referência ao falasser. (LAURENTE, 2014, p. 34)

Referência:

Laurent, Éric. A batalha do autismo: a clínica à política/Éric Laurent; tradução Claudia Berliner. – 1 Ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2014. 

Lavinya Stefany Alves Medeiros
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