Desenvolvimento pessoal

Como praticar o perdão?

O perdão, então, é um processo complexo, que diz respeito a características intra e interpessoais e, portanto, único para cada indivíduo, até porque perdoar envolve uma decisão voluntária. É um processo que engloba diversas fases que podem ser influenciadas por diversos fatores. 

Os determinantes do perdão

Neste sentido, McCullough e colegas (1998) introduziram um modelo em que postulam a existência de quatro determinantes do perdão:

  • Determinantes sociocognitivos,
  • Determinantes relacionados com a transgressão,
  • Determinantes do relacionamento e,
  • Determinantes associados a características de personalidade da pessoa ofendida.

No que se refere aos determinantes sociocognitivos, há o destaque para a empatia. De fato, a empatia é um construto relacional que possui um papel importante no processo de perdão (McCullough et al., 1998), constatando-se que comportamentos de perdão são facilitados por afetos pró-sociais, dos quais se destaca a empatia perante o ofensor (Worthington & Wade, 1999).

A análise de Fehr e colaboradores (2010) também aponta a empatia como um relevante facilitador do perdão, sugerindo que quanto maior a capacidade de empatizar com o ofensor, mais facilmente o ofendido perdoará.

Uma vez que a empatia implica a capacidade cognitiva de se colocar no lugar do outro, é esperado que o ofendido tenha uma maior compreensão das motivações que levaram à ofensa e, como tal, suscite uma maior probabilidade de perdão.

Enquanto diversos relacionamentos renascem por conta do perdão, quantos terminam por falta dele? Esse gesto, ou a falta dele, pode mudar toda uma história. Nós aqui vivenciamos há pouco uma relação empática e, ainda deste mesmo modo, vamos fazer uma reflexão de como você vem perdoando. 

O perdão como libertação

O que a outra pessoa precisa fazer para receber o seu verdadeiro perdão? 

Chorar? Mostrar que o ama? Redimir-se? Mostrar que ela merece o seu perdão? Ou mostrar que ela já aprendeu aquilo que ela precisava aprender para evoluir? 

Pois bem… aqui vai a minha proposta de hoje para nós: 

  • Que tal perdoar de antemão?
  • Ou que tal perdoar antes mesmo do pedido de perdão?
  • Que tal perdoar antes mesmo que o outro ainda nem tenha consciência de que precisa do seu perdão?

Eu faço aqui essa proposta, porque, na verdade, o perdão é interessante justamente para quem perdoa. Quando perdoamos de verdade, em um sentido amplo, psicológico, profundo e verdadeiro, o perdão nos liberta dos ressentimentos, das mágoas e daquele passado negativo. 

Perdão vem do latim perdonare, de per, “total, completo”, mais donare, “dar, entregar, doar”. Assim, perdão é entregar totalmente o que já não é mais seu porque não agrada seu coração. É, portanto, a renúncia a tudo aquilo que não lhe faz bem! Da mesma maneira, não perdoar é como escolher todos os dias fazer uma manutenção das pontes que o ligam àquelas situações que lhe trazem dor, é fazer questão de não abrir mão desses elos. 

As marcas, os traumas, os arrependimentos, as angústias, as tristezas, as culpas são elementos que nos fazem viver constantemente o passado e, por isso, impedem-nos de estar presentes de maneira completa no presente. E o ontem não deixa de ser um tempo ilusório. É exatamente por isso que muitas pessoas têm medo do amanhã. É, na verdade, medo que o passado se repita. Perdemos muita energia vivendo deslocados do tempo, do aqui e do agora, nem que seja de maneira sutil, nas angústias do passado ou nas ilusões do futuro. 

Só tem um jeito de ser feliz de verdade: abrindo mão do passado e abrindo mão, portanto, de controlar o futuro. Estar inteiro no tempo presente. Por isso, a inteligência contida no perdão é absoluta. Perdoar para simplesmente fazer bem a si próprio, para prevenir e curar doenças, para abrir caminhos para uma vida nova… basta querer! 

Perdoe a todos, para o bem de si mesmo

Então, saia hoje perdoando todo mundo. O vizinho que acordou você com o som alto, o motorista do carro que lhe deu uma fechada no trânsito, o marido ou a esposa que não corresponde às suas expectativas, a pessoa de que você gosta, mas não age conforme sua vontade, ou aquela por quem você não tem tanta empatia e que nem fez nada demais, mas você se irrita com ela.

Perdoe também você mesmo por ter errado um dia, ou muitos dias. Perdoe cada errinho seu. E não deixe nenhum deles sem o perdão do qual estamos falando aqui. Isto é renascer a cada dia! Se até as células do nosso organismo renascem de tempos em tempos, por que não consideramos natural realizar periodicamente uma limpeza profunda em nosso emocional também? 

Vamos ensinar nossos filhos a perdoar as pessoas e a si próprios assim. Mas vamos aprender com eles também. As crianças perdoam naturalmente, com sinceridade. Não guardam mágoas. Essa é a capacidade do perdão com a qual nascemos e que vai sendo perdida ao longo de nossa vida, porém, é a verdadeira capacidade que sempre existiu em nossa criança divina que temos bem no cerne de nossa essência. “Voltar para casa” é se voltar para essa capacidade. 

A dificuldade em perdoar

Algumas pessoas têm muita dificuldade de perdoar porque acreditam que isso é aceitar tudo sem filtro. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, é importante que isso fique claro! Devemos limpar de nossa vida tudo aquilo que não nos faz bem e buscar só o que estamos de acordo, aquilo que queremos que permaneça, o que tem a ver com a nossa essência.

Porém, sem o peso daquele passado negativo, sem ressentimentos! Não é justo ninguém sustentar uma situação aversiva por qualquer motivo! Já conheci muitas pessoas suportando situações nocivas porque, no fundo, não se julgam merecedoras de trabalhos, parceiros, amigos, clientes e condições melhores para si mesmas. E nesses casos, ainda, é comum que criem uma relação de dependência com aquilo que suportam, pelo medo ilusório da perda, justamente pela crença de que são incapazes de alcançar conquistas maiores. 

É preciso, sim, limpar nossa vida de tudo aquilo que não faz bem ao nosso coração, respeitando a nossa individualidade, diluindo as ilusões das dependências e da falta de merecimento. Mas não se engane, nenhum recomeço se dá sem o perdão sincero.

Se um dia você errou, mesmo que tenha errado muito feio, perdoe-se nesse nível que estamos conversando aqui. Perdoe-se sempre. E já saiba que você vai errar de novo. Se uma pessoa errou com você, perdoe. Mesmo que você escolha mudá-la de posição na sua vida ou até mesmo nem a veja mais. Se essa pessoa lhe faz bem e você quer um recomeço com ela, perdoe de uma maneira ainda mais profunda.

E já saiba que ela vai errar de novo, mais cedo ou mais tarde. Além do que, errar também é tão relativo. Às vezes, o que é um erro para mim, não é para você. As pessoas erram. Nós erramos. O nosso autoconhecimento, a nossa sabedoria e a nossa evolução também se ampliam por meio de nossos erros. 

Em outras palavras, o perdão não é um presente lindo que damos com um laço vermelho de cetim para uma pessoa que nos feriu. É um presente lindo com um laço de fita vermelha de cetim que damos para nós mesmos. Um presente para quem sabe se colocar, de fato, inteiro no momento presente e sempre recomeçar! 

Leia bem: cada um de nós aqui nasceu para brilhar. Acredite, ninguém nesse mundo nasceu para ter uma vida “mais ou menos”, uma vida cabisbaixa. Cada um tem sua luz pessoal, características inigualáveis e dons inéditos que ninguém mais nesse mundo tem. Use tudo isso a seu favor, para fazer a diferença e para que seja sempre muito feliz.

Referências:

  1. Trecho do livro: “A Vida pelos olhos de uma Criança – De Teorias da Psicologia a Questões da Vida Real para uma Verdadeira Transformação”, Alessandra Cieri.
  2. FEHR, R., GELFAND, M., J, & NAG, M. The Road to Forgiveness: A Meta-analytic Synthesis of its Situational and Dispositional Correlates. Psychological Bulletin, 136(5), 894–914, 2010.
  3. MCCULLOUGH, M., RACHAL, K., SANDAGE, S., WORTHINGTON, E., BROWN, S., & HIGHT, T. Interpersonal Forgiving in Close Relationships: II. Theoretical Elaboration and Measurement. Journal of Personality and Social Psychology, 75, 1586–1603, 1998.
  4. WORTHINGTON, E. L., & WADE, N. G. The Social Psychology of Unforgiveness and Forgiveness and Implications for Clinical Practice. Journal of Social and Clinical Psychology, 18, 385–418, 1999.
Alessandra Cieri
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