Psicologia geral

Viúva pela COVID-19: Como seguir em frente sem meu marido

Coronavírus Disease 2019 – COVID- 19 e a pandemia

A pandemia foi anunciada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) no dia 11 de março de 2020, caracterizada pela crescente mortalidade em diferentes países do mundo pelo novo coronavírus (Coronavirus Disease 2019 – COVID-19). Os sintomas referente à doença do COVID-19 foram apontados como:

  • Fadiga
  • Tosse
  • Febre alta e falta de ar

Apesar de algumas pessoas apresentarem sintomas leves ou moderados, um grande número de pessoas foram levadas à morte mundialmente por tal doença (CREPALDI et al.,2020).

Luto repentino

Segundo os autores CREPALDI et al. (2020), pandemias causam mortes em massa, num período curto de tempo, tais características acarretam impactos psicológicos, pois algumas ações são necessárias para conter ao máximo o aumento de contágio. Tais como:

As restrições fazem-se necessárias àqueles que são acometidos pela doença, limitando interações presenciais, mediadas muitas vezes pela tecnologia. Portanto, percebemos que as mortes causadas pela pandemia são mortes repentinas. Nesse sentido, quem perde uma pessoa nesse contexto, não tem o tempo necessário para assimilar a doença e o rápido progresso que pode gerar à morte, além da profunda tristeza, angústia, os familiares não se despedem de forma efetiva.

Vale ressaltar que os “rituais” de despedidas são importantes para elaboração completa do luto, por meio dos ritos, percebe-se que a comunicação dos sentimentos, das memórias facilitam ressignificação da vida sem um ente, e é uma parte importante do processo para a superação do luto. Contudo, tais rituais na doença do COVID-19 foram modificados (CREPALDI et al., 2020).

No contexto da pandemia os rituais foram reconfigurados, por orientações sanitárias para que os caixões fossem lacrados, ou os corpos cremados, impedindo a aproximação e a visualização do ente, e com tempo limitado.

Os autores ressaltam que algumas estratégias podem ser inseridas nessa nova configuração para ajudar na elaboração completa do luto, sendo elas:

  • Inserir uma fotografia no caixão, no ambiente do velório;
  • Incentivar mensagens faladas, escritas, cantadas ou músicas significativas para quem faleceu;
  • Rituais religiosos e espirituais.

As estratégias de rituais remotas também podem fortalecer o enlutado, incentivando a expressão de sentimentos do coletivo. A comunicação verbal e não verbal se mostram fundamentais nos rituais de despedida. Por exemplo:

  • Acender uma vela em uma janela;
  • Telefonemas, mensagens de texto e de áudio;
  • Criação de memória online, em que familiares e amigos possam expressar seus sentimentos.

Com base nessas informações, questionamentos sobre o luto podem ser gerados, tais como: Será que o luto repentino se difere do luto anunciado? É possível seguir em frente?

Estratégias de elaboração

De acordo com os autores CREPALDI et al. (2020), existem desafios no luto da COVID-19, pois, o luto antecipatório costuma beneficiar o enlutado preparando-o emocionalmente para uma futura perda. No entanto, outros fatores podem complicar a elaboração do luto completo, podendo ocorrer um luto complicado.

Fatores como o local, se foi no hospital a caminho ou em casa; forma em que o ente faleceu, as despedidas, se foi possível dizer adeus ou comunicar algum sentimento importante para o enlutado, como visto acima. Essas características são próprias dos rituais de elaboração, contudo, por conta do um isolamento, são impedidas ou muitas vezes medidas por meios eletrônicos.

Soluções essas que impedem encontros de condolências de amigos e o suporte de familiares. Outro fator complicado são os sentimentos de culpa que podem surgir, sentimentos de responsabilidade pela contaminação de quem faleceu.

A partir da compreensão de que o luto é uma reação própria do desenvolvimento humano e que o conceito da palavra luto para a psicanálise é trabalho (Mijolla, A.2005). É possível perceber que existe uma necessidade de uma ação consciente e deliberada para elaboração da dor.

Vale ressaltar que as etapas do luto são um processo natural e devem ser respeitadas, sendo eles:

  • A negação,
  • A raiva,
  • A barganha,
  • A depressão,
  • A aceitação.

Concordando, os autores CREPALDI et al, (2020) alertam para que apesar do luto ser um processo regular para a adaptação à perda, que envolvem emoções, cognições, sessões físicas e mudanças de comportamento. Algumas estratégias essenciais podem ajudar na elaboração, quando se refere à morte de um ente do contexto afetivo relacional, tais como:

  • Aceitação da perda. Nesse sentido é importante trabalhar com a realidade, pois pensamentos de fuga podem surgir e criar uma sensação de que a pessoa não partiu.
  • Reconhecimento do próprio sofrimento causado pela perda. Pois ao abafar a dor a tendência é prolongá-la.
  • Adaptação ao novo modelo de vida sem a presença do ente querido. Nesse contexto é necessário pensar que as funções dentro da casa podem mudar e assumir papéis que antes eram próprios da pessoa que faleceu.
  • Reposicionamento emocional do ente. Nesse sentido, o enlutado dá um espaço para memórias. Assim pode dar continuidade à vida.

Para os autores CREPALDI et al, (2020), os meios eletrônicos podem ser considerados como meios recentes de expressão de sentimentos, as redes sociais podem se mostrar efetivas para homenagens, além de proporcionar uma maior interatividade, guardando uma memória.

Alguns exemplos apontados pelos autores foram os rituais adotados em diferentes países. Em Madri, Espanha, o governo propôs um minuto de silêncio com a bandeira hasteada a meio mastro diariamente. Na Itália, policiais cortejam os carros funerários, na Holanda é solicitado aos familiares expressar seus sentimentos por cartas, cartões, além de uma foto do enlutado para uma posterior homenagem.

Os rituais religiosos também foram adaptados para meio eletrônico em diferentes lugares do mundo. No entanto, vale ressaltar que tais meios estão sendo usados como forma de amenizar e simbolizar a dor, contudo, essa reorganização do processo não substitui o modelo tradicional de cada região e cultura.

Por fim, percebemos a importância dos rituais, da fala, da memória e da ação consciente para uma elaboração completa, contudo, é possível entender que dentro desse cenário, o luto complicado pode surgir, deixando a pessoa fixada em uma das fases, naturalmente essa fixação pode ocorrer com qualquer pessoa, independente da estabilidade emocional que a pessoa tenha antes do ocorrido.

Ézia Cristina Cavalcante

Mestre e Psicóloga Clínica

Contato: ezia.psi@gmail.com

Referências:

  1. CREPALDI, M A; SCHMIDT, B; NOAL, D D S; BOLZE, S D A; GABARRA, L; M. Terminalidade, Morte e Luto na Pandemia de COVID-19: Demandas Psicológicas Emergentes e Implicações Práticas. SciELO Preprints, 2020.
  2. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
  3. Mijolla, A. Dicionário Internacional de Psicanálise. Imago. 2005.
  4. Ministério da Saúde (2020). Manejo de corpos no contexto do novo coronavírus –
Ézia Cristina Cavalcante
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