Desenvolvimento pessoal

Afinal, o que os conflitos podem nos ensinar?

Muitas vezes nos encontramos frente a alguns desafios na vida. Podemos tentar fugir deles, ficarmos paralisados ou então aprender algo novo com eles. Diante de um conflito interno, há também uma grande oportunidade de mudança.

Quando ampliamos o nosso olhar, a partir de outras perspectivas além das aparentes e já conhecidas, somos convidados a expandir nosso espectro de consciência para níveis ou estados mais elevados de aprendizado. 

Num estado de consciência ampliada, ficamos mais receptivos para acolher, perceber, sentir e intuir sobre tudo o que está nos acometendo e nos envolvendo em determinada circunstância. Essa autorreflexão facilita os nossos insights e nos leva a uma compreensão mais ampla e fidedigna da realidade e suas possíveis interpretações. 

Quando aprisionada pela angústia, a mente vivencia somente uma única percepção, vagando incessantemente em múltiplos pensamentos repetitivos e autodestrutivos, levando o indivíduo à distorção de possíveis compreensões sobre o conflito vivenciado. Com a visão cada vez mais limitada e reduzida, este ciclo vicioso gera ainda mais apreensões, sofrimento e emoções intensas com as quais o indivíduo se identifica fortemente, e nas quais acaba por se perder. 

O autoconhecimento e a descoberta de recursos internos

A busca do “quem sou eu” traz um saber mais amplo dos recursos internos disponíveis para o aprendizado necessário deste momento tão importante pelo qual o indivíduo atravessa em direção à mudança. É dessa natureza intrínseca de autossuperação e autodeterminação, que emergem os valores mais elevados do indivíduo.

A abertura para o autoconhecimento leva ao encontro de recursos internos e à redescoberta de um manancial de possibilidades inesgotáveis, além de ser vital para que o seu trabalho de transformação seja realizado. 

Para transpor cada etapa de crescimento e desenvolvimento rumo à transformação, precisamos despertar em nós não somente a informação e o conhecimento, advindos da razão, mas também e principalmente a emergência de valores construtivos que farão o papel de catalizadores e promotores de nossas novas ações. Algo de ordem mais subjetiva surge da consciência humana integrando valores e virtudes inerentes a cada um de nós.

A verdadeira busca do homem é encontrar seu caminho para si mesmo

A psicodinâmica da transformação, ou seja, as diversas formas pelas quais a consciência pode se transformar, implica a visão de uma rede complexa de relações dentro das quais se situam os fenômenos e o indivíduo frente a eles.

“Ultrapasso minha singularidade na medida em que minha consciência não é apenas uma série de fatos ou de acontecimentos e que todos esses acontecimentos têm um sentido. A intuição das essências consiste simplesmente em reconquistar esse sentido não ainda tematizado na vida espontânea” (Bertolucci, 1991, p.125).

A busca pelo sentido e pelo sentir leva constantemente à integração dos acontecimentos e fatos cotidianos à uma rede complexa de interpretações que fazem parte do fluxo da vida evolutiva do indivíduo. Como nos assinala Roberto Crema, “todo sintoma tem um valor de mensagem, que precisa ser escutada e interpretada, naturalmente. Para, só então, ser transcendido. O único sofrimento avassalador é aquele que não foi interpretado, que não desvela nenhum significado.” (Crema, in Barros, 2008, p. 70).

Portanto, buscar o sentido do viver, do sofrer, do alegrar-se, faz parte da constituição de todos nós. A cada busca de si mesmo, a cada encontro com o sentido da vida, a cada transformação do “eu” e todo o seu significado diante dos acontecimentos, faz parte de “tecer” a própria existência.

Somos como aranhas, e temos internamente os recursos necessários para a construção de nossas teias da vida. 

A sombra é o prenúncio de que há luz por trás de si mesmo

Toda proposta psicoterapêutica tem implícita uma aprendizagem, um encontro com a dimensão luminosa do ser humano. Incita o indivíduo a experimentar uma nova forma de ver, estar e sentir em relação a uma determinada situação ou acontecimento.

Convida-o a uma postura transformadora em relação à sua atual percepção da realidade, às suas crenças e, principalmente em relação às suas atitudes. Ao caminhar pelo processo da psicoterapia, nos permitimos adentrar em nosso universo inconsciente, descobrindo nele aspectos de luz e de sombra. A partir desse encontro íntimo com nosso universo interior, podemos refletir no exterior as mudanças que queremos manifestar.

Abraham Harold Maslow destacou em sua teoria da motivação que existem aspectos saudáveis, curativos, desejáveis de beleza e êxtase do ser humano (Maslow, 1990, p.95). Para o autor, o indivíduo é um todo integrado, no qual a personalidade é um sistema aberto, organizado e dinâmico (Frick, 1975, p.167). Possibilitando, desta forma, a fluidez, a continuidade de transformação e o dinamismo para as mudanças desejadas.

Portanto, essa dinâmica natural de integração e apreensão de um conhecimento a partir de um conflito ou desafio na vida, faz do indivíduo um instrumento ativo, parte íntima do processo auto transformador e auto regulador, contribuindo, desta forma, para o seu desenvolvimento tanto no nível individual e social, quanto no aspecto coletivo.

As funções psíquicas são os recursos por meio dos quais a consciência obtém a orientação para a ampliação da percepção para mudança de crenças. Desta forma, ampliamos o nosso olhar diante da própria dor possibilitando uma visão baseada em mais sabedoria, autocompaixão e amor. 

Para refletir

Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo.” Hermann Hesse

A psicoterapia abre caminho para que seja alcançada a instância superior no ser humano responsável pela capacidade amorosa e criativa. Para que ele possa ver através de uma consciência mais profunda, o seu papel de agente da mudança de si mesmo e, consequentemente, do mundo ao seu redor, trazendo o significado e o sentido do aprendizado de cada situação de sua existência.

 

Referências Bibliográficas:

BARROS, Maria Cristina M. A Consciência em Expansão. Edipucrs, Porto Alegre, Brasil, 2008.

BERTOLUCCI, Eliana. Psicologia do Sagrado. Ágora, São Paulo, Brasil, 1991.

SALDANHA, Vera. Psicologia Transpessoal: Abordagem Integrativa. Editora Unijuí, Ijuí, RS, Brasil, 2008.

Flavia Azevedo Mendes de Melo
Últimos posts por Flavia Azevedo Mendes de Melo (exibir todos)
Etiquetas

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar