Desenvolvimento pessoal

Coronavírus e a sobrecarga física e mental das mulheres

Coronavírus, mulheres sobrecarga física e mental do isolamento social

Vamos falar um pouco sobre a sobrecarga de trabalho que temos enfrentado com o isolamento social?

A funcionária precisou ser dispensada, o trabalho da rua executado dentro de casa e os filhos sob cuidados integrais. As mudanças foram muitas para muitas famílias. As atividades domésticas, home office, obrigações com o sustento e o cuidado integral com crianças tem sido uma jornada desafiadora para muitas — e muitas vezes solitária.

Embora a sobrecarga de trabalho seja um desafio para homens e mulheres, são as mulheres que assumem, em sua maioria, os trabalhos domésticos e os cuidados com os filhos, assim como a chefia de muitas famílias. Na grande maioria das vezes, recai sobre a mulher a cobrança externa ou até mesmo a autocobrança para que todos se sintam bem e sejam o mínimo possível afetados por essa situação.

Isso é resultado do modelo cultural que temos, no qual a questão do cuidado, da preocupação e da atenção a todos, além dos detalhes são mais atribuídos à mulher, sem que nenhuma evidência científica confirme isso.

Vamos falar um pouco sobre essa sobrecarga, oferecendo algumas estratégias e reflexões que possam melhorar a vivência desse momento, mas principalmente para que os desafios desses tempos resultem em algum aprendizado positivo que possa ser levado para a vida após a pandemia

Fatores de sobrecarga física e mental 

O confinamento acabou criando o enfrentamento de situações desagradáveis:

  • O medo da doença;
  • Preocupação com a saúde pessoal e de pessoas queridas;
  • Necessidade de lidar com o pânico;
  • Preocupação financeira;
  • Preocupação com o trabalho;
  • Solidão,
  • Etc.

É natural que as urgências resultantes do confinamento gerem desconforto. É possível vermos as pessoas reclamando de tristeza, impaciência, indignadas, inconformadas. Mas também temos vistos todos esses sentimentos surgindo ao mesmo tempo em que se busca manter uma rotina de atividades que não podem ser ignoradas.

Os filhos, a casa, os trabalhos e outras questões continuam precisando de atenção. A alteração da rotina, isso acabou criando uma sobrecarga muito grande, às vezes sob a responsabilidade de uma só pessoa que, na maioria das famílias, tem sido as mulheres. Para entender como isso pode afetar a saúde é preciso dividir os aspectos que geram sobrecarga de trabalho:

A carga física

A carga física diz respeito às demandas que conhecemos e realizamos. As atividades domésticas, as questões do trabalho, a educação dos filhos e tudo que precisa ser feito que exige tempo, organização e esforço físico.

Tudo isso pode e deve ser feito sem que cause nenhum problema à nossa saúde. Mas, caso esse trabalho esteja tomando de forma excessiva a rotina, sem pausas necessárias, resultando em efeitos negativos de alguma natureza, podemos falar em uma sobrecarga de trabalho físico que pode gerar doenças físicas e mentais graves.

A carga mental

A carga mental se refere às questões cognitivas, emocionais e invisíveis, necessárias à execução de todas as atividades. É preciso programar, prever, fazer planos, adiantar falhas, evitar problemas antecipando-se a eles, dando conta de todos os detalhes de sua vida e da vida familiar.

Então, somadas a mão de obra que realizam, existe um trabalho invisível, mas contínuo que faz com que as cabeças das pessoas não parem de trabalhar um instante e resulte numa carga mental exaustiva. E isso se agrava muito quando são mulheres e ainda mais quando são mães. 

O resultado disso já é sentido por muitos:

  • Sensação de cansaço físico,
  • Frustração,
  • Sentimento de injustiça,
  • Desigualdade,
  • Descontentamento,
  • Angústia,
  • Impactos no humor, na saúde física e mental.

Que podem resultar em condições graves de adoecimentos. Mesmo sendo uma questão que afeta a todos, esses sintomas estão mais presentes nas mulheres, considerando as questões culturais que implicam que as mesmas tenham incorporado às suas atividades toda a carga mental dos problemas resultantes do isolamento social.

Dicas que podem ajudar com a sobrecarga durante o isolamento

Dica 01

Não há problema em precisar e pedir ajuda. Homens e mulheres foram educados para separar as responsabilidades e atividades que executam na sociedade e na família. Com isso, muitas famílias se organizam para que cada um realize sua parte e não pensam sobre a possibilidade de compartilhar ou ajudar o outro em suas obrigações.

Isso tem mudado aos poucos, mas ainda não é a realidade da maioria, e o isolamento acabou fazendo com que mulheres que trabalham fora tivessem que assumir também as tarefas domésticas, os cuidados integrais com os filhos, sem nem perceberem que estavam aumentando a sua demanda de trabalho.

Então, peça ajuda caso seja possível. Dessa forma você pode aliviar uma das cargas que estão sob sua responsabilidade. Caso esteja só e não haja com quem contar, selecione aquilo que não poderá ser feito a contento nesse momento e não se sinta culpada por isso. Situações atípicas exigem soluções atípicas. A comida nem sempre poderá ser feita com primor, as camas nem sempre serão arrumadas e as atividades físicas mantidas, mas tudo isso passará e você poderá retomar velhos hábitos com mais facilidade do que recuperar uma saúde prejudicada.

Dica 02

Cuidado com responsabilidades que não eram suas e não poderão ser feitas de uma forma eficiente. Nós temos visto mães querendo assumir a posição de educadoras, psicólogas e animadoras. Elas estão se sentido frustradas por não conseguirem os resultados que imaginavam. Entenda que você só pode oferecer aquilo que tem. Faça o melhor dentro de suas possibilidades, mas não se sinta responsável em alfabetizar seu filho se isso nunca esteve nos seus planos ou você nunca se preparou para isso. Pais devem ser colaboradores dos educadores e da escola, mas não tem a formação adequada, portanto, cumpra com o que é possível.

Dica 03

Evite comparações com outras famílias ou mães. As redes sociais estão cheias de fotos, vídeos e mensagens de famílias e suas intimidades. Nem sempre aquelas fotos correspondem à realidade e, em todos os casos, são apenas recortes selecionados ao gosto do autor da rede social. Então, a visão parcial deixa várias lacunas que você pode estar preenchendo com fantasias de superioridade sobre a grama do vizinho.

Dica 04

Aliás, se as redes sociais já eram fonte de problemas para muitas pessoas em outros períodos, durante o isolamento isso tem se agravado.

A receita é a mesma: só siga quem ou o que te faz bem. Exclua sem pena qualquer pessoa, mesmo próxima, que de alguma forma oferece algum conteúdo que lhe causa mal-estar. Se você percebe que o problema não é com o material, mas como você tem tido um filtro negativo, se afaste e faça uma análise honesta da razão de existir esse filtro.

Saber dizer não e impor limites também é um exercício que você deve exercer na sua rede social. Da mesma forma, cuide do conteúdo que posta evitando desconfortos que não se sente preparada para lidar.

Dica 05

Estabeleça uma rotina realista. Não dá para querer impor uma rotina como ensinaram naquele canal ou por alguém que você admira. Toda rotina é composta basicamente de planejamento e organização. Saber o que precisa fazer, a hora ideal e necessária para fazer e como fazer.

Por isso, toda rotina depende do contexto de cada família e tá tudo bem os ajustes que precisará fazer quando uma coisa outra não der certo. Se existe mais coisa para fazer do que tempo e mãos para executar, execute o que é necessário apenas. 

Dica 06

Reflita sobre como está dividida a sua carga mental e sua carga física. Quanto tempo se dedica planejando, pensando, cobrando-se para que isso ou aquilo seja feito de forma adequada. Quando você identificar o tamanho da sua carga mental, avalie o quanto ela te impacta em termos de energia física.

Depois aprenda a fazer uma lista antecipada das coisas importantes e tente evitar o excesso de tempo pensando sobre o que falta fazer. Substitua parte do tempo que usa durante o dia se preocupando com alguma atividade física ou mental que lhe traga satisfação. Comece se esforçando até que o prazer vire um hábito.

Dica 07

Trabalhe e descanse com a família. Assumir as atividades enquanto os outros se divertem pode gerar sintomas negativos e difíceis de lidar. Por vezes, você nem consegue identificar de onde vem a sua irritação. Envolver todos nas responsabilidades do lar é fundamental para formar pessoas mais colaborativas e empáticas com os outros.

Não sinta vergonha. Não ache que somente mulheres podem fazer isso ou aquilo ou que é tarde demais para mudar o que está estabelecido. Todos são capazes de aprender e devem ser incentivados. Onde for possível ter ajuda, não se negue a pedir. Entenda que ao dividir tarefas e lazer com a família, você estará dando exemplo e criando memórias. São os momentos compartilhados que farão o tempo psicológico e subjetivo formar memórias familiares nesses tempos tão difíceis.

Dica 08

Não tolere ou incentive hábitos que impactam de forma negativa na sua família. Conflitos desnecessários, brigas infundadas, diálogos tensos, bebedeiras, etc.

Há guerras que não precisamos lutar e outras que podemos acabar antes que se estendam demais. Por isso, seja rígida sobre o bem-estar familiar, mas seja flexível sobre questões que não lhe faria bem intervir nesse momento. É bom senso e autocuidado aqui. O diálogo franco, honesto e educado ainda é a melhor forma de expressão.

Assim, se está difícil conseguir a ajuda dos familiares, exponha seus sentimentos, seu cansaço e a responsabilidade de todos sobre a família, sem drama e sem gritos. Mas não exija perfeição usando apenas a sua régua, ou seja, pedir ajuda não quer dizer que todos saberão fazer as coisas como você, mas pelo menos que se esforcem para fazer o melhor possível.

Dica 09

Não alimente hábitos pessoais contraprodutivos. Ou seja, reclamar que as pessoas só fazem as coisas mal feitas, são descuidadas ou egoístas, por exemplo. Ou até mesmo exigir que todos pensem ou ajam como você, é limitante e irritante. Não ter coragem de pedir ajuda, mas passar o dia reclamando só faz mal a você a ao clima familiar.

Achar que as pessoas precisam se compadecer e se oferecer para ajudar só lhe coloca no lugar de vítima e não gera bons resultados. Fale com as pessoas de forma franca e esclareça aquilo que você quer. Um exemplo que é comum são mães arrumarem o quarto dos filhos reclamando da bagunça ao invés de entrar e mandar eles arrumarem o que bagunçou até a hora tal.

Se afaste e só pense nisso na hora de verificar a tarefa. Não adiante pedir e ficar em cima se estressando, cobrando o tempo todo ou achando que só você fará da melhor forma. Eles terão que arrumar o quarto bagunçado, mais cedo ou mais tarde. Se não foi feito, cobre novamente e negocie novos termos. Se foi feito, agradeça por eles terem sido tão responsáveis. Agradecer é importante, pois nos ajuda a reconhecer a participação do outro e alimenta um clima agradável de troca.

Dica 10

Reserve um tempo para autocuidado. Busque realizar algo que você gosta, mas não por obrigação e sim por prazer. Busque algo que lhe seja agradável, que faça você sentir bem-estar e dedique-se a isso. As tecnologias de informação têm ofertado um mundo de possibilidades para que as relações sociais sejam mantidas em algum termo.

Encontro online de amigos, lives de artistas, aulas de atividades físicas, meditação, palestras de profissionais, uma gama de possibilidades. E caso precise de um tempo para sentir um pouco do mal-estar que essa situação carrega e desabafar, também vivencie isso de forma reflexiva e saudável, pois não dá para ficar bem o tempo todo. Só não pode deixar que isso seja a regra.

Caso esteja em sofrimento emocional, busque ajuda. Existem redes de profissionais em atendimento social, tanto através de órgãos governamentais como organizações e associações privadas, assim como psicólogos ofertando o atendimento online. Busque profissionais capacitados, com formação e cadastro no Conselho Federal de Psicologia, assim como cadastro na plataforma do E-Psi.

Se estiver enfrentando situações abusivas, vulnerabilidade social e/ou violentas, procure uma rede de assistência em seu município, como o Centro de Assistência Psicossocial (CRAS) ou denuncie através de telefones como o 180 (violência doméstica) ou 100 (violação dos direitos humanos).

E lembre-se, tudo isso vai passar.  

Maria D’Ajuda Costa Passos – Psicóloga CRP-02/14549, especialista em Saúde da Família (UNIVASF); Mestre em Administração (UFBA); e doutoranda em Administração (UFBA). Realizo atendimento Presencial (Petrolina- PE) e Online (Psicologia Viva!), Petrolina-PE. Contatos: (87) 99656-9399 e ducapassos@yahoo.com.br

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