Relacionamento

Curto circuito nos relacionamentos: O que é isso?

Estava eu pensando sobre como acontecem os relacionamentos nas famílias e, de repente, me veio a imagem de um curto circuito. É como se estivesse “tudo bem” e de repente saísse uma faísca.

O significado de “curto circuito”

Quando falo em curto circuito o que vem à cabeça de vocês?

Curto circuito na eletricidade é a passagem da corrente elétrica acima do normal em um circuito, devido a redução abrupta da impedância, que é a capacidade de resposta de um circuito elétrico percorrido por uma corrente alternada.

Deste modo, por curto circuito estou me referindo a algo que acontece fora do habitual e que provoca uma alteração, ou seja, uma dificuldade de resposta.

Que ligação podemos fazer disto com a família e seus relacionamentos, suas emoções?

As duas necessidades básicas do ser humano

Sabemos que todo ser humano tem duas necessidades básicas, que são: “ter uma família” e “estar numa família”.

Ter uma família significa ter uma determinada identidade que lhe é dada pelo nome do pai e da mãe. A pessoa é registrado dessa forma e assim fica conhecido.

Bert Hellinger, criador da Constelação Familiar, nos diz que todo indivíduo tem o direito de pertencer a um sistema familiar. De modo semelhante J.L.Moreno, criador do Psicodrama, nos diz que já nascemos com o papel de filho, complementando o que diz Bert.

Esse sentimento de pertencimento vem da forma como os pais manifestam o amor e a dedicação que sentem pela criança.

O pertencimento é um direito de nascimento

Estar numa família é sentir que tem um porto seguro, ter um lugar para onde voltar sempre que quiser ou precisar.

São as vivências passadas, as atuais e as expectativas quanto ao futuro que dão o significado de família para cada um.

Apesar das famílias estarem incluídas no contexto social, numa determinada cultura, elas se diferenciam, pois cada uma tem suas histórias, suas crenças, seus mitos que são passados pelos seus ancestrais e que são percebidos e vivenciados de modo peculiar, por cada um.

Desta maneira a pessoa vai formando seu caráter, seus valores e princípios, apoderando-se do que acha que é melhor para cada um e com isso vai construindo sua individualidade.

Os curtos circuitos aparecem em vários momentos nas relações, sejam familiares ou apenas sociais.

A família e o “curto circuito”

Após a inserção da mulher no mercado de trabalho, estas faíscas ficaram mais explícitas. E por quê? Pelo fato de ela deixar o papel de mulher submissa e passar a ter um papel ativo e importante ao dividir com o companheiro responsabilidades que antes eram só dele, como por exemplo prover o sustento da casa e do filhos.

Isso significa que ela passou a ter voz ativa não só no que dizia respeito à educação dos filhos e as lides domésticas, mas em tudo o mais, e aí os desentendimentos aumentaram, pois a mulher passou a reivindicar o direito de ser ouvida e de suas opiniões serem respeitadas e acatadas.

Agora os dois dividem tudo o que diz respeito à família, incluindo o cuidado com os filhos, o que traz uma maior aproximação entre pais e filhos e um sistema familiar mais harmônico.

Aqui já temos motivo para um bom “curto circuito”, pois é necessário que os pais estejam em sintonia e ajam de acordo com o combinado com o companheiro, isto significa que numa família existem regras.

Caso isto não aconteça, vai causar uma grande confusão e um desequilíbrio no sistema familiar. É preciso que fique claro para os filhos que os pais estão de comum acordo e que as regras familiares são para serem respeitadas por todos. É claro que poderá haver flexibilização a depender do caso. Bert Hellinger nos diz que: “O amor flui e a ordem conduz”. 

Um simples exercício

Proponho um exercício simples. Podemos chamar também de uma brincadeira com o seu ou com a sua parceiro/a, para treinarem a escuta e perceberem como a comunicação influencia nos relacionamentos. Este exercício será vivenciado durante cinco minutos, por cada um da dupla.

Aquele que começar falará durante cinco minutos sobre o que quiser e o outro vai somente escutar, não poderá dar apartes e nem fazer expressões faciais, gestos, perguntas, etc., quando completar os cinco minutos, trocam e o outro vai passar pela mesma experiência.

Quando estiverem escutando, perguntem-se: A quem eu escuto quando estou escutando?”

Depois que ambos tiverem  vivenciado esta situação conversem sobre como se sentiram e se são capazes de reproduzir a fala do outro. Troquem ideias e digam se ficaram confortáveis em cada um dos papeis, o que foi mais difícil, etc. 

Como você se sentiu ouvindo e precisando esperar o outro terminar de falar para então poder se colocar? Conseguiram observar as regras?

A importâncias das regras

As regras são importantes, vimos que até nas brincadeiras elas existem, devemos também prestar atenção a maneira como nos comunicamos, como falamos uns com os outros e considerar que a comunicação não acontece somente de forma oral, nosso corpo também fala e vimos isto neste exercício, quando uma das regras era não se expressar facialmente. 

O fato de termos intimidade não nos exime de sermos delicados, educados com as pessoas que somos mais próximos. Este é um ponto que sempre aparece quando atendo famílias.

Estamos sempre comunicando alguma coisa, até quando não queremos comunicar. A comunicação acontece mesmo quando não há uma compreensão mutua, neste caso quando não entendemos algo, devemos perguntar e não interpretar ou deixar passar em branco, fazer de conta que entendemos, pois dessa forma o outro passará a se relacionar conosco como se tivéssemos entendido o que foi dito.

Aí acontecem os desentendimentos, que, metaforicamente, foram chamados, por mim, de “curtos circuitos”

Qualquer comunicação implica um compromisso e define a relação. Precisamos ficar atentos se não estamos retroalimentando o comportamento do outro, é como um círculo.

Porém as pessoas, geralmente, não se dão conta disso e acham que estão reagindo a provocação do outro e esquecem que seu comportamento também o provoca.

Por exemplo, o tom de voz que usamos para pronunciar as palavras fará toda a diferença, posso dizer a mesma frase e a depender do tom com que falo poderá ter diferentes interpretações.

Poderíamos aqui discorrer sobre vários aspectos teóricos da comunicação, mas penso que o que quero passar neste texto é a parte prática de como evitar ou pelo menos minimizar estes “ruídos” da comunicação.

Um comportamento que pode nos ajudar é quando um estiver falando, o outro prestar atenção e não ficar pensando na resposta que vai dar. É preciso ouvir, ponderar e depois responder. Assim como foi feito no exercício/brincadeira.

Outro comportamento que também causa problemas é nos relacionarmos na base do “achismo”. Acho que ele pensa assim, acho que ela prefere isto, etc., ao invés de esclarecermos a duvida.

Creio que se observarmos estes comportamentos e ficarmos mais atentos a maneira como nos comunicamos, muitos desentendimentos poderão ser evitados.

 

Bibliografia:

Bert Hellinger – As Ordens do Amor

J.L.Moreno – O Psicodrama

Maria Celia Correia Gomes
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