Desenvolvimento pessoal

Descubra a criança que existe em você

A criança viva que há em nós

Segundo a teoria de Carl Gustav Jung (2011), podemos encontrar a criança que somos em tudo aquilo que se refere, basicamente, às nossas origens e esperanças. A criança que somos é tão a nossa essência que, quando percebida e expressada de maneira consciente, é fonte de coragem, entusiasmo e, principalmente, cura.

Ela é divinamente inspirada e inspiradora, irradia luz para quem a encontra e ilumina nossa sombra. Sombra, segundo Jung (2011), é tudo aquilo que não percebemos, não aceitamos e que gostaríamos de não ver. É a parte obscura e inconsciente do nosso ser. 

Por trás de todo adulto bravo, carrancudo ou desconfiado, existe sempre uma criança ferida

Para Jung (2008), a criança interior divina se distingue da criança interior ferida. Esta última é formada a partir da memória de vivências negativas, ou seja, a criança negligenciada, vítima de abuso, não amada, exageradamente disciplinada, excessivamente criticada, cobrada e humilhada.

É a criança que todos nós desejamos curar para recuperarmos a energia que ainda resiste em forma de defesa, para nos protegermos das primeiras experiências sofridas. Podemos desenvolver inúmeras defesas como forma inconsciente de fugir do que um dia sentimos, defesas que buscam o externo com o intuito de não sentir o interno. 

A criança divina, para Jung (2008), é o símbolo da transformação, é portadora da cura, daquilo que torna inteiro. Curar essa criança ferida por meio da criança divina significa curar padrões negativos que poderiam se perpetuar, inclusive, de geração para geração. 

De maneira geral, levamos dentro de nós uma imagem da infância idealizada, aquela cujas demonstrações de amor, acolhimentos e convívios foram perfeitos. Essa imagem, muitas vezes, é projetada nas pessoas com quem convivemos e idealizada nos relacionamentos, assim, aumentando nossa solidão e nossa dor. Por trás das imagens da infância real e da infância ideal está a imagem da criança interior divina, que brota da camada arquetípica mais profunda de nosso ser. 

A cura da criança interior ferida

Segundo Jung (2008), a cura consiste em amparar nossa criança interior ferida, quebrar os paradigmas de uma infância ideal e compreender nossos sentimentos. Assim, desenvolvemos a função transcendente, que nos conduz ao encontro e à manifestação da nossa essência.

Jung (2008) denominou esse processo de individuação, que parte do pressuposto de que o homem é capaz de atingir sua totalidade (ao se curar por completo), por meio de sua criança divina. A cura se dá justamente quando encontramos essa criança que muitas pessoas nunca nem conheceram, principalmente devido à resistência e às máscaras que se desenvolvem no decorrer da vida desde muito cedo e que as distanciam de seu verdadeiro eu. 

O primeiro passo no processo de individuação é explorar nossas máscaras, o que Jung (2011) chama de persona, pois, embora tenham funções protetoras importantes, elas nos escondem de nós mesmos

Sabemos o quanto, ao longo de nossa vida, nos tornamos práticos, racionais, controladores e nos esquecemos de ser crianças. Essas são as máscaras que fazemos questão de desenvolver, para nos proteger da dor. 

Permita-se fechar os olhos por um instante e deixe surgir em seu coração o ser mais divino que existe em você. O aspecto mais perfeito. Permita-se entrar nesse sentimento por alguns minutos. Aí está você: a sua criança divina. 

O fato é que nossa infância cronológica passou, mas nossa criança divina ainda está, sempre esteve e vai sempre bater no peito, junto com o nosso coração, a criança que quer ser feliz quer se expressar de maneira plena e espontânea, quer brincar.

Um exemplo prático

Quando as máscaras estão fortes demais, é normal nem mesmo entendermos o que quer dizer, de fato, um adulto brincar na vida. Então, vamos transpor a teoria para a vida prática: Um adulto brincar na vida significa desfrutar verdadeiramente o sabor da vida, assim como quando provamos uma fruta colhida direto do pé, quando pisamos descalços na terra, tomamos um belo banho de chuva, nos sujamos na lama, gargalhamos, quando temos uma relação próxima e gostosa com as pessoas e com a natureza, enfim: quando temos gosto pela vida, acima de tudo, com liberdade!

Porque a criança divina está intimamente ligada à liberdade. Sem liberdade, a vida é tolhida e imobilizada. E quanto a isso, realmente, temos muito que aprender com nossas crianças, pois liberdade se relaciona diretamente a uma felicidade calcada na espontaneidade, no amor e na criatividade. Todo mundo é criativo quando é livre. Criatividade é a liberdade de expressão do ser, do sentir e do pensar.

Portanto, nunca utilize como parâmetro os últimos tempos para dizer que não é criativo. Antes disso, dê-se o direito de se encontrar com sua criança divina, de ser livre. 

Uma proposta de vida mais leve

Deixo bem claro aos adultos leitores que nada disso tem a ver com aqueles dias de férias que você tira para descansar, já que o ano inteiro você se desgasta em uma rotina chata e tediosa.

Rotina, aliás, não é escravidão. Rotina é algo presente na natureza, no universo de uma maneira geral. Seu coração bate por conta de uma rotina. A rotina favorece a vida, o crescimento e o aprendizado. Sua rotina pode, portanto, ser altamente interessante e possibilitadora, desde que favoreça sua criatividade, sua individualidade, sua liberdade e sua alegria de viver. 

Minha proposta aqui, então, é que, a partir desse capítulo, você imprima em sua rotina a sua criança divina. Já imaginou um cotidiano mais leve, mais espontâneo, repleto de sonhos e sorrisos sinceros? 

Se um dia o mundo todo tomasse essa decisão, teríamos um planeta com adultos tão crianças, que seria impossível não olharmos uns para os outros, não sorrirmos sinceramente, não dizermos palavras simpáticas e não estabelecermos vínculos positivos e honestos. Esse é o caminho para a construção de um mundo melhor, ainda mais se começarmos pelo nosso próprio mundo interior. Afinal, é sempre do interior para o exterior que mudamos o mundo.

E, assim, vá se conectando diariamente com a sua criança. Sufocar sua criança interior e não permitir que ela se expresse torna a vida cansativa, tediosa e ilegítima. Portanto, aproveite essa oportunidade e dê voz à sua criança divina, liberte-a e faça valer a pena todos os minutos de sua vida, pois ninguém pode fazer isso por você. 

Viva como se fosse uma das primeiras vezes que tivesse experimentado cada momento, pois a sabedoria de ser uma criança é justamente se permitir realizar diversas atividades com aquele sabor de como se fosse a primeira vez. Permita-se encontrar a sua criança divina e que ela se expresse a cada dia mais plenamente, ela é a essência do seu existir.

Por isso, permita-se ser, nada mais e nada menos, do que você!

Referências

  1. JUNG, C. G. Fundamentos da Psicologia Analítica 14. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. JUNG, C. G. Aion – Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.
  2. Fragmento do livro: “A Vida pelos Olhos de uma Criança – De Teorias da Psicologia a Questões da Vida Real para uma Verdadeira Transformação”, Alessandra Cieri.
Alessandra Cieri
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