Saúde

Qual é a diferença entre o transtorno borderline, o transtorno bipolar e as psicoses em geral?

Por que o diagnóstico?

Para quem se interessa por psicologia, mais especificamente pelo campo da saúde mental e das psicopatologias, é de grande interesse saber distinguir esses 3 diagnósticos possíveis, para que, caso seja um profissional, possa orientar o tratamento de um paciente que venha a apresentar algum destes quadros e, caso seja o paciente, para que ele consiga identificar melhor o transtorno que lhe acomete, o que é de grande valia terapêutica.

O transtorno borderline

Pois bem, comecemos pelo transtorno borderline. Como o próprio nome sugere, trata-se de um transtorno que se situa na borda, mas na borda entre o quê? Entre a neurose e a psicose. É um transtorno de personalidade, isto é, envolve todo o conjunto de comportamentos de um sujeito, todo o modo de pensar e o modo de se relacionar com os outros e com ele mesmo. 

O sujeito acometido por este transtorno pode apresentar diversos sintomas típicos, tais como:

  • Automutilações frequentes,
  • Pensamentos suicidas,
  • Tentativas de suicídio (atinge até 10% dos sujeitos diagnosticados (Finkler, Schäfer e Wesner, 2017),
  • Sensação de exclusão e abandono,
  • Crises de raiva e choro que podem levar a agressões ou autoagressões,
  • Padrões de comportamento autodestrutivo,
  • Forte sentimento de culpa,
  • Tendência a se ver em relacionamentos abusivos,
  • Imagem pessoal altamente desvalorizada,
  • Etc. 

As pessoas com transtorno borderline geralmente possuem grande vulnerabilidade psíquica e emocional, podem ter crises psíquicas muito sérias, chegando ao suicídio.

Diz-se que estão na borda entre neurose e psicose porque, nestas crises, podem chegar a ter momentos de confusão, alucinações pontuais e crises de identidade. Por se tratar de um transtorno de personalidade, o prognóstico psiquiátrico é bastante reservado, a medicação dificilmente tem ótimos resultados (Finkler, Schäfer e Wesner, 2017).

O tratamento mais adequado é a combinação da medicação psiquiátrica e da psicoterapia. Isto porque este transtorno se forma, geralmente, a partir de diversos traumas, violências e abusos sofridos, principalmente durante a infância, e uma relação altamente ambivalente com as figuras que lhe são importantes são questões que devem ser trabalhadas a partir de um trabalho terapêutico.

Desta forma, trabalhar a história de vida desse paciente, entender as circunstâncias de seus traumas, as marcas das violências (sejam físicas ou psicológicas) que ainda carrega e os padrões autodestrutivos que produz é a melhor forma de ajudar um paciente acometido por tal transtorno.

O transtorno bipolar

Já o transtorno bipolar é um transtorno de humor. Há diversos tipos catalogados dentro dos manuais da psiquiatria, mas o essencial deste transtorno é que ele não afeta integralmente a personalidade de uma pessoa, como no transtorno borderline.

Isto é, ao sair de uma crise, a pessoa com tal transtorno pode ter consciência de que estava em uma crise, que não sabia o que fazia naquele momento, que não sabe por que fez aquilo, etc. A personalidade dela está de certa forma protegida. 

O transtorno bipolar não é uma simples oscilação de humor, como o senso comum pode imaginar. Trata-se de duas faces principais do humor:

  • A depressão (que pode chegar à catatonia, isto é, a pessoa sequer consegue sair de sua cama e permanece imóvel sem conseguir até mesmo falar),
  • Melancolia,
  • Pensamento e fala desacelerada, uma sensação de perda absoluta que nada pode compensar,
  • Ideação e tentativa de suicídio.

Neste momento pode haver formação de alucinações e delírios: vozes que o insultam, que o ofendem, que desvalorizam sua imagem, ou delírios de ruína, delírios hipocondríacos, etc. 

Por outro lado, há a fase maníaca, em que a pessoa se vê com o pensamento acelerado, eufórica, pode estar bem-humorada ou extremamente irritável, pode ter crises de raiva e de forte agressividade, há geralmente a presença de compulsões, seja com relação à bebida, alimentação, com gastar dinheiro ou consumir produtos, com sexo, com drogas, com o trabalho.

Pode haver, ou não, a presenta de alucinações e delírios. 

Na mania, geralmente há delírios e alucinações de conteúdos grandiosos (sou o escolhido por Deus, ele falou comigo; sou rico e posso comprar tudo o que eu quiser). Pode haver delírios erotomaníacos (o outro me ama, eu vejo pelo olhar dele), ou delírios persecutórios (o outro me odeia, eu sei porque escuto os pensamentos dele). 

Portanto, o transtorno bipolar pode estar dentro do quadro das psicoses ou não, dependendo da presença ou não das alucinações e delírios.

Este transtorno tem um prognóstico mais favorável, geralmente as medicações são extremamente eficazes para a estabilização do humor, tais como o Lítio (Silva, Dias e Rosalino, 2017) e o Ácido Valpróico, muito utilizados nas clínicas psiquiátricas. Uma pessoa com tal transtorno, se em tratamento, pode levar uma vida normal, desde que seguindo as orientações médicas e, de preferência, fazendo um bom acompanhamento psicológico.

Psicoses: paranoia e esquizofrenia

Pois bem, e o que são as psicoses em geral? Podemos incluir aí o transtorno bipolar, quando em presença de alucinações ou delírios. E podemos incluir aí as paranoias e as esquizofrenias. Falemos destas duas últimas. 

O essencial da paranoia e da esquizofrenia é que, ao contrário do transtorno bipolar, a partir do momento em que há o desenvolvimento de um surto ou crise psicótica, não há mais um retorno à personalidade tal como ela era. Trata-se de um surto que não protege a personalidade, isto é, tudo muda após a crise.

É comum ouvir os relatos em paranoicos de que houve, em algum momento de sua vida, um momento de ruptura com a realidade, um momento em que algo foi visto e não pôde mais ser desvisto, não voltou a ser mais como era. 

O desencadeamento de um surto psicótico pode ser causado por diversos fatores:

  • Perda de algum ente querido ou de algo muito importante para o sujeito,
  • Trauma psicológico insuportável,
  • Uso de alguma substância psicoativa,
  • Etc.

A lista pode ser grande e cada caso é singular neste sentido. 

Uma das diferenças mais notáveis entre a paranoia e a esquizofrenia é que, na paranoia, o que ameaça o sujeito é algo de fora, está bem localizado e enquadrado no campo da realidade, seja o olhar do vizinho, seja o carro preto que passa na rua, seja as entrelinhas do discurso do locutor no rádio, seja a câmera do condomínio, etc.

Justamente por esta ameaça estar enquadrada e circunscrita, o paranoico consegue diferenciar muito bem um Eu de um Não-Eu, e dificilmente apresenta alucinações auditivas ou outros fenômenos que invadem seu corpo. 

O mesmo não ocorre na esquizofrenia, neste caso estamos diante de um corpo “despedaçado”, um corpo que não faz uma unidade, quer dizer: há uma relação de desapropriação do próprio corpo. As consequências são várias: pode haver diversos comportamentos bizarros, alucinações auditivas, visuais, olfativas, táteis, etc. 

O esquizofrênico é um sujeito inundado por algo que lhe acomete, que invade seu corpo e o desapropria de si próprio, e por isso está a todo custo tentando construir algo que localize esta figura em algum lugar, seja em alguma parte do corpo, seja em algum objeto localizado fora de si.

Por isso, alguns autores dizem que a paranoia é uma tentativa de cura da esquizofrenia (Quinet, 2009). Nestes dois casos, o prognóstico também é bastante reservado, as medicações psiquiátricas podem ser bastante eficazes, mas são limitadas, assim como o acompanhamento psicológico, que precisa ser bastante cuidadoso. 

Espero que tenham ficado claro algumas diferenças essenciais entre o transtorno borderline, o transtorno bipolar, e as paranoias e esquizofrenias.

Lembremos que este texto não abrange, nem de longe, as minúcias de cada caso. Trata-se apenas de uma leitura que permite diferenciar alguns diagnósticos a partir de certas características.

Mantenha sua agenda sempre cheia!

Referências Bibliográficas

  1. Cruz, L. O. e Dolabela, M. F. (2021). Tratamento medicamentoso de portadores de esquizofrenia: adesão, interações medicamentosas e reações adversas. Research, Society and Development, v. 10, n. 3. Acessado em 14/04/2021:  https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/13087/11679
  2. Finkler, D. C.; Schäfer, J. L.; Wesner, A. C. (2017). Transtorno de personalidade borderline: Estudos brasileiros e considerações sobre a DBT. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, volume XIX, n. 3, 274-292. Acessado em 14/04/2021: http://rbtcc.webhostusp.sti.usp.br/index.php/RBTCC/article/view/1068/537
  3. Quinet, A. (2009). Psicose e laço social: esquizofrenia, paranoia e melancolia. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar
  4. Silva, L. O. L. e; Dias, C. A.; Rosalino, F. U. (2017) Processos terapêuticos no tratamento do transtorno afetivo bipolar: revisão integrativa. Rev. Psicol. Saúde,  Campo Grande, v. 9, n. 3, p. 63-76. Acessado em 14/04/2021: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2177-093X2017000300005&lng=pt&nrm=iso
Oliver Schmidt Silva
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