Desenvolvimento pessoal

Dificuldades de elaboração do luto, perspectivas individuais e coletivas

Por que não falamos sobre a morte?

A morte é um evento comum a todos, sem distinção. Para morrer, basta estar vivo, diz o ditado popular. Apesar disso, a morte segue sendo empurrada para fora de nossas vidas, ou ao menos é o que tentamos fazer quando ignoramos a nossa própria morte, e na verdade o fim de tudo que tem início, como um fato.

Mesmo sendo o destino de tudo aquilo que vive, nem sempre lembramos que a vida pode acabar a qualquer instante. Ao mesmo tempo, quantas coisas boas nos são possíveis de experimentar, graças a ilusão da continuidade de nosso eu no transcorrer do tempo. 

A nível cultural a sociedade ocidental construiu, ao longo dos séculos, um culto à juventude “eterna”, números cada vez mais expressivos de cirurgias plásticas e crise global da saúde mental dos adolescentes com queixas relacionadas à autoimagem, revolvidos nas marés do surgimento das comunicações de massa – mais recentemente com as redes sociais – sustentam esse ponto de vista. 

Envelhecer, morrer, sofrer, ser acometido por doenças, tudo isso é impensável. É doloroso demais para ser encarado de frente enquanto possibilidade. Não queremos pensar e muito menos vivenciar essas coisas.

Para algumas pessoas, dizer que alguém é velho é um grande insulto. Entre os povos não ocidentais, por exemplo os africanos, ser velho é sinal de benção, motivo de comemoração, sinal de boa vida. Como são plurais os diferentes pontos de vista, tudo graças as ideias que cultivamos. 

Com isso, o eu, a nossa noção de identidade, responsável pelo ordenamento de nossas vidas, pretende criar uma redoma inalvejável. Caricaturada nessa imagem de vida perfeita que as redes sociais têm se tornado, por exemplo. Até essas últimas, entretanto, seguem a lei do equilíbrio da energia psiquica e, não raro, vemos erupções dos conteúdos rejeitados, em grandes escândalos.

É como se perdêssemos a noção, já há bastante tempo adquirida pela espécie humana, de que nada pode ser perfeito. E tudo tem dois ou mais pontos de vista.

A psicologia profunda compreende que tudo o que existe, mas não passa pelo eu, isto é, não é reconhecido, encarado de frente, continua a existir, porém de forma inconsciente. E não que o inconsciente seja negativo ou puramente um “local” pra onde irão todas as nossas repressões e inadequações. Não se trata disso. 

É o fato de que vamos morrer que nos faz pensar como vivemos o hoje

O problema é realmente esse: não ser consciente de algo não quer dizer que esse algo não exista. A vida humana é efêmera, passageira, é frágil no final das contas. Viver como se não fôssemos morrer desloca a nossa orientação, afugenta o sentido das nossas vidas. É o fato de morrermos que nos faz realmente pensar como viver o hoje, faz-nos pensar nas marcas que queremos deixar para trás.

O ritual, seja ele qual for, é, em verdade, trabalho psicológico. Transformação da energia psíquica. Não é difícil perceber que uma sociedade pobre ritualisticamente deixa os cidadãos deslocados, perdidos. Todos somos atingidos pela precariedade dos ritos do mundo ocidental, desde os nossos jovens e adolescentes que mal compreendem suas respectivas transições geracionais — infância para fase adulta –, até aqueles que perdem entes queridos e ficam desasistidos quanto a transformação psíquica da saudade pela falta e ou precariedade dos ritos fúnebres.

A crise global ocasionada pela pandemia do Covid-19 agravou um grande problema social já existente no mundo ocidental: a dificuldade de elaboração do luto. E a forma com a qual o governo tem lidado com isso mostra um completo descaso com o cuidado e preservação das vidas. 

Com a impossibilidade de velórios, visando diminuir os riscos de contaminação, e enterros sendo realizados por profissionais equipados com roupas anticontaminação abalam ainda mais a nossa pobre, no sentido de escassez de experiência, imaginação da morte e do morrer.

O luto

Elisabeth Kübler-Ross, psiquiatra suíça, define cinco estágios do luto:

  • Negação ou isolamento;
  • Raiva;
  • Barganha;
  • Depressão;
  • Aceitação.

Apesar dessa separação didática, é importante sabermos que tais fases podem não seguir esse caminho lógico. Quando se trata de seres humanos, em especial da psique, não existem regras ou pré-definições rígidas. 

É imprescindível a compreenção de que os sentimentos têm de ser vividos e esgotados. As emoções, também, devem ser plenamente vivenciadas e externalizadas, expressas. A própria palavra “emoção”, em sua raiz etimológica significa movimento, agitação, comoção, ou seja, devemos, sim, ser levados a ações quando tocados por emoções, faz parte de nossa constituição enquanto seres políticos a expressão do que se passa em nossas subjetividades. É isto o que nos une, afinal. 

A elaboração do luto é o processo de transformar a saudade objetiva, da pessoa em carne e osso, para a saudade subjetiva, a eterna imagem psíquica do ente querido que ficará gravada em nossas memórias e que, por vezes, pode nos visitar em sonhos. 

É essencial a manutenção do instinto religioso no processo de luto, Jung o descreve como um instinto primário dos seres humanos, possuindo funções específicas de nos fazer crer em algo maior que nós, mas também de perceber o caráter numinoso, de luz, que podemos encontrar em certos conteúdos psíquicos. Instinto religioso para Jung, no entanto, tem a ver com escrúpulo, cuidado com a própria subjetividade e a subjetividade do mundo, zelo com o que emerge da profundidade das coisas, de modo que até mesmo um ateu possui este instinto.

A possibilidade da morte relembra sempre e de novo ao ser humano que a natureza está acima da humanidade e que esta última é apenas uma parte, e não a mais importante, de um grande ecossistema que dá, mantém e retira a vida. Esse respiro descontínuo da energia enquanto una com a matéria é o que chamamos de vida.

E a energia não se perde, transforma-se, muda de estado, passa de níveis mais grosseiros para níveis mais sutis. 

A morte é sempre um estágio de transformação, seja ela literal, psíquica ou espiritual. E a matéria é essa porção do mundo que nos é dada como instrumento de nossas vidas e que cabe a nós devolver ao final da jornada.

Esse sabor da caminhada pelo mundo e suas experiências é o que a psique quer de nós, a jornada, dirá a psicologia analítica, a experiência da individuação, tornar-se quem és, o mais completo possível, seja lá o que isso represente.

Uma espécie de reencontro com uma imagem verdadeira que nós somos, mas que se faz por meio da vida, enquanto se vive, e que abraçamos ao morrer.

Não hesite em procurar ajuda, caso sinta dificuldade de elaborar psiquicamente o luto. Você não é fraco por isso.

Temos um ideal de força no senso comum que mais se aproxima da rigidez, representada com imagens de muros e barras de ferro. Forte, realmente, é a água que se adapta seja onde estiver e que mesmo sem possuir uma forma específica, vence os obstáculos contornando-os, como um artista que da forma a suas angústias.

A expressão dos sofrimentos promove um enquadre que facilita inclusive o nosso reconhecimento a respeito deles. Não é porque tal coisa é desconhecida que deixa de existir. Busquemos então dar um melhor contorno às nossas emoções, para que a Alma possa colorir nossas vidas conforme nossas experiências.

Lucas Silva Felz – Psicólogo CRP 7874/16ª região

Lucas Silva Felz
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