Relacionamento

É tempo de se encontrar

Como estamos construindo nossas relações afetivas?

Pensando sobre como se dão as nossas relações afetivas e percebendo o cenário que estamos vivendo, parece-nos essencial olhar para isto. Afinal, o modo como nos relacionamos uns com os outros estará tomado de resquícios do que acontece à nossa volta. Consideremos por um momento o cenário atual da nossa história.

Estamos situados em 2021 e há pouco mais de um ano estamos todos sendo impactados pela pandemia do COVID-19. Uma experiência traumática coletiva que vem nos chamar para aquilo que há de mais essencial: nós mesmos enquanto seres conectados. Percebemos que estes novos tempos nada mais fizeram do que intensificar aquilo que já vivenciávamos: ansiedades, medos, incertezas. Mas, também nos despertou para a importância e força da nossa espiritualidade, fé e esperança.

A Pandemia nos trouxe e continua trazendo muitos ensinamentos. Cabe a cada um de nós significar esses conhecimentos a partir da nossa história pessoal e dos nossos propósitos de vida. Sim, cada pessoa está vivendo este momento a seu modo singular. Porém, não podemos negar as nossas experiências coletivas.

Tal como os processos de crescimento, a experiência da pandemia nem sempre tem sido fácil. Temos enfrentado tempos árduos e desejando a todo momento que tudo termine o quanto antes. Isso tudo vai passar… sim. A grande questão é: Quem seremos depois? Seremos melhores? Seremos mais uns pelos outros? Reconheceremos 7 bilhões de outros enquanto 7 bilhões de nós?

Confirmar a nós mesmos como pessoas, num mesmo nível de existência, é fundamental para que possamos  conceber nossas relações afetivas de modo satisfatório.

É tempo de reflexão

É tempo de reflexão. É tempo de pensar e repensar nossos estilos de vida, nosso contato uns com os outros, além de resgatar nossa condição de humanos. Em meio ao caos, uma oportunidade incrível está diante de nós. Algo que parecia impossível está acontecendo: o respeito às diferenças, a solidariedade, a união dos povos, em questões econômicas, religiosas e em muitos outros sentidos! 

Mesmo com tantas transformações acontecendo dentro de nós e entre nós, ainda temos bastante caminho a percorrer se quisermos alcançar uma experiência coletiva e particular de vivência de encontros mais saudáveis e verdadeiros. Precisamos buscar na nossa história pessoal os impedimentos que se apresentam a cada um de  nós quando se trata de se relacionar. Além disso, é necessário que reconheçamos nosso percurso enquanto sociedade, enquanto humanidade.

Precisamos nos perguntar: o que nos impede de se encontrar de forma plena? O que acontece que testemunhamos e/ou construímos tantos laços frágeis? Como poderemos ultrapassar a superficialidade dos encontros e estabelecer vínculos fortes e enriquecedores? Muitos são os caminhos que nos levam aos  desencontros. E tantos outros são os que podem nos conduzir aos encontros. Vejamos, então, algumas possibilidades.

A vida tem sido por vezes corrida… e corremos com ela. Não vemos ninguém e ninguém nos vê. Às vezes nos sentimos mal sem nem sabermos por que, além de não termos termos tempo também para descobrir. No entanto, o incômodo permanece… e fica cutucando.

Até que não aguentamos mais e resolvemos agir na tentativa de fazer parar de doer. Mas, o que fazer? Não sabemos… Quando nada mais parece fazer sentido, quando os momentos de leve reflexão tornam-se  insuportáveis, corremos e corremos. Preenchemos nosso tempo com outras coisas. Falamos da vida dos outros para evitar falar de nós.

Consumimos… pensamos que, assim, conseguiremos preencher um vazio e não enxergar as dores que nos saltam aos olhos… E quem poderá nos julgar? Dizer que estamos errados? Que teríamos que dar conta de um  contato conosco, quando tal aproximação é tão dolorosamente por vezes insuportável?

Dizem que ninguém se preocupa com ninguém. Mas, como podemos suportar enxergar o sofrimento do outro, quando ele é o espelho do nosso próprio vazio? Sentimos a alegria distante… e desesperadamente buscamos encurtar ou simplesmente ignorar essa distância.

Tentamos caminhar a passos largos. Porém, enquanto pensamos que caminhamos, muitas vezes estamos, na melhor das hipóteses, andando em círculos. Às vezes é preciso andar um pouco menos apressadamente… e trilhar mesmo pelos caminhos mais difíceis.

O que estamos fazendo conosco, com os outros e com o mundo?

E o que estamos fazendo conosco e com os outros? O que estamos fazendo com o mundo? Estamos agitados e crianças “nascem” com hiperatividade. Buscamos a estética e jovens desenvolvem distúrbios alimentares. Idealizamos a procura por experiências cada vez mais novas e extasiantes e o uso e abuso de álcool e outras  drogas é cada vez mais frequente entre nós.

Pais matam filhos e vice-versa, depressão, depressão infantil, ansiedades. O mundo adoece e adoecemos com ele. E tudo isso está na precariedade com que temos estabelecido nossas relações uns com os outros. Está na escuta insuficiente de nosso próprio ser e do ser do outro. Está na raridade de encontros verdadeiros. E isso nos dói. Não sabemos bem nem como nem por quê, mas dói. No entanto, ao fecharmos os olhos para tudo isso, por um instante, sentimos o controle de volta em nossas mãos. Então, fica tudo “bem”…

Mas, será que está mesmo tudo bem? Se estamos assim tão insatisfeitos com as nossas vidas? Se estamos tão distantes uns dos outros e de nós mesmos? Ora, nós somos seres relacionais! Nos desenvolvemos e construímos nossas vidas a partir do contato que fazemos com outras pessoas. Então, o que podemos querer?

Que  nossas relações sejam mais satisfatórias para nós. Relações que nos ofereçam segurança e confiança para nos desvelarmos diante do outro, com a certeza de que seremos respeitosamente e genuinamente acolhidos e aceitos tal como somos. Relações que nos possibilitem compartilhar da existência do outro e doar um pouco de nós a essa relação que se forma entre nós. 

Queremos um encontro que nos permita construir nossa autenticidade de ser. Um contato que nos conduza a momentos de intimidade e reciprocidade sinceras, a partir do qual conheceremos o outro e a nós mesmos. Para tanto, precisamos querer sugar menos e compartilhar mais. Burocratizar menos e simplificar mais. Simplificar não num sentido superficial, mas num sentido de purificar o encontro.

Precisamos sentir o contato, sem teorizá-lo, classificá-lo ou justificá-lo, mas simplesmente senti-lo e nos  entregar a ele.

Que deixemos o outro tocar nossa alma despida. Assim, poderemos desabrochar… no sentido de nascer, crescer, de se abrir a um mundo novo. Deixarmos nossas almas surgirem desveladas e, com o seu brilho, tocar a alma do outro, em reciprocidade. Só então seremos em plenitude. 

Encontrar como um raio de sol, toca uma flor dizendo-lhe “bom dia” e ela, a seu  modo, desabrocha, retribuindo-nos o afeto… sem temer o encontro.

É tempo de se encontrar.

Bons encontros para você! 

Marcelly Regina da Silva 

Referências:

  1. BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
  2. BUENO, Marcos. O medo da intimidade, o medo do encontro. Disponível em: http://www.igt.psc.br/Artigos/Medo_da_Intimidade.htm. Acesso em: 1 mai 2021.
  3. COELHO, Rômulo Frota da Justa; SEVERIANO, Maria de Fátima Vieira. Histórias dos usos, desusos e usura dos corpos no capitalismo. Rev. Dep. Psicol., UFF , Niterói, v. 19, n. 1, 2007 . Disponível em: https://www.scielo.br/j/rdpsi/a/fZsYgLkfGvm7xj7SYbSRMQx/?lang=pt. Acesso em: 15 mai  2021.
  4. COUTINHO, Luciana Gargeiro; GARCIA, Cláudia Amorim. Os novos rumos do individualismo e o desamparo do sujeito contemporâneo. Rev. Psyche, São Paulo, v. 18, n. 13, 2004. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415- 11382004000100011. Acesso em: 10 fev 2021.
  5. LUFT, Lya. Pensar é transgredir. 11. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005. QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Entretantos. Belo Horizonte: CRP/04, 2004.
Marcelly Regina da Silva
Últimos posts por Marcelly Regina da Silva (exibir todos)
Etiquetas

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar