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Os contínuos enlaces dos laços que perpassam o cuidado da equipe de uma unidade de terapia intensiva 

O vislumbre do ambiente da unidade de terapia intensiva

No Brasil, ter o hospital como um cenário de atuação onde tenha-se a presença de psicólogos relacionados à assistência e suas práticas em saúde é ainda considerado recente, principalmente quando compararmos com os 53 anos de regulamentação da profissão no nosso país.

Historicamente falando foi na década de 1970, que emergiu a necessidade e relevância de que certas atividades fossem restritas para os profissionais de psicologia, sendo essas atividades relacionadas a um público-alvo, o ambiente de trabalho e contexto social diferenciados, o que de forma gradual levou a uma adequação das práticas clínicas que existiam e dos instrumentais teóricos e técnicos.

Tal qual ocorreu com outros âmbitos de profissionais, com esta perspectiva de transformação houve reflexo direto na atuação dos psicólogos que se encontravam no ambiente hospitalar, visto que este ambiente exige competências e habilidades específicas para o desenvolvimento de atividades que possam efetivamente contribuir para as práticas em saúde de forma geral.

Em um ambiente como o hospital, torna-se bastante característico encontrar uma constante batalha do ser humano de fugir do inevitável que é o adoecimento, uma vez que o hospital já carrega consigo as marcas da própria imprecisão negativa construída ao longo da história.

O hospital carrega consigo um grande potencial de salvar vidas, mas em contrapartida permite que seja enxergado o momento de finitude de vários indivíduos. É importante destacar que o local da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) se encaixa nessa dualidade de expectativas e realidade.

É no local da UTI que ocorre uma monitorização contínua, especializada e tecnológica, sendo destinada ao tratamento de pacientes graves e com quadro clínico recuperável e grandes chances de sobrevida. Além de contar com um espaço físico peculiar e crítico, o qual apresenta características como iluminação artificial, procedimentos constantes e invasivos, perda de privacidade, privação do sono, restrição de visita e o risco de morte iminente.

A importância da atuação e do cuidado com a equipe que se encontra no ambiente da UTI

A atuação do psicólogo no hospital busca estar ligada com questões como a qualidade de vida dos pacientes e seus familiares que se encontram neste serviço, bem como dos profissionais da saúde, portanto, não deve ser restringindo ao atendimento clínico que é a prática mais associada à psicologia.

É perceptível em um local como a UTI a necessidade de articulação de diálogos e saberes para o fortalecimento da equipe por meios de fatores positivos para os mesmos que compõe a UTI, e deste modo acabe proporcionando melhor adaptação e colaboração para lidarem com as limitações e o enfrentamento dos percalços que laçam esse ambiente. 

A importância do ter um psicólogo que trabalhe em uma UTI dar-se a partir de por exemplo a possibilidade de realizar orientações não só aos familiares dos pacientes desse ambiente, mas também a equipe reflete nesse processo de lidar com o ambiente que muitas vezes chega a ser estressante para equipe além de desconfortável por lidar com temáticas não tão trabalhadas no nosso cotidiano.

É importante ainda dizer que as intervenções psicológicas que podem acontecer nesse contexto são utilizadas para dar apoio, orientação ou oportunidade de ocorrência de uma possível psicoterapia breve. Além das possibilidades citadas acima, outras oportunidades podem exigir a demanda de cuidado dependendo do caso e da especialidade da UTI.

As intervenções psicológicas podem ser realizadas como já foi falado acima tanto com o paciente, família e equipe de saúde, porém o foco sempre é que isso ocorra em benefício do paciente.

Como concluir os enlaces do cuidado?

É visível a importância do profissional da psicologia atuante na UTI, como peça fundamental para realizar o enlace de cuidado visto este ambiente, uma vez que esse profissional se encontra diante de situações de concretude da experiência vivida por cada membro daquela equipe, e sua participação nas vivências irão reconfigurar a percepção, os significados e a história pessoal deles. 

Contudo, atuar em uma clínica, onde as perdas são recorrentes e tortuosas revela mais fortemente o quanto esses períodos cercam-se pela possibilidade e efetivação da morte dos pacientes e de que modo isso fragiliza o profissional que compõe a equipe. 

Passar por seu tempo cuidando de pacientes críticos pode trazer para os profissionais tanto gratificações psicológicas como também a necessidade de enfrentar inúmeras frustrações. É possível observar muitas vezes nesses profissionais que atuam em UTI o uso excessivo de mecanismos de defesa. Também se observa, o sofrimento ao ter que se ver frente a um desgaste emocional muito intenso, a necessidade de responsabilidade, o medo de cometer algum erro, o cansaço que é estar em um local onde o tempo não passa além das difíceis relações estabelecidas entre as equipes multiprofissionais.

É valido dizer que no que se denomina como atuação em Psicologia Hospitalar, sendo mais especificamente ainda a Psicologia Intensivista, é necessário que o psicólogo esteja em constante atualização da sua formação, buscando sempre munir-se de todo conhecimento atual possível para sentir-se cada vez mais integrado nas práticas mais atuais em UTIs. 

Ressalta-se ainda a importância do cuidado pessoal que o próprio psicólogo deve ter neste campo assim como nos demais, considerando a carga emocional intensa sempre presente, a grande demanda de atendimentos e as particularidades deste ambiente, no sentido de que o trabalho em uma UTI é carregado, com diversas situações de perdas e demanda a necessidade de atuar em situações de urgência que em muitos casos são traumáticos.

Há ainda a necessidade de adaptação das técnicas já utilizadas em contexto de atendimento clínico para o contexto de UTI destes profissionais, visto as particularidades que a UTI exige. A adaptação e busca de subsídio teórico para a realização tanto de atendimentos a pacientes e familiares como no que diz respeito à avaliação psicológica e intervenções em grupo nestes contextos.

Referências Bibliográficas:

  1. ISMAEL, S.M.C; GUIDUGLI, S.M.C. Do nascimento à morte: novos caminhos na prática da psicologia hospitalar. Rio de Janeiro: Editora Atheneu,2015.
  2. SCHNEIDER, Amanda Mom berger; MOREIRA, Mariana Calesso. Psicólogo Intensivista: Reflexões sobre a Inserção Profissional no Âmbito Hospitalar, Formação e Prática Profissional. Trends Psychol., Ribeirão Preto, v. 25, n. 3, p. 1225-1239, Sept.  2017.   Available from <http://old.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2358-18832017000301225&lng=en&nrm=iso>. access on 13 July 2021.  https://doi.org/10.9788/tp2017.3-15pt.
  3. SILVA, A. L. M., & Andreolli, P. B. A. (2005). A prática da psicologia e sua interface com as doenças. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo. [ Links]
  4. Lucchesi, F., Macedo, P. C. M., & De Marco, M. A. (2008). Saúde mental na unidade de terapia intensiva Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar, 11(1),19-30.
Suelaine Estevam da Silva
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