Saúde

Esquizofrenia: principais dúvidas dos cuidadores

O que é a Esquizofrenia?

É um transtorno mental caracterizado por psicose (perda do contato com a realidade), alucinações (percepções falsas do ambiente), delírios (crenças falsas), perda do juízo crítico, embotamento afetivo (dificuldade em expressar sentimentos e emoções), déficits cognitivos (comprometimento na capacidade de racionalizar) e disfunção ocupacional e social.

Principais características

  • Alucinações, delírios, fala e comportamento desorganizados, afeto comprometido e disfunção nas relações sociais em alguns casos.
  • Alto índice de suicídio.
  • Recomendação de uso de antipsicóticos no tratamento. 
  • Com a psicoterapia o paciente poderá entender e tratar seus sintomas e dificuldades advindas do transtorno, além de auxiliar na utilização e conscientização dos medicamentos.
  • Com o devido tratamento, um terço dos pacientes apresentam melhora significativa a médio e longo prazo.

Há predisposição genética para a doença?

Há fortes evidências de componentes genéticos e ambientais, porém a causa ainda é desconhecida. Geralmente os sintomas têm início na adolescência ou no início da vida adulta, raramente na infância. 

Pacientes com familiares em 1º grau que tenham esquizofrenia apresentam risco de 10% a 12% de desenvolver o transtorno, assim como gêmeos monozigóticos tem uma prevalência em torno de 45%.

Já os fatores externos (abuso de substâncias, desemprego, relacionamento, sair de casa, alistamento, entre outros) influenciam no desencadeamento da doença, porém é relativo de pessoa a pessoa (considerando a predisposição a doença). Os sintomas devem permanecer por no mínimo 6 (seis) meses antes que qualquer diagnóstico seja feito.

Quais os primeiros sinais da doença?

A fase inicial se caracteriza pela sensação de que algo está acontecendo, mas o paciente não sabe o quê, e esse desconhecimento inicial gera tensão e ansiedade. Em determinado momento, porém, os sintomas podem agravar-se, iniciando com pequenos delírios ou aluminações. Por exemplo, ele pode mencionar a sensação de que algo está sendo tramado contra si, que estão sabotando alguma coisa, ou que está sendo perseguido e que o mandam fazer algo. 

O paciente percebe que algo está acontecendo a seu redor, mas imagina que é o resultado de alguma ação de outros querendo prejudicá-lo. Na verdade, nesse momento, ele não tem consciência crítica de que está adoecendo.

Como a esquizofrenia é diagnosticada?

Quanto mais cedo o diagnóstico é feito, melhor o resultado. O diagnóstico é feito por um especialista a partir da manifestação dos sintomas do transtorno. Obtenção de informações de familiares, amigos e colegas de trabalho auxilia enormemente no diagnóstico.

Não há como diagnosticar o transtorno a partir de exames laboratoriais como exame de sangue, raio X, tomografia, eletroencefalograma etc. No entanto, tais exames podem ser uteis para um diagnóstico diferencial do transtorno, ou seja, para descartar transtornos com sintomas semelhantes à esquizofrenia. Alguns testes psicológicos podem ser úteis para identificar algumas sintomatologias, como o teste de Rorschach para a compreensão da dinâmica de personalidade, através do levantamento dos aspectos intelectuais, afetivo-emocionais e relacionais; e o Programa de Investigação Neuropsicológica – PIEN (elaborado por Pena Casanova) para a compreensão das funções cognitivas.

Quais os tratamentos disponíveis?

O tratamento é feito com fármacos antipsicóticos, reabilitação (treinamento na comunidade, serviços de suporte, etc.) e psicoterapia. Quando tratados precocemente o paciente responde de forma mais rápida e completa. 

O uso contínuo de antipsicóticos pode reduzir o reaparecimento da doença em até 1 (um) ano para 30% dos casos. Toda medicação deve ser regulada pelo psiquiatra responsável para adequação da dosagem utilizada pelo paciente.

Devido a recorrência e a longa duração do transtorno, torna-se necessário ensinar ao paciente habilidades de manejo para lidar da melhor forma possível com os sintomas. A realização de treinamentos de habilidades psicossociais (fazer compras, higiene pessoal, afazeres domésticos etc.) e reabilitação vocacionais auxiliam na adaptação social e no desenvolvimento cognitivo. Também é de fundamental importância a psicoeducação dos cuidadores para obtenção de maior efetividade no tratamento.

Quando há necessidade de internação?

A preocupação maior reside nos surtos mais graves, quando o paciente pode representar risco em algum grau, devido ao seu comportamento imprevisível. Tudo pode piorar quando as pessoas ao redor não entendem a situação ou não sabem como lidar com ela. Hoje, há restrições quanto ao tempo de internação e às condições em que ela pode ocorrer.

Um procedimento comum é a internação temporária, mas que ocorre apenas quando o paciente apresenta riscos para si ou para terceiros. O recurso hospitalar é muitas vezes necessário e benéfico, desde que usado com critérios clínicos rigorosos, assim como o restante do tratamento. A Lei 10.216, de 2001 que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais define três modalidades de internação psiquiátrica:

  • internação voluntária: aquela que se dá com o consentimento do usuário;
  • internação involuntária: aquela que se dá sem o consentimento do usuário e a pedido de terceiro;
  • internação compulsória: aquela determinada pela Justiça.

Como funciona o processo de internação?

Segundo Art.7º da Lei 10.216/2001, na internação voluntária a pessoa que solicita voluntariamente a própria internação, ou que a consente, deve assinar, no momento da admissão, uma declaração de que optou por esse regime de tratamento. O término da internação se dá por solicitação escrita do paciente ou por determinação do médico responsável. Uma internação voluntária pode, contudo, transformar-se em involuntária e o paciente, então, não poderá sair do estabelecimento sem a prévia autorização.

Já na internação involuntária é aquela que ocorre sem o consentimento do paciente e a pedido de terceiros. Geralmente, são os cuidadores que solicitam a internação do paciente, mas é possível que o pedido venha de outras fontes. O pedido tem que ser feito por escrito e aceito pelo médico psiquiatra. A lei determina que, nesses casos, os responsáveis técnicos do estabelecimento de saúde têm prazo de 72 horas para informar ao Ministério Público do estado sobre a internação e os motivos dela. O objetivo é evitar a possibilidade de esse tipo de internação ser utilizado como cárcere privado.

Por fim, na internação compulsória nesse caso não é necessária a autorização familiar. A internação compulsória é sempre determinada pelo juiz competente, depois de pedido formal, feito por um médico, atestando que a pessoa não tem domínio sobre a própria condição psicológica e física. O juiz levará em conta o laudo médico especializado, as condições de segurança do estabelecimento, quanto à salvaguarda do paciente, dos demais internados e funcionário.

Qual a frequência e duração dos surtos?

Os surtos podem acontecer uma ou diversas vezes na vida do paciente, variando muito individualmente. Porém, em apenas 15% dos casos não acontece um segundo surto. Os outros 85% têm crises recorrentes. Um surto não tratado pode durar mais de um ano, enquanto aqueles que têm o acompanhamento adequado duram apenas dias.

Quanto mais longos e frequentes forem os surtos, mais prejuízos trazem aos papeis sociais do portador. Por essa razão, é importante que o acompanhamento médico e psicológico se inicie aos primeiros sintomas da doença. O tratamento deve ser mantido mesmo fora dos momentos de crise.

Por que alguns pacientes não melhoram apesar de já terem usado várias medicações?

Como acontece com frequência, os casos clínicos não são uniformes, cada caso é um caso. A falta de resposta ao tratamento medicamentoso (antipsicóticos) pode ser devido ao próprio curso da doença, o que torna o paciente refratário (sem a reposta clínica esperada) ao tratamento. Isto acontece em aproximadamente 30% dos pacientes tratados adequadamente.

Outra causa pode ser a falta de adesão, isto é, a falta de frequência no uso, a dosagem incorreta ou administrada incorretamente pode afetar a efetividade do tratamento. Eventualmente, este comportamento leva o paciente a se tornar refratário ao tratamento. 

Outro fator de igual importância é o uso de drogas (maconha, cocaína, crack, entre outras) que provocam os sintomas que as medicações combatem. Fatores como comorbidade (outras doenças relacionadas que afetam a doença primária) e reações a eventos externos também podem interferir na resposta ao tratamento.

Por que alguns pacientes ganham peso?

A obesidade é cada vez mais presente na população geral, mas a prevalência relatada na população de portadores de esquizofrenia é ainda maior. O aumento de peso e problemas associados na esquizofrenia pode acorrer, antes, durante e após o uso de antipsicóticos e ser motivado por diferentes razões. Um estilo de vida sedentário e dieta inadequada são comuns na esquizofrenia devido aos sintomas negativos da doença, como falta de prazer nas atividades e isolamento social. Tais hábitos podem proporcionar ganho de peso e problemas relacionados. 

O tabagismo hábito comum entre os portadores, também contribui para o risco ou piora de doenças cardiovasculares associadas ao ganho de peso. Outro fator também importante é o uso de medicamentos antipsicóticos, por possuírem efeitos colaterais como: excesso de gordura abdominal, resistência à insulina, dislipidemia e hipertensão.

No caso de pacientes que apresentam um ganho de peso elevado, é importante o uso de estratégias para perda de peso, incluindo dieta, exercício físico e eventualmente a troca do antipsicóticos. De todo modo, é fundamental adotar um medicamento que atue sobre os sintomas. Ou seja, não é recomendável o uso de um antipsicótico que não aumente o peso, mas que tampouco seja capaz de aliviar o sofrimento que os sintomas da doença trazem.

Direitos da pessoa com esquizofrenia

De acordo com o artigo 2º da Lei nº 10.216 de 2001, a pessoa com esquizofrenia tem direito ao “acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde, consentâneo às suas necessidades”.

Um dos direitos da pessoa com esquizofrenia, é a interdição. Este meio consiste em uma medida protetiva aplicada que impossibilita o indivíduo de exercer sua função civil. Muitas vezes é requerida para conseguir determinado benefício, como o BPC-LOAS (garantia de um salário mínimo por mês ao cidadão que comprove ser portador de uma deficiência física, mental, intelectual ou sensorial de longo prazo). Para conseguir o benefício, é preciso que a pessoa possua todos os requisitos previstos na legislação pertinente.

Alternativas como a curatela especial (medida em que o juiz determina um curador especial a pessoa com esquizofrenia, com a finalidade de ser seu representante legal) podem ser também uma alternativa.

Dica de leitura

Para quem tiver interesse em entender um pouco sobre o estigma de “louco” enfrentado pelas pessoas com esquizofrenia e a luta pelos seus direitos como cidadão aconselho a leitura do livro Holocausto Brasileiro escrito pela autora Daniela Arbex, que retrata um pouco sobre a infeliz realidade de um hospital psiquiátrico da época.

 

REFERÊNCIAS

LOUZÃ, Neto R. Convivendo com a Esquizofrenia – Um guia para portadores e familiares. São Paulo: Ediouro, 2006.

BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Lei nº 10.216, Lei da Reforma Psiquiátrica de 06 de abril de 2001. Diário Oficial da União. 

BRASIL. Portaria SAS/MS Nº 364, de 9 de abril de 2013. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas – Esquizofrenia. Brasília – DF, 2013.

PÁDUA, A. C; GAMA, C. S; LOBATO, M.I; ABREU, P.B. Esquizofrenia: diretrizes e algoritmo para o tratamento farmacológico. Porto Alegre: Artmed, 2005.

CORRELL, C.U; RUBIO, J.M; INCZEDY-FARKAS, G; et al. Efficacy of 42 pharmacologic cotreatment strategies added to antipsychotic monotherapy in schizophrenia. Chicago: JAMA Psychiatry, 74 (7):675-684, 2017.

Paulo Henrique Tvuarde Boldrini
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