Desenvolvimento pessoal

O que fazer para evitar os conflitos do confinamento

Aumenta o número de divórcios após quarentena na China

A China foi o primeiro país a instaurar a quarentena por conta do Covid-19. Ainda em Janeiro, as regiões mais afetadas já haviam decretado confinamento. Passado os primeiros meses, um cenário inusitado vem chamando atenção: o número aumentado de divórcios.

Os jornais locais dão conta de uma corrida acima da média aos cartórios por aqueles que não pretendem continuar mais sob o mesmo teto. Mas por que isso ocorre em tempos onde se requer justamente mais união e cuidado? 

Quarentena e os efeitos no cérebro

Nenhum país passa por uma pandemia sem ser afetado em nada. O mesmo se dá conosco, seres humanos, que somos seres bio-psico-socio-espirituais. Além dos males físicos que o vírus de uma pandemia pode nos causar, o estado de constante ameaça e vulnerabilidade também nos afeta negativamente. Somado a isso, ainda temos as medidas necessárias de proteção e recolhimento, que têm seu lado eficaz, porém, que traz dificuldades e efeitos colaterais.

O estado constante de ameaça, característico na pandemia, causa-nos:

  • Ansiedade extrema,
  • Preocupação com a doença,
  • Medo de contaminação,
  • Medo dos efeitos na economia,
  • Irritabilidade,
  • Alto nível de estresse,
  • Sintomas depressivos,
  • Tristeza,
  • Sintomas de estresse pós-traumático,
  • Confusão mental,
  • Abuso de substancias. 

Somado a isso, temos o confinamento, o isolamento social, e o chamado home office, que é trazer para dentro de casa o seu trabalho.

Confinados, somos impedidos de realizar algumas atividades de lazer que éramos acostumados, rompemos vínculos importantes e modificamos nossa rotina, focando exclusivamente nossa atenção ao ambiente doméstico. Sintomas depressivos, ansiosos e de estresse pós-traumáticos também surgem por conta do confinamento.

Por fim, temos as características do lar, com suas alegrias e problemas comumente do dia a dia. 

Tudo isso se soma e recai sobre os membros dessa casa, que estão agora todos juntos, com os filhos exclusivamente em casa e que têm de saber lidar com um turbilhão de emoções e sentimentos, com problemas reais, sem deixar desmoronar tudo que construíram ao longo dos anos, sem deixar que a soma de tantos efeitos e sintomas se manifestem na forma de brigas e conflitos. 

O que fazer, então?

Se a pandemia nos tira de nossa ‘’janela de tolerância’’, ou seja, daquilo que damos conta de lidar sem irmos para estados emocionais inadequados, como então amenizar os efeitos no casamento, com os filhos ou membros da casa? 

Frente à crise, todos precisam passar por fases até chegar a estabilização. Passamos pelo medo, pelo desespero, pela negação, até que chegamos a estabilização. Porém, é preciso entender que cada um tem seu tempo para passar por cada fase, alguns têm mais estrutura, mais recursos para se apegar, chegam sozinhos, outros precisam de ajuda profissional, de recursos exteriores.

Estamos todos debaixo da mesma tempestade, mas nem todos estão ou têm o mesmo barco. As estruturas psíquicas são diferentes, porque são formadas de modo diferente, porque as realidades e circunstâncias da vida são diferentes. É preciso compreender que cada um lida da forma que pode. Uns lidam mais rapidamente, outros precisam de mais tempo. Alguns estavam antes estabilizados, outros já antes vinham lidando com dificuldades, com questões psicológicas, físicas, no trabalho, no relacionamento. O primeiro passo é compreender isso.

A segunda atitude que pode ajudar é realizar ações em conjunto, em casal. Preparar o almoço juntos, pôr a mesa juntos, tomar um chá juntos em horário não habitual, paradas no meio do dia para um café juntos onde vão conversar um pouco mais, de forma descontraída, não deixando perder o espaço e os momentos do casal diante de tanta demanda.

O casal também deve preservar algumas rotinas. Então, levantar, trocar de roupa, colocar uma roupa especial, afinal, a imagem conta muito. Ao nos arrumarmos, damos ao outro um sinal de que ele é especial. Ter o horário das refeições principais, do trabalho, do descanso, do lazer, da espiritualidade e da fé. Ter também o momento a sós, um momento do encontro de si consigo mesmo, para pensar, para se analisar, para se distrair também, para se refazer sozinho e poder melhorar a convivência.

Outra atitude importante são as conexões. Pode haver brigas, diferenças, crises e dificuldades, mas se há a conexão, se há aquele sentimento de ‘’a tempestade chegou, mas a gente está junto nessa’’, há também a segurança de que tudo ficará bem para o casal. Portanto, fortalecer as conexões é fundamental e são os momentos em conjunto que realiza isso.

Aquilo que não pode faltar

O que não pode faltar nunca, sobretudo em momentos de crise, é cuidar de sua saúde mental. Como foi dito, somos seres bio-psico-socio-espirituais, e se não estamos bem em alguma dessas instancias, é impossível que consigamos que nossas relações fiquem bem. Afinal, afetamos e somos afetados por onde estamos. Se estamos com problemas, nosso casamento terá problemas, nosso trabalho, nossa função de pais, de filhos, de membros de uma sociedade também terá problemas.

É preciso cuidarmos de nós mesmos.

A função da terapia é essa. Recorrer a ela, quando se vê necessário, é indispensável. Não podemos abrir mãos dos meios que temos para avançar em saúde e qualidade de vida. Os momentos de crise surgirão, como é esse, o da pandemia, mas com ele surgem as ferramentas para atravessarmos bem. 

Como terapeuta EMDR que sou, vemos isso na prática, afinal, é mundialmente conhecido através de publicações em revistas cientificas os efeitos dos protocolos de intervenção para momentos de crise, onde, aplicando os protocolos que dispomos na terapia EMDR, reduzindo os efeitos traumáticos no cérebro, até adiando a instalação do TEPT. 

As publicações do Dr. Ignacio Jarero sobre a atuações em situações de crise como o furacão Pauline, terremotos no Haiti, os refugiados da guerra da Síria, etc., nos dão a certeza de que é possível fazer algo para além do remediar o quadro patológico, mas sim, prevenindo que um transtorno mais severo se instale. Pessoas comuns e profissionais de atuação em crise muito se beneficiam e se protegem fortalecendo seus recursos.

E se já me encontro com alguma psicopatologia?

A ultima coisa que se deve fazer é perder tempo. Deixar estar, é permitir que um quadro psicopatológico/uma dor psíquica gere sofrimento para si mesmo, para as relações e para os outros.

Busque ajuda. A terapia EMDR é uma ferramenta e tanto. Desenvolvida nos anos 80 a partir das novas descobertas da neurociência, ela é reconhecida e recomendada pela Organização Mundial da Saúde como uma entre as duas únicas psicoterapias para o tratamento de traumas.

É definida como uma ferramenta de primeira linha para diversos quadros psicopatológicos, principalmente por ser o trauma o sustento e base para inúmeros diagnósticos. O EMDR é recomendado pela associação de Psicologia e a Associação de Psiquiatria Americana, além de inúmeras outras instituições e órgãos de saúde.

Há centenas de estudos que demonstram seus resultados positivos para o tratamento de quadros diversos, sendo classificada como um terapia baseada em evidencias.

 

Cuide-se. Busque ajuda. Passaremos por tudo isso, principalmente se estivermos unidos e nos ajudando, cada qual compartilhando suas ferramentas de enfrentamento e buscando seus recursos internos. 

 

Júlio César de Paula Ribeiro

Psicólogo, Terapeuta EMDR, certificado pelo EMDR Institute – EUA, CRP – 05/57218

Atendimento online pelo site Psicologia viva (convênios e particular).

Agendamento no link: https://blog.psicologiaviva.com.br/psicologos/juliocesar/ 

Julio Cesar De Paula Ribeiro
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