DestaqueEstilo de vidaPsicologia geralSaúdeTecnologia

Filme O Poço e sua Verdade Inconveniente

Uma análise incômoda sobre a relação da história com a nossa sociedade atual. Contém spoiler!

Há algumas semanas o filme O Poço e sua verdade inconveniente são assunto em muitas rodas de conversa e posts na internet.

Com o mundo em quarentena, uma das opções de distração mais procuradas é a de serviços de filmes e séries em streaming. 

Nesse contexto, o filme vem fazendo muito barulho por ser assustadoramente semelhante com a realidade em que vivemos.

O Poço, The Platform em inglês, é um thriller em espanhol ambientado em uma prisão distópica e futurista na qual as celas são empilhadas umas sobre as outras, como em um edifício.

Filme O Poço - Imagem de Divulgação - Netflix
Filme O Poço – Imagem de Divulgação – Netflix

No centro das celas, um enorme fosso pelo qual uma plataforma vai descendo de andar em andar carregando um banquete de comidas minuciosamente bem preparado. 

A parte interessante é que o alimento de todos, em enorme quantidade por sinal, é servido uma única vez: a plataforma é abastecida no topo do prédio e vai parando por determinado tempo em cada uma das celas. 

Com isso, o andar de baixo sempre receberá o que restou dos andares de cima. 

Mas como essa história se assemelha com o mundo “real”? 

UMA ESTARRECEDORA COINCIDÊNCIA

Apesar de ter sido gravado e produzido em 2019, o filme veio à tona justamente em meio a pandemia. 

Conforme adiantamos, na história, os prisioneiros que estão localizados nos andares superiores recebem a comida primeiro, podendo se alimentar o quanto quiserem e, a medida que a plataforma vai descendo, as iguarias vão se tornando mais escassas. 

Os de baixo, em uma metáfora da cadeia alimentar bastante angustiante de assistir, acabam lutando por restos. 

O desespero dos que estão mais abaixo na cadeia penitenciária é evidente, pois recorrem a medidas extremas para tentar conseguir mais comida.

Independemente de visão política, é muito difícil não fazer uma analogia com a nossa sociedade, na qual poucos privilegiados têm acesso a muito enquanto o restante fica como que sobrar, isso se sobrar. 

Agora, feche os olhos por um instante e tente se lembrar das inúmeras reportagens sobre a compra descontrolada de alimentos, demais suprimentos e pasmem, papel higiênico, realizada por alguns que nitidamente pareciam não se importar se restaria para os demais.

A ironia é que tanto na película quanto nos supermercados há mais do que o suficiente para todos, caso houvesse uma distribuição e consumo equilibrados. 

Seria a história do filme uma infeliz coincidência? Em que momento os personagens se confundem com o que somos como sociedade?

UMA VERDADE INCONVENIENTE

Na prisão ambientada no O Poço, percebemos que existe sim uma administração responsável pela produção dos alimentos, mas que ela não interfere no consumo.

A quantidade que cada um ingere é de sua total responsabilidade, cabendo ao livre arbítrio a decisão de deixar mais ou não para os próximos. Bem, essa é uma situação bastante familiar, não é mesmo?

Nesse ponto, é importante destacar que as posições dentro da cadeia são mutáveis. Isso significa que, todos os meses, os presos são realocados em andares aleatórios por uma lógica que não fica muito clara. 

Seria essa falta de sentido na distribuição das posições, justa ou não, mais uma analogia com a nossa sociedade?

Com as alterações periódicas, quem estava nos andares superiores pode, abruptamente, ser colocado na parte mais baixa. 

Um banquete para poucos
Um banquete para poucos

Mas a dinâmica mais interessante é quando ocorre o contrário: os prisioneiros da parte inferior são colocados na parte mais alta. 

É de se esperar que, tendo passado fome e dor, o comportamento deles seria de maior empatia pelos outros com a consequente diminuição do consumo para que sobre mais. No entanto, não é isso que vemos. 

Ninguém raciona a comida, embora tenham plena consciência de que eles próprios poderão estar em desvantagem nos próximos dias.

Os novos privilegiados passam a adotar o comportamento dos anteriores, perpetuando um ciclo de sofrimento. 

E a principal diferença entre estar acima ou abaixo é uma só: vida ou morte.

ANTROPOFAGIA SOCIAL  

O filme apresenta cenas muito fortes quando o desespero do estômago vazio passa a dominar os personagens.

Ao contrário do que a lógica indicaria, a situação de fome – muitas vezes “saciada” pelo canibalismo – leva-os a pensar no individualismo absoluto já que, mesmo quando sobem a uma posição superior, continuam não pensando no próximo.  

Até quando continuaremos a espremer?
Até quando continuaremos a espremer?

O canibalismo, que tanto causou repulsa em que estava assistindo, não poderia ser mais uma representação de como estamos coletivamente doentes, sobrevivendo às custas dos outros? 

Não somente em relação ao material, mas emocionalmente falando. 

Relacionamentos abusivos, pais ausentes, chefes que parecem não se importar com o sofrimento dos seus subordinados, pessoas que se aproveitam dos seus cargos para obter benefícios mesmo sabendo que outros pagarão o preço dos seus atos, o escárnio contra pessoas que sofrem com transtornos mentais

Quantas vezes já vimos pessoas reproduzindo agressões, físicas e verbais, que tanto as machucaram anteriormente? 

Somos tão diferentes assim dos personagens que nos causaram repúdio? 

Essa é uma verdade inconveniente?

UMA PRISÃO SEM PORTAS

No filme é nítido que se as pessoas quisessem, a vida de todos poderia ser melhor, mas quando poucos tentam mudar as coisas tiveram que, literalmente, agir com fúria contra a maioria. 

Pratos que não deveriam ficar vazios
Pratos que não deveriam ficar vazios

A quantidade de alimento produzida não precisaria ser maior e todos continuariam dentro das mesmas celas, no entanto a condição de cada seria mais igualitária. 

A Netflix, empresa responsável pela distribuição da obra, descreve O Poço como “uma alegoria social distorcida sobre a humanidade em sua forma mais sombria e faminta”. 

Duras palavras para uma uma realidade que não precisaria ser tão dura assim. 

A verdade é que não temos que esperar as coisas melhorarem, tampouco atingirmos os nossos limites para começarmos a pensar e agir de forma diferente. 

Os privilégios nem sempre são financeiros ou sociais: ter uma saúde emocional intacta, por exemplo, é um grande trunfo em tempos tão difíceis.

E assim como as comidas alimentam o corpo, o acesso à psicologia também não pode ficar restrito aos que estão no topo. 

Uma sociedade que ignora os seus doentes acaba adoecendo como um todo. A saúde emocional não é um luxo, mas um direito.

Que possamos ter mais empatia por aqueles que sofrem ou que estão, de alguma forma, nos andares abaixo. 

Quer ler mais artigos como esse? Acesse nosso blog!

——————————————————————————————-

REFERÊNCIAS:

CANETTI, E. Massa e poder. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

BOSCH, Victoria Resplande D’ Assunção. O Poço: uma análise dos dias atuais. Encena. 2020. Disponível em: <https://encenasaudemental.com/post-destaque/filme-o-poco-uma-analise-dos-dias-atuais>. Acesso em: 02/04/2020.

Psicologia Viva
Etiquetas

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar