Desenvolvimento pessoal

FoMO e a quarentena: o medo de ficar de fora

Você tem ficado ansioso por não acompanhar todas a lives no YouTube, sente-se culpado por não fazer tantos exercícios quanto seus amigos no Instagram? Fica chateado porque todos estão fazendo coisas produtivas nessa quarentena e você não consegue nem terminar aquele livro que começou em Março? Então sugiro que você pare um pouco e leia este texto.

Se você respondeu sim para as perguntas acima, então você pode estar experienciando o FoMO – Fear of Missing Out, ou em português: Medo de ficar de Fora. Neste texto iremos discutir como nós experienciamos o FoMO, suas causas e efeitos, e como a quarentena tem elevado essa sensação de “estar de fora”. 

O que é FoMO

Em 1996, durante a condução de um grupo de estudo, o Dr. Dan Herman se deparou com o fenômeno que nomeou de Fear of Missing Out”, em uma tradução livre: Medo de  ficar de fora. De acordo com o Dr Herman, FoMO é basicamente o medo que as pessoas sentem diante de uma situação com muitas escolhas e possibilidades, onde uma escolha significa muitas renúncia, perdendo tudo o que poderia ter tido com outras opções.

Colocando de maneira mais simples, seria como olhar para o copo de água “meio vazio“, ou seja, ao invés de focar no conteúdo focamos no vazio, na falta

Neste cenário, o indivíduo pode ficar paralisado sem saber qual direção tomar e até sentir certo nível de ansiedade. Para trazer um exemplo mais claro do nosso do dia a dia, a sensação pode ser semelhante ao abrir o catálogo da Netflix para assistir algo novo, tem aquela série que seu amigo te recomendou, o documentário que ganhou o Oscar, o filme que está entre os 10 mais assistidos, etc. e depois de 20 minutos passando pela lista interminável de títulos, você fecha o aplicativo e vai dormir se sentindo angustiado e fracassado por não ter escolhido nada. 

Ansiedade e Estresse?

Todos nós podemos já ter experienciado FoMO em algum momento da vida. Imagine que você fica sabendo que seu grupo de amigos vai se reunir justamente amanhã , no mesmo horário que vai acontecer o happy hour da empresa, e que convenientemente (ou não), é no mesmo horário do seu curso de especialização (que custa bem caro).

Em qual compromisso você deveria comparecer? O que perderá se não for no curso? Quais fofocas vai deixar de ouvir se não for no happy hour? Será que você vai conseguir acompanhar as conversas no grupo de Whatsapp se não encontrar seus amigos?

Para o Dr. Herman, experienciar FoMO é o resultado de processos cognitivos e emocionais de avaliação até o esgotamento de oportunidades, que pode ser dividido nas seguintes fases: 

  1. Quantidade de opções para escolha – uma situação com muitas escolhas e possibilidades diferentes, conforme o exemplo acima.
  2. Noção de prioridade – avaliar e escolher entre apenas um dos cenários apresentados, baseado nas noções de prioridade individuais e sociais (o que é importante para sociedade, família, amigos, colegas de trabalho etc).  
  3. Prever ou imaginar – Imaginar os resultados e consequências da opção escolhida e, principalmente, das opções não escolhidas.

O processo de revisar, prever e considerar os “ganhos e perdas” (principalmente as perdas) envolvidos nos diferentes cenários pode levar a um esgotamento emocional que é experienciado como ansiedade ou até angústia.

Sabemos que a ansiedade é um mecanismo da psique humana, algo que é muito comum nos dias hoje, devido ao mundo 100% conectado e globalizado, onde opções de diferentes experiências foram expandidas até um infinito de possibilidades. As redes sociais têm um papel fundamental em fazer com que as pessoas vivenciem o FoMO.

A grama do vizinho é sempre mais verde (principalmente no Instagram) 

O famoso sociólogo Zygmunt Bauman elaborou importantes conceitos a respeito da sociedade moderna a fim de discutir as transformações que o mundo sofreu nas últimas décadas, e cunhou o termo modernidade líquida. O conceito de líquido está como metáfora para demonstrar o estado de algo flexível e fluido. É desta forma que Bauman enxergava as relações sociais modernas: em constante movimento. 

Fazendo um comparativo com o estilo de vida das sociedades de 100 anos atrás, uma das principais diferenças apontada pelo autor é a Identidade. No século XIX, a Identidade de uma pessoa poderia ser definida pela família que pertencia, classe social (se era um plebeu ou se fazia parte da realeza) ou sua profissão, condições das quais não estavam sob seu controle, eram herdadas na maioria dos casos.

Atualmente o cenário é completamente o oposto, nossa identidade é moldada por nossas escolhas, desde as mais complexas como carreira, até as mais simples como o que eu gosto de assistir, vestir e comer. 

E onde tudo isso é exposto? Sim, nas redes sociais: Instagram, Facebook, Linkedin, Twitter, YouTube entre outras mil. As redes sociais são nossos marcadores de identidade, onde nos identificamos com as pessoas e comunidades com os mesmos gostos e preferências. 

E lá está você rolando o feed (interminável) do Facebook ou acompanhando o Stories no Instagram e se depara com aquele seu amigo fazendo uma viagem incrível para algum lugar no mundo, seu colega de trabalho se formando em uma pós-graduação, outro suado após uma série insana de exercícios, etc. e você se pega pensando: “com todas as possibilidades e coisas para fazer, estou aqui olhando as redes sociais”… FoMO.

As pessoas tendem a compartilhar suas conquistas e momentos agradáveis nas redes sociais, isso pode trazer um sentimento prazeroso, porém para quem está do outro lado da tela fica sempre o sentimento de que a “grama do vizinho é mais verde”. Temos a impressão que todos têm vidas mais excitantes e felizes, mas só estamos vendo um momento, não sabemos o que há por trás daquele post. Então, a impressão que fica é que todos estão satisfeitos com suas vidas, menos você.

Isso já fazia parte do nosso cotidiano, porém como fica agora que estamos confinados em nossas casas por conta de uma pandemia Global?

Medo de não participar de todas as lives 

O mundo todo está sofrendo as consequências desta pandemia devido ao coronavírus, e o isolamento social tem sido a forma de prevenção mais efetiva até agora. Muitos países entraram, e alguns estão até saindo, de um regime de lockdown para reforçar o distanciamento social, mantendo as pessoas em casa.

Se já não bastasse lidar com o medo e a ansiedade desta situação, temos que encarar o stress instaurado pela mudança em nossas rotinas diárias. Trabalhar de casa (para aqueles que podem), cuidar dos filhos e realizar as tarefas diárias se torna bem mais difícil.

E lá está você no meio de todas as tarefas envolvendo trabalho, estudos, casa e família, quando descobre que vai ter uma live daquele cantor sertanejo que todos estão comentando, porém seus amigos vão fazer um vídeo pelo Zoom para comemorar o aniversário de alguém no mesmo horário. Algo que deveria ser prazeroso e um momento de alívio, torna-se uma escolha difícil e angustiante, fazendo com que você participe de uma, mas não deixe de pensar no que está perdendo na outra.

Todos estamos lidando com alguma dificuldade neste momento, seja a solidão da quarentena (física ou emocional), uma casa pequena com muitas pessoas, as contas para pagar, nossos familiares que estão no grupo de risco, indecisão sobre como trabalhar… a lista só aumenta. Quando você se dá conta, está com falta de ar, sente um aperto no peito e uma vontade de sair correndo, só para escapar dessa situação. Como lidar com tudo isso sem ficar perdido no meio de tantas escolhas?  

Viva o momento

A sensação de estar perdido e ficar paralisado sem saber o que fazer, pode ser o mecanismo mais nocivo para quem está sentindo FoMO. Imagine que você está caminhando por um parque e acaba se perdendo. Em determinado momento você se depara com uma encruzilhada com diversas direções. De início você fica indeciso e apreensivo, pensando qual caminho tomar, quando decide seguir por um, fica se perguntando se está no lugar certo, se não deveria voltar e seguir por outro lugar. 

Todas estas direções (as escolhas) tiram o foco do que realmente importa no parque (a vida), o caminho e toda a sua beleza (as experiências). Portanto, um conselho simples para lidar com FoMO é Viva o Momento. Pode parecer simples demais, porém quando deixamos de olhar para os caminhos que ficaram para trás e realmente vivenciamos o momento, tiramos o foco do “que estou perdendo” para “o que estou vivendo”. 

Para facilitar, aqui estão algumas mudanças simples e práticas, mas importantes, que podem te ajudar a focar mais no aqui e agora. 

  • Diminua o consumo de Redes Sociais – Como já discutimos, redes sociais em excesso podem ser fonte de Ansiedade, portanto diminua e controle a utilização. Não necessário parar de usar totalmente, apenas restrinja os horários e a quantidade. Existem aplicativos hoje que ajudam o usuário a controlar o uso das redes sociais. O próprio sistema da Apple (IOS) informa o a quantidade de horas gasta com redes sociais. Defina horários para utilizar e use com moderação;
  • Estabeleça Rotinas – Com as mudanças, muitos perderam suas rotinas. Estabelecer novas rotinas, como horários fixos para acordar e dormir, horário de trabalho (início e principalmente o fim, pois é importante saber a hora de parar) podem ajudar a diminuir os níveis de estresse e ansiedade. Se for difícil para você, comece do simples e vá inserindo coisas aos poucos. Não esqueça de separar um tempo para descansar e se distrair, mesmo que isso signifique não fazer nada. Isso também é importante para a saúde mental.
  • Reencontre seus prazeres – O momento da quarenta pode ser uma oportunidade de se conectar com antigos (ou novos) prazeres ou hobbies como pintar, tocar um instrumento, ler bons livros, jogar, enfim… a lista é enorme. Apenas lembre-se de fazer algo que lhe traga prazer, e quando estiver fazendo, aproveite o momento… não perca seu tempo postando nas redes sociais. Se não estiver sobrando tempo tudo bem, faça quando puder. 
  • Valorize as pequenas coisas – Todos já ouvimos de alguma forma a “importância das pequenas coisas”, dos detalhes do nosso dia a dia, porém neste momento vale o reforço aproveite os pequenos prazeres do seu dia, um café recém passado pela manhã, um banho quente, o conforto da sua cama, uma refeição simples ou a companhia de uma pessoa especial. Olhar para estas pequenas coisas vai te ajudar a valorizar mais o momento, viver a vida. 

É importante ressaltar que vivemos um momento muito difícil, um cenário do qual não sabemos lidar e que ainda pode estar está longe de acabar. Portanto, se você estiver passando por um momento difícil do qual não vê uma saída, não tenha medo de pedir ajuda. Procure um amigo, um familiar ou ajuda profissional.  

Vivam o momento e cuidem-se!

Lucas Zaina
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