Psicologia geral

Gênero, o que eu tenho a ver com isso?

Atualmente, nas rádios, redes sociais, televisão ou em qualquer outra mídia, nos deparamos com imagens e palavras que antigamente sequer acreditávamos que existissem. Cisgênero, transgênero, drag, travesti, são apenas alguns exemplos de um léxico que nos faz acreditar que as diferenças de gênero são muito maiores do que acreditamos, e em ultima instância emerge a questão: “o que isso tem a ver comigo?”

A intenção desse texto é aventar como a construção das diferenças sexuais (leia-se gênero) tem impacto em nosso cotidiano, sendo de suma importância um acompanhamento psicológico para que seja possível (re)questionar nossas percepções de corpo e respectiva função na sociedade como um todo, seja com a família, amigos, amores e até com a gente mesmo.

Conceituando o gênero

Neste trecho iremos relembrar algumas figuras importantes que estudaram as questões de gênero, para que possamos refletir e aumentar a ‘’elasticidade’’ de um conceito que muitas pessoas acreditam ser fixo e imutável.

Simone de Beauvoir

A filósofa francesa, autora da famigerada obra “O segundo Sexo’’ e da impactante frase “ninguém nasce mulher, torna-se’’, trouxe várias questões importantes para pensar não apenas o feminino, mas o gênero como um todo.

Com essa afirmação, ela contesta o pensamento determinista do final do século XIX que usava o corpo (biologia) para explicar a inferiorização do sexo feminino e as desigualdades que ainda podemos ver hoje em dia, como por exemplo assédios sexuais contra as mulheres, diferenças salariais, etc. 

Para Beauvoir, o ato de tornar-se homem ou mulher passa pela submissão de um processo de socialização de gênero, baseadas nas expectativas que os pais e a cultura têm em relação ao sexo da criança ao nascer. Sabe aquele “chá de revelação” que os pais montam durante a gravidez, ou ainda os planos que eles montam sobre como o filho(a) vai ser quando crescer, se será engenheiro, médico ou professora? Então, todas essas fantasias não são apenas imaginárias, mas corroboram com uma expectativa de gênero que serve para nortear como vai ser a vivência da criança.

Michel Foucault

Outro pensador francês, um dos primeiros a pesquisar como os conhecimentos, sexualidade e poder foram se articulando da idade média até o final do século XX.

Para ele, é pelo sexo efetivamente, ponto imaginário fixado pelo dispositivo de sexualidade, que todos devem passar para ter acesso à sua própria inteligibilidade, à totalidade de seu corpo, à sua identidade. Em outras palavras, existe um saber dominante na sociedade que classifica os corpos com o objetivo de ‘’manter as coisas como estão”. O gênero aqui então é uma consequência de uma produção de conhecimentos sobre os corpos, que longe de estar neutra, tem sempre um objetivo.

Ainda, o autor destaca que a biopolítica precisa de instituições que vigiem o desempenho desses saberes sobre os corpos: escolas, academias, universidades, mídias, todas essas instituições legitimam e reforçam as ideias de gênero dominantes. Pensemos aqui em alguns eventos: na escola, ao menino é autorizado que tenha um caderno simples e uma letra considerada não bonita, enquanto que à menina é delegada a responsabilidade de ter uma letra delicada, bonita e caprichosa; nas academias podemos encontrar as narrativas divisórias entre exercícios para homens e exercícios para mulheres.

Em suma, existe todo um sistema inconsciente de vigilância e produção de percepções e conhecimentos que tem como objetivo classificar e manter as pessoas em determinadas dinâmicas de gênero de acordo com o sexo (genital).

Judith Butler

Diferente dos outros teóricos citados acima, Butler é estado-unidense. Butler foi precursora de um movimento academio-científico denominado Queer, que promulga ideias muito promissoras para pensarmos o gênero.

Para ela, “o gênero é a estilização repetida do corpo, um conjunto de atos repetidos no interior de uma estrutura reguladora altamente rígida, a qual se cristaliza no tempo para produzir a aparência de uma substância, de uma classe natural de ser.”

Dito de outra forma, o gênero se forma com a repetição de crenças e condutas sobre os corpos, até que se cristaliza. O problema aqui é que essa cristalização nos dá a impressão de que o gênero é algo natural e imutável, permitindo que muitas injustiças sejam autorizadas e perpetuadas. Ainda para a autora, o gênero é sobretudo performático. Pela repetição de atos, gestos e signos, do âmbito cultural, que reforçariam a construção dos corpos masculinos e femininos tais como nós os vemos atualmente. Portanto, é uma questão de performatividade. Para Butler, gênero é um ato intencional, um gesto performativo que produz significados. 

Se pensarmos detidamente, existe uma ideia ou fantasia do que é um certo gênero ou outro, ideia esta que é um núcleo em torno do qual um determinado sujeito vive orbitando, mas nunca consegue atingi-lo completamente. É por isso que dizemos que não existe uma pessoa 100% masculina ou 100% feminina, pois essa performance jamais é totalizável. Pensemos em uma drag queen, como a cantora Pabllo Vittar, por exemplo.

A cantora faz uma performance do que é ser uma mulher: cabelos compridos, lábios grossos, maquiagem, acessórios, etc. ela faz uma “montagem” de mulher. De outro lado, paremos para observar o nosso cotidiano, quando nos levantamos de manhã, tomamos banho e nos trocamos, utilizamos tal ou tal perfume, um determinado tipo de maquiagem, ou ainda algum tipo específico de roupa, não estamos também nos “montando” para fazer um verdadeiro teatro de um certo tipo de gênero?

Mas e o que eu tenho a ver com isso?

Neste momento é importante nos atentarmos que o gênero, mediante o que foi apresentado, não compete exclusivamente as pessoas que vivem nas margens da sociedade, como as drags, trans, mulheres extremamente masculinizadas e homens muito afeminados. É fundamental saber que todos os seres humanos são generificados, ou seja, estão dentro de um sistema de classificação de gênero.

Fundado desta maneira, precisamos começar a reparar com maior acuidade como essas disciplinas de gênero aparecem em nossas vidas:

    • Estão por toda parte, seja na família, trabalho, bares e assim por diante;
    • São mecanismos inconscientes decorrentes da cristalização de gênero, pensamos que eles são biológicos, naturais e que “é assim mesmo”;
    • Atingem a todas as pessoas independentemente da classe social, nacionalidade ou grau de escolaridade;
    • Apesar de serem absolutamente difundidos, há pessoas em posições de gênero mais favoráveis do que outras.

Como a psicologia poderia ajudar?

Entendendo que existe uma fixidade das ideias de gênero e suas respectivas implicações, temos como consequência uma internalização dessas crenças dentro de cada um de nós, isso quer dizer que buscamos e lutamos para pertencer a esses gêneros, pois acima de tudo são eles que supostamente garantem nossa posição de pertencimento perante os outros e o mundo.

Entretanto, essas crenças são falaciosas pois não permitem que os sujeitos criem novas maneiras de ser no mundo para além do próprio gênero. Um caso extremamente comum, por exemplo, é uma mulher que inconscientemente acredita que sua existência está estritamente condicionada a presença de um homem na sua vida. Essa crença de que a mulher é incompleta ou precisa ter um homem em sua vida muitas vezes a coloca em uma posição de alta submissão, praticamente proferindo o contrário do ditado popular “antes só do que mal acompanhado”, o discurso inconsciente sobre os corpos diz para as mulheres que “antes mal acompanhada do que só”.

Em conclusão, a psicologia teria como um dos objetivos nesse quesito, investigar, sondar e trabalhar como as limitações do gênero atuam em um determinado individuo, desconstruindo suas fantasias que o prendem em uma posição submissa e a mercê das narrativas de gênero, para enfim possibilitar que o sujeito exerça sua plena criatividade, reinventando assim o própria mapa de sua vida sem obstáculos generificados. 

 

Referências bibliográficas:

Beauvoir, S. (1960) O segundo sexo: fatos e mitos. São Paulo: Difusão Européia do Livro.

Butler, J. (1987) Variações sobre sexo e gênero: Beauvoir, Wittig e Foucault In: BENHABIB, Seyla & CORNELL, Drucilla. Feminismo como crítica da modernidade. Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos.

Foucault, M. (1976) Historie de la sexualité 1: La volonté de savoir. Paris: Gallimard.

Pietro Coelho Scola
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