Desenvolvimento pessoal

Existe um guia para a vida feliz?

Todos sabemos que a vida é marcada por fortes e diversas experiências, sentimentos e emoções. Cada uma delas nos atingem de uma forma diferente, geram efeitos variados e deixam suas marcas em nós. Apesar da diversidade de experiências, estamos sempre querendo a mesma coisa: ser felizes.

Então, fica uma pergunta: Qual o caminho certo para ser feliz? Ou melhor, existe um caminho certo para ser feliz? Existe um guia para a felicidade?

O que é a felicidade?

Inicialmente é importante entender que a felicidade é um sentimento, que está intimamente ligada à emoção da alegria, mas não só a ela. Os sentimentos são processos duradouros, que podem perdurar por um longo tempo na vida humana, por alguns dias ou horas.

As emoções, por sua vez, são reações orgânicas que ocorrem conosco diante de alguns acontecimentos ou estímulos e são de curta duração. Normalmente elas são involuntárias e os fatores que as motivam são compartilhados com outras pessoas. Diante do cheiro do lixo, por exemplo, podemos fazer uma careta de nojo; diante do latido de um cão feroz temos a rápida reação de medo. 

O psicólogo pesquisador Paul Ekman fez um longo estudo sobre as emoções básicas e as manifestações delas no organismo, especialmente por meio das expressões faciais. Ele descobriu que os seres humanos e muitos animais, especialmente os primatas, compartilham as mesmas emoções básicas, que são a alegria, a tristeza, o medo, o nojo e a raiva.

Ele também descobriu que as emoções são universais em todas as culturas, ou seja, são as mesmas em todos os lugares do mundo.

Os sentimentos, porém, por serem mais complexos e relacionados a diversos fatores, podem ser universais em sua forma, não em seu conteúdo. Por exemplo, João, que mora no Brasil, sente-se tão feliz quanto Isaiah, que mora no Irã.

O que deixa um feliz é muito diferente do que deixa o outro. O sentimento é o mesmo, mas os fatores, seu conteúdo, podem ser muito diferentes. E o que é o sentimento de felicidade, afinal? Segundo as principais definições sobre o termo, podemos resumir que a felicidade pode ser entendida como um estado de bem-estar, de satisfação, de contentamento mental. É um sentimento de equilíbrio físico e psíquico, podendo chegar ao estado de bem-estar espiritual e paz interior. 

A complexidade da felicidade

Existe um filme de animação infantil, muito interessante, de nome Divertida Mente (2015). Ele conta a história das emoções humanas básicas na mente de uma menina de cerca de 10 anos de idade. Lá estão as cinco emoções básicas: alegria, tristeza, medo, raiva e o nojo, cada uma com uma cor específica.

Cada experiência da vida da garota do filme era associada a uma emoção diferente e depois guardada na memória. Todas elas estavam associadas unicamente a uma emoção, sendo que a maioria estava atrelada à alegria. A alegria, por sua vez, se sentia a comandante das demais emoções e a “manda-chuva” da mente. 

Depois de enfrentar alguns problemas no processo de guardar as memórias e após algumas experiências vividas pela garota, as cinco emoções chegam ao final do filme com uma grande descoberta: as experiências não são exclusivas de uma única emoção, mas estão mescladas, envolvendo um pouco de cada uma. A experiência do primeiro passo, por exemplo, não envolve só a alegria de poder caminhar, mas também o medo de se aventurar e cair no chão. A raiva sentida após ouvir um “não” dos pais carrega um pouco de tristeza pelo desejo insatisfeito.

O que o filme ensina de forma divertida é que felicidade e sofrimento são como cores, que são notadas quando estão em contraste umas com as outras. Pode-se ver o branco em contraste com o preto, assim como a felicidade em contraste com o sofrimento. Entretanto, essa analogia é apenas uma forma didática de entender que uma coisa não é sentida quando se exclui a outra.

A vida, na verdade, talvez seja muito mais cinza do que zebrada. Nos sentimos felizes quando comparamos uma experiência com outra não tão agradável, e podemos, inclusive, por pior que seja uma determinada situação, nos sentirmos mais afortunados quando comparados com outra pessoa em situação muito pior do que a nossa. 

Felicidade e desejo

A felicidade, quando vista de perto, não está sozinha. Ela está envolta num emaranhado de ligações com o desejo, medos pessoais, expectativas, necessidades, sofrimento e dor. Quando pensamos com Freud na psicanálise, podemos aproximar a noção de felicidade com a satisfação de um desejo, consciente ou inconsciente. Por sua vez, o desejo é o ímpeto que move nossa vontade, nossa inclinação ao prazer e a satisfação sobre a vontade. O desejo é o que move o sujeito na sua empreitada da vida, é o seu combustível. 

Entretanto, os desejos humanos são vários, diversos, contraditórios e, muitas vezes, pouco claros. O que de fato queremos? Pergunta difícil para respostas tão pouco seguras. 

Dos filósofos gregos aos teólogos religiosos, passando por uma infindável lista de pensadores, lemos e ouvimos diversas considerações sobre o que é a felicidade e como alcançá-la. Dentre esses, há aqueles que acreditam que somos destinados à felicidade, que esse é um dos fins últimos da existência humana.

Como, então, conciliar a felicidade com tantas experiências de dor e sofrimento que enfrentamos ao longo da vida, como doenças, morte, desilusões, privações diversas e a incapacidade e impotência em poder conseguir o que se deseja? Como ser feliz quando não se tem liberdade, por exemplo?

O filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860), conhecido como filósofo pessimista, dá a entender que “se acreditarmos que o mundo nos deve felicidade, estaremos fadados a ficar imensamente desapontados. Quando encontramos o que nos faz feliz, logo iremos desejar outras coisas que substituirão os desejos antigos”. Poderia o mundo, de fato, com todas as suas complexidades, injustiças e violências ser capaz de nos garantir felicidade plena?

A felicidade plena é mera utopia. Se, como os filósofos estóicos da Grécia antiga, que defendiam a ideia de ataraxia, consideramos que a felicidade é eliminação da dor, chegaremos num “beco sem saída”, pois a dor e o sofrimento são inevitáveis.

Podemos deliberadamente evitar situações de sofrimento particulares, com atitudes como por exemplo cuidar da saúde, fazer escolhas adequadas e racionais, tomar os cuidados necessários para não se envolver em situações que podem gerar maior sofrimento físico ou mental, mas não podemos fugir da dor e sofrimento universais que atingem a todas as pessoas, como inseguranças sociais, doenças, violência, saudade, morte, dentre outros… 

Contudo, o extremo da evitação da dor e sofrimentos inerentes à vida é um só: a morte. Com a morte não há desejo, nem necessidades, muito menos vontade ou liberdade. Segundo Freud, ela é o estado que as pulsões do organismo e do psiquismo não atuam e, com isso, não geram nenhum tipo de desejo. Mas como ser feliz quando se está morto? 

A arte da vida semi-satisfeita como caminho para a felicidade

Se não há um manual para a felicidade, ou a possibilidade de uma felicidade plena, podemos pensar alguns caminhos possíveis. O pensadores budistas diziam que é necessário que aceitemos a dor e o sofrimento e aprendamos a lidar com eles, uma vez que eles são inevitáveis.

Outros pensadores religiosos têm insistido no processo de dar sentido ao sofrimento, de forma que ele possa ser suportado e encontre significado na experiência de vida da pessoa. Há ainda quem diga que a felicidade “é a arte do bem viver, do saber viver bem”. 

Schopenhauer aponta que uma vida feliz incluiria sucesso suficiente na satisfação de nossos desejos para que nunca soframos muito, mas também fracasso suficiente para garantir que nunca fiquemos entediados. Com Freud também podemos pensar a possibilidade da mediação entre o desejo e a satisfação. Um caminho possível é manter o desejo dentro de proporções realizáveis e alcançáveis, de modo a ir conquistando felicidades parciais ao longo do tempo. 

Nesse sentido, parece ser sensato pensar em pequenas e constantes doses de felicidade do que a enorme decepção de desejar uma vida completamente feliz, livre do sofrimento e da dor. Talvez não sejamos naturalmente destinados à felicidade, mas podemos, ao menos, insistir no nosso direito de obtê-la.

Podemos concluir com um pensamento de Freud: “A felicidade constitui um problema libidinal do indivíduo. Aqui, nenhum conselho é válido para todos. Cada um tem que descobrir a sua maneira particular de ser feliz.” 

Valdemir Simão

 

Referências Bibliográficas:

Ekman, Paul. Emotions revealed. New York: Times Book. 2003

Freud, S. (1996a). O mal-Estar na civilização (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 21). Rio de Janeiro: Imago.

SCHOPENHAUER. Arthur, O Mundo como Vontade e Representação. São Paulo: Contraponto. 2001.

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