Saúde

“Homens não choram” e outras expressões que devemos parar de usar

O termo “machismo” não está relacionado apenas com as mulheres (obviamente que para elas, este é muito mais agressivo), porém ele também se faz presente na vida do homem e de como este deve se portar.

Muitas vezes durante o percorrer da vida ouvimos que um homem para ser de fato Homem (com H maiúsculo), deve impor-se, mostrar a sua masculinidade, fortaleza. E para isso é preciso muitas vezes que deixe de lado suas dores, medos, inseguranças, angústias.

É fato que é muito bem mais visto – socialmente dizendo – quando uma mulher está demonstrando seus sentimentos e emoções, como por exemplo, quando está tristes, com dor, passando por algum sofrimento, fragilidade e medo.

Homens geralmente são ensinados desde muito cedo que não devem chorar, não devem mostrar suas fragilidades e inseguranças, pois fazendo isso tornam-se “menos homens”, “mais fracos”.

“Engole o choro”, “que feio menino chorando”, “menino não pode fazer isso”. São falas que por mais bobas que pareçam, podem interferir em muitas áreas da vida, de forma prejudicial. Pois ao aprender calar-se, não falar dos sentimentos e do que causa dor (seja física ou emocional), o homem é conduzido a não procurar ajuda quando necessário.

Ensinam-nos desde pequenos a esconder e evitar demonstrações de sentimentos. Ensinamentos que são passados de geração em geração, onde meninos aprendem que abraçar, beijar, chorar ou até mesmo deixar transparecer angústias e preocupações são características não condizentes com o comportamento dos homens, que quanto mais viris, melhor é para sua identidade masculina (Campos, 2019, p. 13).

Cabe pontuar que o homem para ser visto como HOMEM, não é suficiente apenas ser do gênero masculino. Assim como nos pontua em seu artigo Campos (2019) não é tão simples nascer homem, seja psicologicamente ou biologicamente, e assim crescer e se reconhecer.

O manual de ‘’homem ideal’’ é passado de pai para filho, onde este traz diversas regras e limita até onde a ação do másculo pode ir.

Um manual onde a ideia de virilidade se equilibra sobre uma linha tênue entre o cuidado com esse corpo e o “não exagero” nesses mesmos cuidados (Campos, 2019, p. 15).

O medo – ou talvez vergonha – de expressar que algo está ruim, impede que se busque, muitas vezes, ajuda profissional, das mais variadas áreas que sejam. Aqui podemos citar dois cuidados fundamentais, mas que muitos homens por não quererem demonstrar fragilidade (ou não quererem ser motivo de piadas) acabam deixando de lado. São eles:

Cuidados com a saúde mental

Justamente pelo fato de não poder demonstrar os sentimentos, de evitar chorar (porque isso o torna fraco), o homem, muito mais que as mulheres, evita buscar ajuda psicológico quando algo não vai bem. Por não saber se expressar, por não se conhecer verdadeiramente, por achar vergonhoso falar sobre alguns sentimentos – e dar voz a eles. Mas lembre-se: está tudo bem sentir demais, está tudo bem chorar, está tudo bem demonstrar. Somos humanos, somos frágeis, fracos em algumas ocasiões, temos sentimentos e acontecimentos na vida que nos abalam. Tudo bem falar sobre a dor emocional, tudo bem falar de si e querer se autoconhecer.

Cuidados com a saúde geral

Aqui abordamos os cuidados com a saúde em geral, mas principalmente levando em consideração o Novembro Azul, por conta de ser o mês da prevenção do câncer de próstata. Por serem acostumados a esconder os sentimentos e dores, os homens (novamente, muito mais que as mulheres), preferem não buscar ajuda de médicos quando algo está errado ou incomodando, para que assim se mantenha a “pose” de aguentar tudo calado. Mas não é assim que funciona!

Em pesquisas pode-se concluir, segundo Goldenberg (2013), que é muito mais ‘’fácil’’ para a mulher chorar do que para o homem. 58% dos homens responderam chorar pouco, 37% responderam que nunca choram e apenas 5% disseram chorar muito. 

Quando questionados sobre o porquê, ambos os gêneros concluíram que as mulheres choram com mais frequência por motivos como: 

  • TPM;
  • Hormônios;
  • Sensibilidade;
  • Emotividade;
  • Fatores culturais;
  • Liberdade para chorar.

Ser homem importava em ser mais sensual e menos amoroso, mais racional e menos sentimental, mais inteligente e menos afetivo, etc. Cuidar do corpo e do sexo. Conservar uma das antigas propriedades, a mulher. Foi-lhe dado o direito de concentrar sobre a mulher toda a carga de dominação antes distribuída sobre o grupo familiar e demais dependentes da propriedade. Profundamente convencido de que o verdadeiro homem era dono da mulher e fiscal dos filhos, o machista tornava-se um ciumento guardião da moral higiênica (Lago-Falcão, 2009, p. 37).

É necessário que os homens entendam que eles podem, sim, sentir, eles podem, sim, chorar, podem fazer acompanhamentos com médicos para cuidar da saúde, podem buscar ajuda de uma profissional de psicologia para conseguir expressar os sentimentos e as falas. 

O alcance da igualdade de gênero não é possível sem mudanças nas vidas dos homens tanto quanto nas das mulheres. Esforços para incorporar uma perspectiva de gênero no pensamento sobre desenvolvimento requerem mais do que um foco nas mulheres, embora seja vital; o que é também necessário é um foco nos homens (Lago-Falcão, 2009, p. 38 apud Greig; Kimmel & Lang, 2000: 1).

É necessário homens, que vocês entendam – e compreendam – que também são seres humanos, com dias bons e ruins, com medos, inseguranças. E está tudo bem. Vocês também podem falar, podem expressar.

E, principalmente: PODEM SENTIR! 

Referências bibliográficas

  1. CAMPOS, Bruno Silva. Meninos (não) choram: retratos sobre homens, sensibilidade e seus corpos. 2019. 61 f. Monografia (Graduação em Jornalismo) – Instituto de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana, 2019.
  2. GOLDENBERG, Mirian. Homem não chora, mulher não ri: 80 ideias para entender sexo, amor e fidelidade. 1ª edição, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.
  3. LAGO-FALCÃO, Tânia Maria. Homem não chora: Um estudo sobre viuvez masculina em camadas médias urbanas. Tese de Pós-Graduação da Universidade Federal de Pernambuco. Pernambuco, 2009.
  4. OLIVEIRA, A. L. G; PARRA, C. R. Violência e identidade em meninos não choram. Revista Inter-Legere, v. 14, n. 14, 05 maio 2014.
Daiane Karoline Farias dos Reis
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