Saúde

Janeiro Branco e Covid-19

Janeiro Branco é uma campanha que foi iniciada em Uberlândia, MG, no ano de 2014, com o objetivo de promover ações que incentivassem os cuidados e a prevenção da saúde mental no Brasil.

Quando se pensa neste tema logo vem à mente a loucura, os hospitais psiquiátricos e a degradação que um sujeito pode sofrer. Mas saúde mental não é necessariamente isso, a Organização Mundial de Saúde define a saúde mental como um estado de bem-estar no qual o indivíduo exprime as suas capacidades, enfrenta os estressores normais da vida, trabalha produtivamente e de modo frutífero, e contribui para a sua comunidade. 

Pode-se ver, então, que muitas pessoas ditas normais não são mentalmente saudáveis em determinados períodos de suas vidas. Precisam de ajuda psicoterapêutica nestes períodos, assim como quando tem uma doença física qualquer.  

Obviamente, às vezes as questões mentais são mais complexas e exigem cuidados maiores. Normalmente vêm acompanhadas de alguns diagnósticos temidos, como esquizofrenia, transtorno bipolar, borderline, e outros tantos.

É necessário olhar para eles com a maior naturalidade possível, não os entender como uma sentença e os transformar em um grande segredo de família. Houve tempos em que não se falava sobre as doenças venéreas, AIDS, câncer, mas o silêncio não as afastava, em alguns casos as tornava mais presentes e mais solitários os envolvidos. 

O objetivo do Janeiro Branco é colocar a saúde mental em evidência, conscientizando a todos sobre a importância da prevenção da doença, estimular e garantir a efetiva elaboração de políticas públicas em benefício da Saúde Mental dos indivíduos e das instituições.

É preciso falar sobre saúde mental para que ninguém fique sozinho, desassistido.

Por que Janeiro Branco?

O mês de janeiro foi escolhido para a campanha por ser o primeiro mês do ano e que por isso marca um recomeço, um momento para colocar em prática novos planos, novas ideias. Vem junto também com uma época simbolizada pelas festas natalinas e de virada de ano, quando muitas pessoas tendem a ficar mais melancólicas e mais fragilizadas. É este o momento ideal para buscar ajuda profissional e começar a cuidar da saúde. 

 A cor branca representa um quadro em branco, um papel em branco, no qual uma nova história da saúde mental será escrita, sem os tabus e preconceitos que a cercam. Com a mesma naturalidade com que se vai ao médico para fazer um check up, ao nutricionista para buscar uma dieta, ao fisioterapeuta para cuidar das dores musculares, pode-se ir ao psicólogo para cuidar das dores emocionais e começar um novo caminho mais saudável.

Tabus e preconceitos em saúde mental

Existem muitos tabus e preconceitos sobre a doença mental, muitos deles são por falta de informação. Alguns diagnósticos são mais aceitos que outros.

A Depressão e a Ansiedade são os menos estigmatizados, ou seja, o que menos preconceito carregam. Isso, provavelmente, pelo fato de serem comuns na população e de não estarem associados com comportamento violento.

Entretanto, doenças como esquizofrenia, transtorno bipolar entre outras, por causa de seus sintomas distintos, como alucinações, delírios, comportamentos nem sempre adequados, são alvos de exclusão social e ocupacional. Normalmente são considerados indivíduos perigosos, muito embora, sejam muito mais indefesos e necessitados de ajuda do que capazes de cometer qualquer prejuízo ao outro.

As pessoas com mais idade são mais prejudicadas que pessoas jovens e as mulheres são mais lesadas que os homens. A rejeição por parte de amigos, familiares, vizinhos, empregadores e do público em geral resulta em exclusão e isolamento social e, unicamente em consequência da sua doença, as pessoas são marginalizadas e relegadas para um estatuto social inferior.

Assim, surge a segregação de pessoas com doenças mentais similares, agravando os sentimentos de rejeição, solidão e depressão.

Existe o rótulo da doença mental. O doente passa a ser a doença (eu sou bipolar, eu sou esquizofrênico), o que é devastador. Algumas pessoas passam a ser vítimas de suas doenças e se tornam alvos de discriminação injusta.  Efetivamente, aqueles com rótulos de ordem psíquica por terem diagnóstico médico, ou por procurarem tratamento psicoterápico, ou ainda por demonstrarem comportamentos associados pelo público à doença mental, tendem a ser desvalorizados. São vistos como fracos, imperfeitos, menos capazes e menos competentes, com características indesejáveis, como periculosidade, improdutividade e vontade fraca, e por essas razões são alvo de incompreensão e descriminação da comunidade. 

Para que os tabus e preconceitos possam ser substituídos por atitudes mais humanitárias, dignas, inclusivas e saudáveis, é necessário falar sobre saúde mental, esclarecer o que é, tirar os tabus do escuro, colocar luz onde existe sombra. Tirar as dúvidas com quem entende do assunto, em sites confiáveis, não acreditar em tudo que circular nos WhattsApp. 

Janeiro Branco na COVID-19 

O janeiro de 2021 inicia um ano que parece não terminou. Estranho pensar sobre isso. O mundo entrou 2020 perplexo perante uma pandemia. A desesperança frente ao número de mortes que se anunciava, o medo frente as possibilidades de contágio e o isolamento social imposto como uma medida protetiva para conter um vírus que avançava. As incertezas sobre como controlar a doença e sobre sua gravidade, além da imprevisibilidade acerca do tempo de duração da pandemia e dos seus desdobramentos, caracterizam-se como fatores de risco à saúde mental das pessoas. 

Como cada um foi e é afetado pela pandemia é muito singular e depende de muitos fatores. A interrupção na rotina de diária e o trabalho em home office para alguns pode ser simples adaptação a um novo cotidiano. Algumas reações leves de depressão, ansiedade e sintomas de estresse são normais frente a mudança da rotina habitual. Entretanto, pode ocorrer agravamento dos sintomas, distúrbios do sono, abuso de álcool e outras drogas e ideação suicida.

Nestes casos, é necessário buscar ajuda especializada de um psicólogo o mais cedo possível. Estudos mostram que em casos de epidemia, entre um terço e metade da população pode apresentar alguma manifestação psicopatológica, caso não seja feita nenhuma intervenção específica para as reações e sintomas manifestados. 

Os impactos causados pela pandemia do novo coronavírus sobre a saúde mental aumentam a importância do Janeiro Branco neste 2021. É preciso falar sobre saúde mental em todos os contextos: família, escolas, empresas e instituições. Não se pode ignorar que crianças, adolescentes e idosos também adoecem psiquicamente e se suicidam.  Se algum deles depender de você preste atenção aos sinais e não os deixe sem amparo.

 

Referências bibliográficas:

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Mental health: strengthening our response. 2018. Disponível em: https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-strengthening-our-response. Acesso em: 08 jan. 2021.

FUNDAÇÃO FIO CRUZ. Recomendações Gerais. In: CRUZ, Fundação Fio. Saúde Mental e Atenção Psicossicial na Covid-19. São Paulo: Fiocruz, 2020. p. 1-8.

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