Psicologia geral

COVID-19, “descortinando” vulnerabilidades: o relato de um Psicólogo Clínico em tempos de pandemia

Formado em psicologia desde 2016, sempre estive inclinado a atender a população LGBTQIA+, vítima das mais variadas formas de violência. Compreendo a comunidade LGBTQIA+ tão desigual quanto as metrópoles brasileiras. 

Existem LGBTQIA+ ricos, assim como existem LGBTQIA+ pobres. As violências apresentadas a estes grupos, entretanto, muitas vezes não são tão desiguais. Elas se apresentam de formas variadas mas recorrentes, seja nos seus trabalhos (para a sorte daqueles que conseguiram um), seja na sua família, em uma instituição religiosa, ou na rua. 

A predominâncias do discurso cisheteronormativo

Enquanto o discurso da cisheteronormatividade for predominante em nossa sociedade, haverá alguma forma de violência às pessoas LGBTQIA+.

A graduação em Psicologia não é completa. Faço aqui um adendo à minha experiência, mas nos últimos meses tenho me dedicado a pesquisar as ementas das instituições de ensino e são poucas as que dialogam em uma disciplina obrigatória, na grade curricular do curso, com orientação sexual e identidade de gênero.

Portanto, não, a graduação em Psicologia não é completa e não propõe ressignificar a cisheteronormatividade. Para não ser leviano, existem docentes fantásticas e totalmente inclinadas a mobilizar seus discentes nesse sentido. Esse fato, infelizmente, acaba por mobilizar somente ou grande maioria das pessoas que se identificam enquanto LGBTQIA+ a se dedicarem a pensar neste grupo. Não foi diferente comigo. 

Sou gay e depois de muitos anos em psicoterapia, tenho mais domínio para falar sobre qualquer assunto correlacionado à minha infância, que sim, não diferente de outras narrativas, foi vítima de diversas formas de sequestro de afetividade, bullying escolar, abandono familiar, entre outras. Acho que de forma muito inconsciente, quando escolhi a Psicologia já me propunha a isso: confrontar a cisheteronormatividade. Talvez como forma de reparação ao que fizeram comigo e com muitos amigos. 

O encontro da Psicóloga com uma pessoa LGBTQIA+, por sua vez, requer delicadeza. Longe de mim querer desnaturalizar as expressões e formas de vivências de nosso povo, pelo contrário. São inúmeros os relatos de pacientes, que chegavam a mim, com a demanda de que não tinham se sentido confortáveis o suficiente para “se abrir” com a outra colega.

As várias formas de deslegitimar alguém

Existem um milhão de formas de deslegitimar alguém. É provável que algumas dessas pessoas tenham se sentido dessa forma. Para os que leem, existe neste “desabafo” uma crítica à Prática Psicológica. Afinal de contas, com quem a Psicologia está comprometida?

Mas, longe de mim querer afastá-las da psicoterapia. A psicoterapia, mesmo antes de me graduar Psicólogo, foi capaz de recuperar algum resquício de empoderamento que existia em mim e me permitiu dizer: sou gay. Portanto, acredito que a Psicologia seja uma grade aliada. Correlacionando com o que eu já disse a respeito das instituições de ensino, basta que a profissional esteja apta a compreender as vicissitudes da vida e suas mais diversas formas de representação. 

Aproveito o gancho para ressaltar que este não é um problema somente da Psicologia. Ainda essa semana, ouvi de uma amiga trans que somente buscaria ajuda médica se estivesse sufocada, uma vez que a presença dela em instituições de saúde “não é bem-vinda” e a violência decorrente da deslegitimação que viria a sofrer ali, poderia ser pior do que qualquer outro sinal de adoecimento. 

Aliado a isto, não são poucos os relatos, sejam de amigos ou pacientes, que denunciam que as delegacias e demais instituições voltadas à proteção do indivíduo também continuam a invisibilizar a nossa existência. A pessoa, vítima de LGBTfobia, que busca alguma delegacia para prestar queixa, também encontra ali um discurso cisheteronormativo, totalmente inclinado a deslegitimar as vidas LGBTQIA+. Trata-se, então, de algo estrutural.

A cisheteronormatividade está presente em todos os lugares. Nas casas, nos ônibus, nas clínicas psicoterápicas e instituições de saúde, nas delegacias e nas escolas. 

Muito provavelmente por isso, grande parte de nossa comunidade optou por uma autossegregação. Trata-se de um processo histórico, onde pessoas LGBTQIA+ não eram bem-vindas em ambientes quaisquer. Boates, bares, clubes, etc. Hoje, na maioria das cidades brasileiras e do mundo, existem estes espaços (até mesmo instituições religiosas), destinadas a comunidade LGBTQIA+.

Os lugares “guetificados”

Como sinaliza Castañeda (2007), existe uma forte tendência por parte da comunidade LGBTQIA+ em uma “guetificação”, consistindo na dificuldade em relacionar-se com os heterossexuais. Trata-se, sobretudo, de um mecanismo de defesa, uma vez que não nos sentimos seguros em ambientes que costumam nos ser hostis. 

Diante de minha experiência, apesar de as constantes lutas por acesso democrático às cidades, grande parte da população LGBTQIA+ continua a optar por estes lugares “guetificados”, por vermos nele um espaço de libertação, que vai de encontro e nos resguardam das violências sofridas em nossos bairros, trabalhos e sobretudo no seio familiar.

Ainda nesse sentido, é possível perceber a construção de um intenso sentimento de pertencimento, uma vez que este encontro com semelhantes contribui para o fortalecimento de nossa identidade/orientação sexual. É perceptível que tais lugares contribuem para a materialização de uma fraternidade e sobretudo acolhimento. 

Quando o isolamento social decorrente da pandemia de coronavírus (COVID-19) foi decretado, continuei meus atendimentos de forma online. Dessa forma, dentro de minha quarentena, houve várias. O contexto do isolamento social trouxe desafios e problemas para as cidades e isso reflete diretamente nas relações interpessoais. 

No contexto das pessoas LGBTQIA+ que não convivem com aceitação familiar, isto traduz-se, de uma forma explícita: a redução de sua “rede de apoio”, atrelada ao impulsionamento de violência doméstica. O conceito de rede de apoio pode variar a depender do contexto, mas aqui, diante do que já foi exposto, trata-se exclusivamente destes espaços que estão atrelados à liberdade e destes encontros com semelhantes, que rotineiramente reforçam e autorizam as nossas identidades. Além disso, o isolamento reforça uma convivência obrigatória com pessoas que não legitimam a nossa existência. 

Foi um processo delicado, inicialmente, trazer a psicoterapia para dentro de suas casas. Na minha percepção, a pandemia age descortinando opressões. É uma crise dentro de uma crise. Muitos dos meus pacientes optaram por fazer as sessões nas escadas de seus prédios, uma vez que ali seria mais seguro e sigiloso. Não existe uma relação harmônica com a casa.

Castañeda (2007), em um diálogo direto com as diversidades sexuais, aborda que quando uma pessoa se reconhece homossexual, não existem benefícios visíveis. Diferentemente, confrontam-se com um futuro isolado que tendenciosamente trará conflitos com a família e a sociedade. Assumir-se homossexual, em sua perspectiva, não parece uma volta ao lar, mas, antes, um exílio.

O modo como a família lida diante das diversidades de orientação sexual ou identidade de gênero estão intimamente correlacionadas à qualidade de vida e saúde da população LGBTQIA+. A violência doméstica, hoje, constitui a principal causa da morte de homossexuais. A rejeição ao indivíduo acarreta maior probabilidade de problemas de saúde mental como ansiedade, depressão ou ideação suicida.

Importante ressaltar que diante desse cenário, a população Transexual tende a sofrer violências mais severas, atreladas a deslegitimação de sua identidade. 

Schulman (2009) descreve a família como a proteção da crueldade social, mas uma vez que a família representa esta crueldade, o papel tende a ser inverso e a vítima há de transformar a sociedade em seu refúgio. O questionamento mais pertinente, seguindo essa lógica, é: onde há de refugiar-se de toda crueldade, sobretudo no contexto do isolamento social, a pessoa LGBTQIA+ vítima de vulnerabilidade? 

Não obstante, as grandes mídias, nos últimos tempos, terem dedicado mesmo que minimamente algum espaço de sua grade televisiva para assuntos pertinentes à comunidade LGBTQIA+ e mesmo que a LGBTfobia já tenha sido declarada crime pelo Supremo Tribunal Federal (STF), as violências continuam apresentando números viscerais e toda a vivência LGBTQIA+ permanece estagnada “à margem”. Viver ainda é o nosso maior desafio. 

Os perigos da quarentena para a população LGBTQIA+

A ONU (Organização das Nações Unidas) reconheceu em um comunicado que a crise global está potencializando as dificuldades da população LGBTQIA+ e pede a atenção dos países à saúde e às violações de seus direitos humanos no contexto da pandemia. O comunicado destaca que ao ficar em casa, crianças, adolescentes e adultos LGBTQIA+ estão obrigados a uma exposição prolongada a membros da família que não os aceitam, o que aumentam as taxas de violência doméstica, agressões físicas e emocionais, assim como danos à saúde mental. 

De acordo com o Código de Ética Profissional do Psicólogo, não estou apto a trazer e nem relatar casos. Mas, de antemão, gostaria de frisar que refugiar-se nas escadas foi a menor forma de violência que pude acompanhar nesses últimos dois meses, desde que iniciei os atendimentos de forma online. A quarentena da população LGBTQIA+ que não vive em um contexto de aceitação familiar é violenta. Estupro corretivo, agressão física, privação de alimentos. Estar em casa, para muitos, é estar no inferno. 

Enquanto Psicólogo gay, militante, muitas dessas coisas não eram novidades. Mas, em contexto de isolamento social, as coisas foram muito mais “desmascaradas” ou, como gosto de dizer, “descortinadas”. Entrar em contato com tamanho sofrimento, tamanhas privações, diversas formas de violência e, atrelado a isto, viver em um país com um (des)governo que não está preocupado com os Direitos Humanos, e pelo contrário, luta pelo fim destes, é assustador.

A minha quarentena foi fortemente mobilizada por essas percepções. Além do fato de estar isolado, sozinho, desde abril, venho tentando ressignificar várias ideias, inclusive a de tempo, para que me permita respirar. Fazendo uma analogia com a ideia de um avião que está a cair: é importante que você esteja apto a colocar a sua máscara primeiro, para que assim você possa ajudar a quem está ao seu lado. Basicamente o meu ofício resume-se a isto. 

A comunidade LGBTQIA+, por sua vez, me traz forças para manter a coragem e a cabeça erguida. Como dito anteriormente, viver ainda é o nosso maior desafio, e ser ponta de lança não é fácil. Apesar das privações dos nossos becos e vielas, a fraternidade é viva. Está viva! Os abraços estão por vir. Abraços por Demétrio Campos, Marielle Franco, Natasha Ferreira Lobato e tantas outras vidas interrompidas por uma sociedade cisheteronormativa.

Precisamos nos propor a enxergar o sofrimento humano em articulação com o seu plano de vida. Vida essa em suas infinitas manifestações: dor, sofrimento, medo, desamparo, desigualdades, iniquidades, etc. Percepções essas que se renovam a cada encontro, pois cada pessoa é dona de uma história singular, que nos apresenta a complexidade da vida. 

Enquanto homem Gay, Psicólogo, recorrentemente abordando a importância da intersetorialidade/interdisciplinaridade, e inclinado a lutar pela população LGBTQIA+ vítima de violência, sentindo também de maneira muito peculiar os movimentos de ressignificação que a pandemia tem proposto, aproveito a oportunidade para descortinar as questões acima citadas.

Além disso, quero reiterar a importância da nossa luta, a fim de elaborar ações estratégicas e afirmativas, em prol da população vítima de violência, uma vez que todos esses fatores apresentados constituem nada menos do que uma forte expressão da privação dos Direitos Humanos.

Perceber as diferentes quarentenas para a população LGBTQIA+ traz uma reflexão crucial, viabilizando reconhecer que vivemos em um mundo de opressões, que nega direitos e extermina pessoas. Entender as origens e mecanismos de perpetuação da LGBTQIA+fobia é o primeiro passo para combatê-la. 

 

Fabiano Saft, Psicólogo Clínico atendendo a jovens, adultos e idosos. Possui experiência de atendimento clínico a pessoas LGBTQIA+ vítimas de violência de gênero. Além disto, tem abordado a importância da intersetorialidade com outras áreas do conhecimento, como por exemplo, Arquitetura e Urbanismo, Geografia e as Ciências Sociais. Atua principalmente nos seguintes temas: Diversidade Sexual, Relações de Gênero, Psicologia da Saúde, Saúde do Trabalhador e Direitos Humanos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Castañeda, M. (2007). A experiência homossexual: explicações e conselhos para os homossexuais, suas famílias e seus terapeutas. São Paulo: Girafa.

SCHULMAN, Sarah. (2009). Ties that Bind: Familial Homophobia and Its Consequences. New York: The New Press.

FABIANO SAFT
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