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Masculinidade contemporânea: Um desafio para os homens?

Vivemos em uma sociedade dinâmica e complexa, onde tudo muda rapidamente. Este “tudo” inclui inevitavelmente nossos hábitos, nossos comportamentos e nossas relações sociais. 

Outra faceta da sociedade atual é a diversidade, onde as dualidades e padrões não imperam mais soberanos. Essa abrangência gera muitas dúvidas em relação ao que é adequado e saudável à nossa época.

Dentro desse contexto, uma face que ainda se encontra austera a mudanças e à diversidade é a masculinidade.

A identidade do masculino sempre esteve enredada em uma grande problemática social, o machismo.

O machismo

Machismo é caracterizado por condutas sexistas que visam inferiorizar, controlar e desqualificar uma pessoa pelo simples fato dela ser mulher. Estas condutas favorecem o gênero masculino em detrimento do gênero feminino. O machismo pressupõe que há uma hierarquia entre os gêneros e que no topo está o homem. 

O machismo se opõe diretamente a igualdade de gêneros.

O machismo afeta tanto homens quanto mulheres, pois o machismo advém de uma sociedade patriarcal que sedimentou atitudes, comportamentos e educou homens e mulheres a se portarem de modo que o patriarcado se estruturasse e se classificasse como normalidade dentro da sociedade.

Contudo vale ressaltar e evidenciar que essa estrutura incide seus efeitos em maior grau nas mulheres. 

É fato que as condutas tipicamente masculinas são oriundas do machismo, e que este visa inferiorizar, controlar e desqualificar uma pessoa pelo simples fato dela ser mulher. Estas condutas implicam que os homens devem renegar atributos, características e funções que, imagina-se ser exclusivo do feminino.

Estas condutas padronizadas são passadas culturalmente através de repetidos gestos, atitudes e falas, onde os preceitos do que é “ser homem” é se identificar com o que é agressivo, dominador, insensível, etc.

Aqui podemos ver um primeiro desafio: estar inserido em uma sociedade patriarcal e machista e não reproduzir ações que alimentem essa estrutura.

O feminino

A sociedade atual, muito graças a movimentos feministas, inseriu em seus debates públicos a mulher, que outrora era impedida de ter participação com voz ativa nas decisões e direitos nos inúmeros contextos sociais. Apesar de haver muito a que se mudar, não nos cabe aceitar uma sociedade desigual em direitos, autoridades, prestígios e participações ativas em decisões por conta da diferença sexual. 

Esta nova face do feminino, que não aceita mais o modelo patriarcal instituído a séculos, que defende novos posicionamentos da mulher e que se põe a se empoderar cada vez mais, trouxe ao masculino novos paradigmas que ainda necessita pautas sociais para que haja novas posturas frente a velhos hábitos do imaginário masculino. Neste caso o masculino ainda não aderiu à dinâmica do século XXI.

O desafio aqui é entender, internalizar, discutir, contribuir e buscar novas alternativas para que a sociedade cresça em igual valor para todos os gêneros. 

O masculino

Ninguém é fraco ou forte por ser homem ou mulher. Ninguém chora por ser homem ou mulher. As regras sociais influenciam nosso jeito de pensar, agir e olhar o mundo.

As regras do que é ser homem acarreta gravíssimas consequências nas relações, tanto com as mulheres quanto com outros homens. Ainda existe uma pressão social para se comportar “como homem”, uma grande necessidade de se colocar como macho, de se impor sobre o que é considerado fraco. A questão a ser levantada é de que os homens desejam ser viris ou não serem vistos como afeminados?

Ser forte, ter pulso firme, não chorar, ser provedor não são mais características exclusivas do masculino e isso desmonta a estrutura “homem com h maiúsculo” que se imaginava ser ideal, isto trouxe uma desestabilização no modelo tradicional antes aceito socialmente.

Como muitas coisas neste século, o masculino e o feminino se modificaram. Só que os passos do masculino são mais tímidos e rígidos. Se o feminino busca igualdade de direitos, o que o masculino busca? 

Sim, a pergunta é capciosa, pois não há resposta que englobe a pluralidade do masculino. 

O masculino contemporâneo

O masculino contemporâneo não busca tornar-se mais algo padrão, cada sujeito dentro de sua masculinidade busca sua própria representação social pois não diz sobre o sexo, mas sim sobre o gênero. 

O sexo refere-se ao aspecto biológico e gênero está ligado às construções sociais das identidades subjetivas. 

A partir deste ponto não há como delinear, do ponto de vista social e político, uma ideologia masculina. Um homem branco e hetero não é visto da mesmo forma que um homem negro trans, as nuances sociais são diferenciadas para cada um, o posicionamento de cada um dentro de suas lutas não são comparativas e até mesmo em um contexto social similar pode gerar diferentes masculinidades. Por isso o uso do plural no termo masculinidades.

Esta abrangência pode gerar conflitos emocionais, crises de identidade e repressões, não pelo fato da abrangência não ser saudável, ela é, mas pelo fato dela não ser entendida pelo “ser padrão”.  O padrão não suporta diferenças. 

Este é um fator crucial e fundamental, entender as formas que os masculinos se apresentam na sociedade é fundamental para que as relações sociais progridam saudavelmente. É a partir do próprio entendimento que será possível dissolver a ideia que existe um padrão para cada gênero.

Somos diversos e o mundo abrange complexidades inimagináveis, a insistência em permanecer moldado pelo machismo não se adequa mais aos dias atuais.

Permanecer nessa esfera só traz prejuízos psicossociais.

Diálogo

A sociedade precisa refletir sobre os processos de aprendizado, criar alternativas para lidar com as questões do que é um ser na sociedade. Entender a si mesmo é funcional, entender principalmente os papéis desempenhados na sociedade, isto é imprescindível.

A principal ferramenta para que as mudanças ocorram é a conscientização através do diálogo

É necessário que o masculino dialogue com o feminino, que saibam cada um dos preceitos do outro, que se respeitem, que busquem mútua colaboração. É necessário que o masculino dialogue com os masculinos, que entendam suas referências patriarcais, que desejem novas referências. 

É necessário que todas as peças estejam ativas neste debate para que se crie alternativas saudáveis para ambos.

Talvez em uma sociedade multifacetada como a nossa, olhar o outro sem um rótulo seja utópico, mas a busca pelo diálogo nunca pode enfraquecer. Tanto o masculino quanto o feminino são escravos do social, e a liberdade só virá quando aprendermos a dialogar de forma inteligente e sadia sobre isso. 

Que tenhamos sensatez de não ter uma masculinidade apenas performática, onde tenta-se ser “o macho descontruído” sem encarar e despegar da estrutura falida do patriarcado. Que a humanidade de cada um grite alto e possa estar aberta a compreender e aceitar o diferente.

O masculino precisa descer do pedestal ao qual foi colocado erroneamente e se posicionar ao lado da construção de novos rumos sociais que se propõem a acreditar no humano sendo humano.

Não podemos ficar apáticos à dinâmica do século XXI, onde as mudanças ocorrem sem aviso, o século passado pertenceu a outros olhares, precisamos vivenciar este para melhorar o próximo.

Maury Stone Mendes

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Meu nome é Maury Stone Mendes, psicólogo clínico com orientação em teoria psicanalítica, atuo considerando as questões inconscientes, visando ressignificar questões angustiantes. Prezo pela ética e principalmente pelo sigilo absoluto, acredito na cura pela palavra sempre respeitando a subjetividade e singularidade de cada sujeito.

Convido você a entrar em contato consigo mesmo e a contar a sua história, olhar a sua narrativa por diferentes ângulos e trazer novos significados para sua vida.

Aguardo você para conversar sobre o assunto desse texto ou sobre assuntos diversos e juntos caminharmos em direção às novas possibilidades. Agende uma consulta, será um prazer conhecer você! 

Referencias:

  1. Nolasco, S. (1993). Masculinidade: reflexőes contemporâneas IN Reflexőes Líricas, Vozes/Cultura, nº 05, set-out, ano 87, v. 87, pp. 71-80.
  2. Ceccarelli, P. R. (1997) A Construçăo da Masculinidade IN Percurso: Revista de Psicanálise Ano X, nº 19, 2º semestre de 1997, pp. 49-56.
  3. Badinter, E (1993) XY: sobre a identidade masculina Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
Maurystone Alves Mendes
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