Desenvolvimento pessoal

O que fazer com os maus encontros em nossa vida?

Já parou para pensar quantos encontros você já teve na vida? E os encontros que ainda vai ter? E não estou falando apenas de encontros amorosos não, também no trabalho, na escola ou faculdade, se você frequentar, na casa de amigos, nas redes sociais, na família… Serão encontros e mais encontros.

Alguns deles serão bons, outros nem tanto, e outros ainda serão muito dolorosos, sem falar naqueles cuja complexidade não permite classificar facilmente como bons ou ruins (são um tanto dos dois). 

Os efeitos que os encontros geram em nós

Todos os encontros nos afetam de alguma maneira, alteram nosso corpo, nossa mente e nossas emoções. Em alguns deles nos sentimos potentes, vibrantes, alegres; em outros nos sentimos fracos, entristecidos, incapazes ou paralisados. Esses últimos nos afetam diminuindo nossa energia, nossa força de vida, e eles podem realmente nos adoecer. 

Vários termos psicológicos são utilizados para falar do efeito persistente desses maus encontros:

  • Depressão,
  • Ansiedade,
  • Angústia,
  • Perda da vontade de viver,
  • Compulsão (uso desmedido de drogas, comida, sexo, compras etc).

Quando sentimos isso, quer dizer que o resultado do mau encontro anda perdurando em nós e estamos sofrendo

E como não aguentamos sofrer por muito tempo, procuramos formas de lidar com esses sentimentos, daí é que muitas vezes reagimos aos encontros ruins de maneira equivocada, o que acaba por intensificar seus efeitos ou forjando alguma falsa saída, na forma de recompensas, vinganças e até mesmo de empoderamentos. 

Vamos falar mais sobre isso! Falar sobre porque tais saídas são falsas.

As falsas saídas

No consultório lido com isso, com as falsas saídas que os pacientes realizaram e não lhe trouxeram o que prometeram, que é conforto emocional, a superação de “traumas”, a recuperação da alegria perdida etc. Nesse texto vamos nos ater a essas três falsas saídas (a da recompensa, a da vingança e a do empoderamento), mas existem muitas outras. 

Quando o efeito de um mau encontro dura em nós, queremos diminuir a dor do sofrimento, mas não sabemos como fazer isso. Queremos nos sentir melhor, daí buscamos recompensas nas formas de, por exemplo, a aquisição de um bem material, uma mudança estética no corpo, a busca por intensidade no sexo ou a busca por um relacionamento de namoro.

Em si mesmas, não há nada de mal nessas coisas, mas aqui estamos falando do uso delas como recompensas para dar cabo do sofrimento de um mau encontro.

Outra falsa saída é a vingança, o desejo de gerar mal ou de aniquilar o “objeto” que nos causou a dor. Fazemos isso apontando falhas, defeitos ou diminuindo uma pessoa, por exemplo. Há inúmeras formas de se vingar.

Já o empoderamento é uma construção bem avaliada socialmente, mas nem por isso deixa de ser uma falsa saída. No empoderamento, procura-se fazer parte de um nicho privilegiado socialmente. 

Repare que há algo de comum nas três falsas saídas, que é o desejo de “sair por cima”, como se diz popularmente, o desejo de invisibilização do objeto causador da dor, e também da invisibilização da dor. Podemos perceber que a problemática dessas saídas está na relação com o outro.

As saídas como substituição do objeto traumático

Todas essas saídas funcionam como um objeto substituto daquele objeto traumático. Funcionam como substituição de algo que está faltando, já que o objeto que ocupava esse lugar não era bom. Esse funcionamento é que é a própria saída falsa, porque “promete” muito mais do que cumpre. O buraco vai continuar ali e vamos tentar preenchê-lo com mais objetos, e com objetos que acreditamos mais eficazes, que cumpram melhor a promessa de nos fazer sentir bem. 

E eventualmente nos sentimos bem sim, mas cuidado! Podemos estar fabricando em nós mesmos um funcionamento compulsivo, que vai necessitar de mais e mais. Não é uma boa saída, né?

E qual seria uma boa saída?

Essa é uma conversa longa, mas podemos dizer aqui nesse breve texto que essa saída começa por não atribuir de imediato ao objeto a culpa do mau encontro. E identificar a nossa própria cumplicidade pelo acontecido, identificar o “comum” entre mim e o outro que permitiu que algo ruim acontecesse.

A partir desse entendimento da minha participação no mau encontro, sinaliza-se uma saída mais consistente, que não funcione simplesmente pela substituição compensatória do objeto traumático por um outro objeto que me causará prazer.

Culpar o outro pelo mau que nos acontece é uma reação até automática, pois pensamos assim: “eu estava bem até isso acontecer e agora, depois que tudo aconteceu, eu fiquei mal, é claro que a culpa é de X, Y ou Z”. É exatamente esse funcionamento automático que nos prende à situação ruim acontecida e que nos levará fatalmente a outras experiências similares. 

A saída mais efetiva então é interromper o ciclo repetitivo de procurar algo que nos compense a dor sentida. É preciso entrar um tanto em contato com a dor, ver nossa participação nela e, ao mesmo tempo, investir em experimentações novas, criativas.  Essas experimentações vão materializar maneiras inéditas de existir no mundo, trazendo frescor, alegria e liberdade.

O mau encontro incomoda, mas também pode ser um presente, uma porta que se abre para o novo em nossa vida, dependendo do uso que fazemos dele. 

Esse entendimento sobre como lidamos de forma reativa àquilo de ruim que nos acontece está contida nas pesquisas de um campo do conhecimento chamado de Esquizonálise, desenvolvida a partir dos anos 60 do século passado na França. Seus expoentes maiores são Gilles Deleuze e Félix Guattari, respectivamente filósofo e psicólogo.

Eles constroem um amplo referencial teórico aprofundando-se nas obras de pensadores de todos os tempos que têm em comum um pensamento mais independente, como Baruch de Espinosa, Friedrich Nietzsche, Michel Foucault e Henri Bergson.

A Esquizoanálise também levanta fortes e contundentes críticas à psicanálise, em especial a desenvolvida por Sigmund Freud e Jacques Lacan. Uma dessas críticas, que sintoniza aqui com esse texto, é o deslocamento do núcleo do entendimento dos conflitos pessoais da família para o contexto social de forma mais ampla, mas isso é um assunto que merece um texto só pra ele.

Nos vemos em breve em novos diálogos por aqui!! 

Gleydson Pinheiro Camargo, Psicólogo

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