Família

Mamãe, por que menino não brinca de casinha?

A importância da brincadeira

A brincadeira é fundamental na infância e traz impactos importantes para o desenvolvimento da criança. Uma das principais funções da brincadeira é a vivência de outros papéis sociais, como um ensaio para a vida adulta. É por meio do “faz de conta” que as crianças podem compreender melhor o papel dos adultos à sua volta e o funcionamento da sociedade. 

Durante a brincadeira, elas ampliam o vocabulário verbal e corporal, desenvolvem o senso de responsabilidade e estreitam os laços afetivos. Brincar é muito mais do que uma forma de passar o tempo, é viver a reinvenção de sentido, a experiência de estar no mundo adulto sem ainda o ser, vivenciando papéis, sentimentos, gestos e movimentos do seu cotidiano familiar. 

Contudo, a brincadeira também pode servir como um dos primeiros disparadores de desigualdades entre homens e mulheres, especialmente quando no âmbito familiar ou escolar é ensinado que há aquelas que são exclusivas para as meninas e outras para os meninos. 

Há distinção entre brincadeiras para meninos e para meninas?

Determinar quais são “brinquedos para meninas” e “brinquedos para meninos” tira da criança a oportunidade de entender o significado das atitudes que o pai ou a mãe tomam diante de situações corriqueiras. Por exemplo, separar o lixo reciclável, arrumar a cama, lavar a louça, dirigir o carro ou contratar um jardineiro, mantendo-se estereótipos de gênero criados numa época em que homem era considerado “inútil” em casa e seu lugar era na rua. 

As acirradas discussões sobre gênero deixam claro o afloramento de dúvidas sobre como lidar com as diferenças. O diferente assusta e põe em evidência o outro/eu em espelho. O que acontece com o outro, eu posso sofrer também. Arquetipicamente falando, tudo que ocorre na vida de um ser humano, em qualquer lugar do planeta, é passível de acontecer aqui e agora, no presente, comigo ou com você.

A coragem necessária para enfrentar o julgamento social

Mas, lidar com o julgamento social exige uma grande dose de coragem, audácia e desejo de conhecer a si mesmo. Vemos esses predicados na atualidade quando meninos não mais se intimidam nas “brincadeiras de casinha”. Este é, com efeito, um momento mais que oportuno para se experimentar o papel de pai que embala seu bebê. É contraditório uma sociedade querer que um homem seja pai presente, carinhoso e responsável quando se disse a este mesmo homem na infância que numa brincadeira de casinha apenas mulheres podem tomar decisões, lavar, passar, cozinhar e cuidar das crianças.

Mães trabalham fora, apesar de voltarem para casa cansadas como o homem e fazerem o jantar ao mesmo tempo em que cuidam das tarefas escolares dos filhos. E o pai, onde está que não “brinca” de viver uma casinha de verdade com a mãe e os filhos? Está na hora de desconstruirmos muitos paradigmas, e para isso são necessários esforços e revisões constantes em nosso modo de agir e pensar.

Quando um garoto brinca de boneca e cozinha nas panelinhas, está apenas vivenciando no universo lúdico a experiência de cuidar da casa (comum+unidade = comunidade) e dos outros, está ampliando sua autonomia. O problema está quando se associa a atitude de ninar uma boneca a um comportamento “afeminado” pejorativamente. Se assim fosse, todo homem que carrega seu filho nos braços estaria se “afeminando”.

A menina que brinca de carrinho ou joga futebol se coloca em contato com um atividade/esporte culturalmente masculino, mas que para ela na infância era apenas “brincar com o pai”. Praticar um esporte aprimora a noção espacial, e torna homens e mulheres bons motoristas, além de ajudar a desenvolver a imaginação à medida que vivencia seu lado criativo; auxilia na criação de regras, controle de velocidade e absorção das noções de tempo e espaço.

O que esperamos com isso?

É muito importante para o menino se conectar com o seu lado acolhedor, afetuoso, empático, flexível e amável, pois a mulher há tempos vem lidando com seu lado audacioso, regrado, estando à frente de tomadas de decisões. E o que isso significa?  Esperamos que signifique a construção de um futuro mais humanizado, onde mulheres e homens se compreendam mais, sem repressão, sem piadinhas e sem preconceitos. O que importa é nos olharmos como seres humanos, que temos as mesmas dores, os mesmos sentimentos, que podem ter as mesmas perdas ou alegrias, mas onde todos permaneçam com seu direito à vida, respeitando-se as diferenças.

Dnair Rosileni Casarini Silva

Psicologa e Psicopedagoga

CRP 08/04234

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