Psicologia geral

Meu filho é inteligente? 

Há muito tempo – acho que foi um dos meus primeiros pacientes, e também uma das minhas primeiras lições aprendidas – atendi uma criança com queixas escolares. Dificuldade de concentração, notas baixas, desinteressado em aprender.

Esta era a queixa. Quando o conheci, ao conversar com ele, brincar, jogar, não percebia tantas dificuldades. Iniciamos os testes, e durante as sessões sempre deixava um tempo livre para que eles façam o que quiserem, desta forma eu os podia conhecer melhor. A mãe já havia feito uma reclamação sobre a quantidade de papel que ele gastava, e é obvio, ele me pediu papel.

Pegou uma tesoura, e corta daqui, dobra dali… e aparecia um relógio, um animal e tantas outras coisas. Fiquei perplexa com a habilidade manual e artística daquele menino. Ele era capaz de olhar para uma folha de papel, dobra-la inúmeras vezes (não era origami) e fazer um cachorro, por exemplo. Eram esculturas. Fui à escola, tive uma conversa com a professora sobre o que tinha observado, e pensamos juntas em como inserir estas habilidades no cotidiano escolar dele.

O que é inteligencia?

E foi esta minha intervenção, os testes foram absolutamente desnecessários. Havia uma habilidade sendo brutalmente negligenciada. As queixas todas cessaram rapidamente. E porque estou contando esta história? A ideia é questionar o que é Inteligência. De acordo com o dicionário, inteligência é a faculdade de conhecer, de compreender. É o que caracteriza o humano, aquilo que o distingue animal bruto. Engloba:

  • Compreensão;
  • Conhecimento profundo:
  • Ter inteligência para os negócios;
  • Destreza,
  • Habilidade.

Mas o conceito de inteligência é muito mais abrangente que uma simples definição. Quando nos debruçamos sobre o assunto ele parece muito mais amplo. Algumas pessoas associam inteligência com capacidade de memorização, outras com facilidade de aprendizagem. Durante muito tempo o conceito e os parâmetros para “medir-se” a inteligência (testes de QI), usaram somente as capacidades de raciocínio lógico matemático, memorização e compreensão.

Uma nova concepção de inteligência

Muito recentemente é que se começou a discutir, pesquisar e pensar a inteligência sobre outros prismas. A partir da década de 1980 uma equipe de investigadores da Universidade de Harvard, liderada pelo psicólogo Howard Gardner, buscando analisar e descrever melhor o conceito de inteligência, desenvolveu o conceito de inteligências múltiplas, uma forma diferente de olhar e entender a inteligência, não como uma coisa única que nasce ou não com a pessoa, e sim como uma função com várias divisões que podem ter seu desenvolvimento em níveis diferentes.

Denominou-se inteligências múltiplas à teoria desenvolvida, Gardner afirmou que o conceito de inteligência, como tradicionalmente definido, não era suficiente para descrever a grande variedade de habilidades cognitivas humanas. Desse modo, a teoria afirma que uma criança que aprende a multiplicar números facilmente não é necessariamente mais inteligente do que outra que tenha habilidades mais forte em outro tipo de inteligência.

A criança que leva mais tempo para dominar uma multiplicação simples, pode aprender melhor a multiplicar através de uma abordagem diferente, pode ser excelente em um campo fora da matemática ou pode até estar a olhar e compreender o processo de multiplicação em um nível profundo. Neste último exemplo, uma compreensão mais profunda pode resultar em lentidão, que parece esconder uma inteligência matemática potencialmente maior do que a de uma criança que rapidamente memoriza a tabuada, apesar de uma compreensão menos detalhada do processo de multiplicação.

Um outro exemplo que evidencia esta teoria é o fato de crianças disléxicas (que tem dificuldade na compreensão da língua escrita) geralmente terem um ótimo desenvolvimento na área da matemática, ou serem capazes de uma ótima memorização de conteúdos verbais e reprodução também verbal destes.

Mas estes exemplos ainda estão presos aos processos racionais e escolares. Esta teoria vai além, analisa capacidades espaciais, de inteligência corporal e de comunicação, por exemplo.

Nossa inteligencia pode ser ampliada?

Gardner ainda afirma que estas inteligências apresentam-se de duas formas. Algumas pessoas já nascem com determinadas inteligências, ou seja, a genética contribui. Porém, as experiências vividas também contribuem para o desenvolvimento de determinadas inteligências.

Os estímulos e o ambiente social são importantes no desenvolvimento de determinadas inteligências. Se uma pessoa, por exemplo, nasce com uma inteligência musical porém as condições ambientais (escola, família, região onde mora) não oferecem estímulos para o desenvolvimento das capacidades musicais, dificilmente este indivíduo será um músico.

Por isso é importante compreender a inteligencia para além das notas escolares. Aliás, quantas vezes atendo crianças que chegam com queixas escolares e ao fazer um teste de QI a surpresa de um índice muito acima da media. Precisamos mudar o olhar, enxergar as potencialidades de cada criança para assim estimula-la e não ficar tentando encontrar uma habilidade que por vezes não esta lá, e negligenciando outras tantas que só esperam por estímulo.

Os tipos de inteligência

Para Gardner as inteligências são:

  • Lógica – voltada para conclusões baseadas em dados numéricos e na razão.
  • Lingüística – capacidade elevada de utilizar a língua para comunicação e expressão.
  • Corporal – grande capacidade de utilizar o corpo para se expressar ou em atividades artísticas e esportivas.
  • Naturalista – voltada para a análise e compreensão dos fenômenos da natureza (físicos, climáticos, astronômicos, químicos).
  • Intrapessoal – pessoas com esta inteligência possuem a capacidade de se autoconhecer, tomando atitudes capazes de melhorar a vida com base nestes conhecimentos.
  • Interpessoal – facilidade em estabelecer relacionamentos com outras pessoas.
  • Espacial – habilidade na interpretação e reconhecimento de fenômenos que envolvem movimentos e posicionamento de objetos.
  • Musical – inteligência voltada para a interpretação e produção de sons com a utilização de instrumentos musicais.

Podemos pensar em pessoas que exemplifiquem cada uma ou mais de uma inteligência: para cada uma delas:

  • Inteligência corporal cinestésica e espacial – Diego Hypólito e Daiane dos santos – têm habilidade de domínio do corpo e do espaço para poder realizar os saltos da ginástica olímpica.
  • Inteligência espacial – Oscar Niemeyer – capacidade de imaginar e projetar edifícios belíssimos, com desenhos e formas diferenciadas.
  • Lógico-matemática – Albert Einstein, Stephen Hawking – gênios da matemática e da física.
  • Inteligência linguística e interpessoal – Silvio Santos – comunicador nato, sabe como atingir as pessoas através do que fala, para uma boa comunicação também é essencial uma boa percepção do outro.
  • Inteligência Linguística – Carlos Drumond de Andrade – um dos maiores nomes da poesia brasileira.
  • Inteligência musical – Mozart, Caetano Veloso.
  • Inteligência Intrapessoal – Sigmund Freud, Carl G. Jung – muito de suas teorias e métodos partiram da capacidade de analisarem a si mesmos.

Desta forma, determinar se uma criança é inteligente ou não não está a cargo apenas de testes e notas escolares. Requer de muita observação, estimulo e liberdade para que ela possa se expressar e mostrar seus interesses e aptidões.

E então, seu filho é inteligente?

Bibliografia:

Inteligências Múltiplas: a teoria na prática. Howord Gadner, Artmed.

Maria do Rosario Teixeira Aquino Teixeira Aquino
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