Psicologia geral

Mulher: jornada de múltiplas batalhas

Mulher. O que quer uma mulher? Antes mesmo da interrogativa em Freud, no início do século XX, o mistério que circunda questões da mulher e do feminino já se apresentava fortemente em aflição e ainda hoje continua a atormentar os pensantes e curiosos, que por sorte, azar ou impossibilidade, permanece em segredo cifrado.

Muitas são as pistas que nos levam justamente para este lugar: do indecifrável, de não resposta – ou mesmo, não-toda resposta; sendo, portanto, o segredo, tesouro de Pandora (que não por acaso se inscreve no eixo feminino). Trazendo à palavra uma breve retrospectiva social, no qual a posição da mulher se faz nosso objeto de interesse, é notável e por isso fácil dizer que desde os primórdios da tradição judaico-cristã, onde Eva era perigosamente sedutora, existe uma misoginia estrutural nas civilidades próprias de seus tempos (ao longo de toda a história). Ora altamente declarada e violenta, ora parcialmente velada e, também, claro, violenta.

A mulher carrega na sua história não só o símbolo do pecado e transgressão, herdado de Eva, mas diversos outros nomes (e sentenças) que lhe são conferidos ordinariamente e sem contenções: louca, puta, bruxa, histérica e por aí vai muito mais. Para a louca, manicômio; para a puta, bordel; para a bruxa, fogueira; para a histérica… bem, há quem diga que o que lhe falta é amor – ou ser amada? Ah, lembrei-me: ser comida, e muito bem comida – por um homem, aliás. O que lhe falta é um pênis. Fato é que por ameaça, sedução, potência ou diferença, a mulher era altamente reprimida em todas as esferas possíveis: social, profissional, familiar. A mulher era uma “fora da lei”, afinal a simulada democracia se apresentava para todos, e não para todas.

Com a chegada da modernidade, a tecnologia e o capitalismo fundaram brechas importantes para a ascensão da mulher e do direito da mulher no contexto social que se fazia existir. Ali havia a chance de embarcarem para fora de seus lares domesticados por seus maridos e suas laboriosas normas, a fim de buscarem oportunidades de emprego e independência – eis a entrada das mulheres no mercado de trabalho. Mas, bem, lugar de mulher é onde ela quiser? Ainda não. Essa árdua conquista no campo profissional há pouco falada também trouxe à tona mais ameaça (em tom fálico, por assim dizer), apesar de não competirem diretamente com os “cargos masculinos”. 

Que potencialidade é essa que tem uma mulher e que se faz necessário reprimi-la de tal forma? Desde a concepção da filosofia grega e romana, logos – a lógica é masculina, pathos – a paixão, feminina. Assim dividiu-se as ocupações e limitações da presente esfera binária, de homens e mulheres, bem como suas definições biologicistas e sexistas (e por isso, também reducionistas). Aqui cabia-lhes, às mulheres, apenas profissões (se, por grito, assim eram definidas) clássicas que se alargavam deste lugar “primitivo” derivado do materno: o de cuidar.

Em geral, tornavam-se professoras ou enfermeiras e que, curiosamente, ainda são erotizadas por suas profissões até os dias atuais, devido a este imaginário equivalente a “erotização materna” e a primeira experiência de satisfação do sujeito. Essa fantasia infantil diz, de fato, da nossa primeira experiência erótica: quando a mãe ou quem ocupa a função materna nos cuida, higieniza, acalenta, amamenta etc. A troca corporal é altamente prazerosa para ambos, especialmente para o ser-cuidado, e renunciar a evocação dessa fantasia não parece ser uma pauta possível para tantos. Mas a roda evolutiva da civilização e cultura não para por aí e as mulheres não se contentam no enquadramento vigente da ocasião.

Essa roda, que não cessa de não parar, nos leva a pós modernidade, onde a democracia é fortemente questionada, bem como suas leis, funções, lugares, entre mais – uma vertigem. O feminino e o masculino, no enquadramento do pensamento de gênero e seus desdobramentos, também habitados neste imaginário-social, passam por grandes reformas e debates. A mulher, aqui, tem acesso a pílula anticoncepcional, dando-lhe autonomia para exercer sua sexualidade, desejo de maternidade ou não, com mais autogoverno. Instaura-se, portanto, a Era do Poder: poder dizer, poder escolher, poder ser, poder renunciar etc. Cada um que se responsabilize por se fazer sujeito da própria história e por este ‘saber fazer aí’ que implica em múltiplas escolhas, renúncias, equívocos e contingências.

Um sujeito de poder e empoderamento. As mulheres entram cada vez mais no mercado de trabalho e competem com os homens, cara-a-cara, por cargos diversos (de áreas e hierarquias). As plataformas e veículos de formação, informação e conhecimento passam a ser mais acessíveis. Aqui, as mulheres recusam casamento, recusam maternidade, recusam até empregos pois há outras oportunidades melhores, e porque podem… e querem. A mulher (e, claro, não somente ela) passa a ter alguma margem de liberdade diante de seu “destino” e desejo, pois aqui “somos todos iguais perante a lei” – que decerto não se aplica em totalidade. O lugar da mulher é, finalmente, pluralizado e metamorfoseado. Mas a roda, como dito, não cessa de não parar – para bem e para mal, e estamos falando de jornadas e batalhas, certo? Ainda não se viu, na história dos sexos, a bandeira branca da paz. Talvez agora possa ser multicolorida e não nos atentamos, ou de cor nenhuma. A igualdade permeia, longínqua, apenas em nossas fantasias.

Seguimos no percurso da história, seus avanços e retrocessos. Agora a mulher que tem voz, desejos, direitos, emprego e família, precisa se ocupar dessa extensa gestão de funções e espaços. De maneira bastante assimétrica, as ocupações gerais de uma mulher ultrapassam sequer o imaginário do homem que tenta – em alguma medida – se pluralizar (ou se feminizar). A divisão de tarefas gerais não se ajusta em igualdade. A mulher, para fazer sustentar todos esses percursos de luta e liberdade, se desdobra em várias jornadas, diariamente.

Seu trabalho é quase ininterrupto e de duplo (ou mais) turno. Diante deste cenário de avanços e conquistas, também se faz notar um curioso movimento entre os homens perante a essas “novas” mulheres. Aqui os homens já não sabem muito bem do que se trata o feminino ou mesmo a própria mulher inscrita nesse eixo (ainda que noutros tempos também nunca haviam sabido, mas pensavam saber). Perde-se o referencial do padrão por eles, majoritariamente, implantado. Eles não sabem o que esperar, quais são suas potencialidades e força, quais são seus desejos. O que querem? E mais: os homens não sabem o que fazer com o próprio feminino (o que há em si), uma vez que este ganha um furor colorido por ser pauta onipresente da atualidade ativista. A ascensão das mulheres faz acender o feminino dos homens numa extimidade lançada a público de si mesmo, e que tanto lhes causa horror por apontar para um certo vazio, uma certa ausência – uma certa castração. Deparam-se, homens e mulheres, com os lados da sexuação dos seres falantes: o feminino e o masculino, e o que circunda o gozo de cada qual na sua órbita limitada ou ilimitada.

O enigma dos lados se fortifica dentro, mas também na medida em que o movimento feminista (e seus braços afluentes) se alastra na cultura engessada pelo patriarcado. As mulheres começam a querer saber mais sobre si, sobre as outras mulheres, sobre seus direitos, desejos e sexualidade. Um querer saber que, como a roda, não para de tentar se inscrever, e que nos leva a Lacan quando este diz: “A mulher não existe”. O artigo definido não existe, portanto o que há aí é uma mulher e, então, outra mulher. Temos, pois, isso que faz oposição ao universal.

Pois bem, o querer saber, que agora é mesmo um poder fazer-com-isso, instaura uma série de desconstruções do que antes pensávamos (e vivíamos) sobre a organização social enquanto um sistema de míseras restrições. Este mesmo sistema está desfalecendo por já não comportar os velhos moldes (a roda não para!). Os homens (e também muitas mulheres), assustados diante da velha, porém encoberta ameaça, se intimidam e amedrontam diante da nova mulher e, com sorte, muitos exercitam suas autocríticas sobre comportamentos, pensamentos e discursos.

O que pode viabilizar o passaporte para a edificação de uma civilidade mais justa e igualitária quando se trata dos sexos? Como transcender a lógica binária, como romper com a estrutura vigente e obsoleta que nos conduz a sola de nossa própria devastação? Há que se apostar em algum fazer-aí; uma invenção, uma criatividade ou mesmo, uma bruxaria.

 

Juliane Mena Tôrres | 26.11.2020 

 

Referências Bibliográficas:

Texto escrito a partir de aulas ministradas pela psicanalista Maria Homem em seu “pocket” curso realizado em parceria com a Casa do Saber.

http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_10/A_fala_escrita_mulher_que_nao_existe.pdf

LACAN, J. (2009[1971]). O seminário, livro 18: de um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Zahar.

LACAN, J. (2008[1964]). O   Seminário, livro   11:   os   quatro   conceitos   fundamentais   da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

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