Desenvolvimento pessoal

Namoro por aplicativo na quarentena

Escrevo este artigo no momento em que as vacinas já estão sendo aplicadas no grupo etário de 90+. Quer dizer, no momento em que ao brasileiro está sendo apresentada a sua libertação desse jugo tão severo de quase um ano: a Covid 19.

Mas essa libertação é algo que, por enquanto, promete lentidão e propõe dúvidas várias. As perspectivas da quarentena e da solidão forçada ainda são bem concretas. É à luz disso que estou falando.

Namorar tem sido, através da história da humanidade, uma fonte de felicidade e um forte chamariz para a reprodução da espécie. Não fossem os atrativos do namoro, ninguém se aproximaria do outro para o mister da procriação. E continua sendo assim agora, na pandemia.

O namoro por aplicativo

Dentro desse panorama, o namoro por aplicativo tem sido uma temática muito presente no consultório, principalmente entre os mais jovens. 

A solidão, provocada pelo confinamento compulsório, traz consigo grande ansiedade. Além disso, o confinamento dentro da família, com um contato forçado com as mesmas pessoas, todos os dias, traz à tona conflitos que já existiam e agora são maximizados, exigindo novas e complexas adaptações que, muitas vezes, são de extrema dificuldade.

O namoro por aplicativo, ao mesmo tempo que promete um alívio para as ansiedades do relacionamento humano, parece que acaba sendo apenas mais uma oportunidade de evidenciar as mesmas questões. Diante disso, o psicólogo pode entrar em cena e desvendar esses emaranhamentos, ajudando a desmanchá-los, ajudando o paciente a resgatar seu equilíbrio emocional.

Um exemplo clínico

Vou exemplificar com um caso do meu consultório. Ana tem 35 anos, é pesquisadora de marketing qualitativo e agora está confinada, trabalhando de casa e comparecendo ao trabalho presencial apenas uma vez por semana.

É solteira e reside com os pais e um irmão de 32 anos. Ana já se tratava comigo antes da pandemia e vem relatando um alto grau de ansiedade, desde o início da quarentena. Nesta fase, todos os conflitos que já tinha com os pais e com o irmão agravaram-se, exigindo dela muita flexibilidade e muita sensibilidade para com a ansiedade de seus familiares, sob risco de agravar esses conflitos.

É natural que Ana tenha recorrido a um ou dois aplicativos de namoro, buscando uma válvula de escape para sua ansiedade. Em outras palavras, buscando ali o Elixir do Amor, essa poção arquetípica que todos os seres humanos buscam, mais cedo ou mais tarde, para fazer face aos seus anseios mais íntimos de harmonia sentimental e sexual com alguém, e para neutralizar as dores da ansiedade.

Mas, essa busca tem sido pouco recompensadora, surgindo várias decepções que se vão acumulando e gerando uma descrença generalizada na possibilidade de tal harmonia vir a ocorrer algum dia.

Em meio a essa descrença generalizada, existe também o medo com relação à contaminação, que leva a evitar o encontro presencial, permitindo apenas o encontro virtual. E no encontro virtual, são exigidas práticas muito sutis de relacionamento à distância, que antes da pandemia não entravam em cena.

Defrontada com isso, Ana se vê exigida no sentido de oferecer uma presença muito mais convincente do que antes, uma presença que fale por si mesma, sem o recurso à estimulação sexual que antes era tão mais fácil. Pensando bem, a quarentena está exigindo um aperfeiçoamento bem-vindo para o relacionamento humano.

Vejamos uma sessão com Ana, realizada online – como é praxe agora no confinamento. Esta sessão tem como ponto de partida o namoro por aplicativo e, como veremos, acaba desdobrando-se em algo muito mais profundo e significativo. Por motivos éticos, os dados pessoais estão modificados, de maneira que nem a paciente nem outras pessoas possam reconhecer de quem se trata.

(Ana aparece na plataforma virtual. Dá para perceber que está de mau humor).

Terapeuta: – Oi Ana, tudo bem?

Ana – Não, nada bem. Hoje fiquei conhecendo mais um paquera de aplicativo.

– Ah, é? E o que rolou? Você parece tão chateada.

– O de costume, a coisa começa animada e, aos poucos, vai se transformando na mesma coisa sem graça, irritante. Já dá pra perceber que não vai levar a nada, igual os outros.

– Você precisa lembrar que o momento é outro, não é a mesma coisa como era. No momento, parece que não vai dar nada certo, porque as circunstâncias não favorecem. Afinal de contas, o que pode acontecer num encontro apenas virtual? Mas este é um momento muito precioso, em que podemos desenvolver outras capacidades humanas. Por exemplo, num relacionamento sentimental online, são exigidos talentos diferentes. Talentos mais sutis do que aqueles que entravam em cena antes da quarentena: o talento da compreensão, o talento da paciência, o talento do calor humano. Enfim, o talento de ir muito mais fundo num relacionamento, permitindo que esse relacionamento atenda muito melhor às necessidades de ordem interpessoal, buscando um ajuste muito mais fino. Coisas que não eram exigidas anteriormente, porque o presencial tapava essas necessidades. O presencial oferecia o calor prematuro da sexualidade, dentro do qual o resto desaparecia antes da hora.

– Mas como chegar a isso? Parece tão difícil…

– Vamos trabalhar isso em Nível Aprofundado de Consciência, usando o recurso da Imaginação Ativa. Peço que você se deite e vá seguindo minhas instruções.

Neste momento, aplico meu roteiro de imersão no Nível Aprofundado de Consciência, que, em outras palavras, conduz ao Relaxamento Profundo. A partir do Relaxamento Profundo, o Inconsciente de Ana emerge, aparece de maneira que possamos trabalhar com ele. Trabalhar com o Inconsciente é uma maneira excelente de promover uma transformação emocional, de enfraquecer os conteúdos negativos e instalar todo um processo curativo. Neste momento, dou início ao procedimento da Imaginação Ativa:

Terapeuta – Qual é a primeira imagem ou ideia que aparece para você?

Ana – Estou vendo esse rapaz que conheci hoje. Ele me parece chato, inseguro. Não gosto de homem inseguro, me dá raiva.

– Acho que ele está inseguro exatamente porque você está com raiva dele. Por outro lado, você está com raiva porque ele não oferece para você a proteção de que você precisa. Vocês dois estão reagindo a uma situação que vai contra aquilo que vocês precisam. Neste momento, olhe para ele e veja como ele se sente ameaçado, inseguro. E, olhando mais fundo, você consegue enxergar a criança ferida que existe dentro dele. Veja como essa criança ferida sofre. Veja como essa dor, esse sofrimento, manifestam-se nessa insegurança dele. Olhe agora para você, dentro dessa cena. O que você vê?

– Agora estou sentindo a criança ferida não só dentro dele, mas também dentro de mim, toda a carência afetiva dessa criança que precisa de um pai forte, protetor, que a valorize. 

– Você pode proteger essa criança?

– Não, não posso. Eu a desprezo. Sinto aversão, sinto vontade de bater nela.

– Olha só, é isso que você faz com você mesma. É isso também que você faz com esse rapaz que você conheceu hoje pelo aplicativo. É esse o teu mundo interior – nele os fracos são inferiores a serem desprezados, rejeitados. Os fortes são superiores e merecem tudo de bom. É um mundo cruel, dentro dele você sofre. E agora, o que você está vendo, ou sentindo?

— Agora vejo a criança sofredora que existe dentro dele pedindo colo. Eu me vejo dando esse colo, a princípio sem muita vontade. Mas logo começo a sentir pena dessa criança e começo a cuidar da ferida dela. Parece que tudo melhorou, dá para respirar bem melhor.

– Aproveite este momento para permitir que a sua compaixão se expresse. Veja e sinta como de dentro dessa sua compaixão brota uma substância curativa. Que cor é essa substância?

– É dourada… Ela se derrama sobre a ferida dessa criança, e penetra fundo dentro dessa ferida. Engraçado, agora vejo duas crianças feridas – aquela que vive dentro dele e também aquela que vive dentro de mim.

– Ana, perceba que além dessas duas crianças feridas que estão aproveitando esse momento curativo, muitas outras crianças feridas estão surgindo, de todos os lados, querendo aproveitar esse bálsamo curativo.

Ana (que é muito sensível à indução, em Nível Aprofundado de Consciência) – Sim, consigo enxergar isso. E fico muito feliz em perceber que o bálsamo curativo vai saindo de mim e vai se derramando nessas muitas crianças e em suas feridas.

– Muito bem. Permaneça vendo e sentindo isso mesmo, prolongando este momento de cura. Agora, vamos preparar esta imagem tão bela, verdadeira e curativa para que você possa usá-la a qualquer momento. Vamos levar esta imagem para dentro daquela esfera prateada bem brilhante que tem o poder de proteger suas imagens. E agora damos um empurrão nessa esfera e ela começa a girar em grande velocidade, promovendo a fixação dessa imagem em todos os níveis de consciência, de maneira que ela possa ser evocada em momentos de mais necessidade. 

Em seguida, promovo a saída gradativa de Ana do Nível Aprofundado de Consciência.

A técnica da Imaginação Ativa

Como podem ver, uma parte muito forte da minha atuação dá-se no campo da Imaginação Ativa. Nesse campo, conto com todos os talentos criativos da própria paciente. Em contato com seus próprios dons curativos, a paciente vai resgatando seu universo potente, sua autoestima, toda aquela sua natureza saudável que já era sua, mas ela não sabia e acabou perdendo. 

É necessário destacar que a minha participação no procedimento de Imaginação Ativa é fundamental. Pois também participo do Nível Aprofundado de Consciência, “viajando” junto com a paciente, partilhando dessa consciência aprofundada. E, é claro, partilhando os benefícios de todo o procedimento.

Numa confirmação, desta vez muito positiva, de que estamos todos juntos na mesma rede holística. 

Autora: Marina Tschiptschin Francisco

 

Bibliografia

LOMAS, Tim et al. Second Wave Positive Psychology: Embracing the Dark Side of Life, Routledge, New York and London, 2015.

JUNG, Carl Gustav – Obra Completa, 33 vols. – Ed. Vozes. Petrópolis, 2020.

MARINA TSCHIPTSCHIN FRANCISCO
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