Desenvolvimento pessoal

Nossa criança interior e sua influência em nosso “eu” adulto

A criança interior é uma parte da nossa mente que experimentou a vida e se adaptou a certos comportamentos e padrões para viver. É uma parte inconsciente de nossa mente, onde carregamos nossas necessidades não satisfeitas, emoções reprimidas da infância, nossa criatividade, intuição e capacidade de brincar.  

A criança interior é aquela que se manifesta em nós e cujas experiências ainda não “foram embora”. Muitas vezes, ainda vemos o mundo através dos olhos de nossa criança.  

O relacionamento que tivemos com nossos pais em nossa infância molda cada relacionamento que temos na fase adulta. Quando crianças devemos aprender a nos expressar, dizendo como nos sentimos. Precisamos de uma figura adulta para nos guiar em meio às “grandes emoções” vivenciadas nessa fase.

Nós queremos e precisamos ser vistos e ouvidos pelos nossos pais. Mas a maioria de nós nasceu de pais que carregam seus próprios traumas não resolvidos, herdados de seus próprios pais. Desta forma também é difícil para eles saber como regular suas próprias emoções e, portanto, não conseguem lidar bem com as nossas.

Buscamos então lidar com essa realidade, adaptando-nos. Para a maioria de nós, isso significa agradar aos nossos pais, de forma a nos tornar o que eles esperam que sejamos.  

A tendência, em geral, nessa busca para agradar aos pais é que nos comportamos da maneira  que eles valorizam e veem como “boas” e rejeitamos as partes de nós mesmos que são vistas por eles como vergonhosas ou “más”.  

A criança interior ferida  

Todas as emoções não resolvidas, necessidades que não foram atendidas e situações dolorosas em que nos sentimos assustados ou violados não desaparecem simplesmente. Eles existem  dentro de nós, criando uma lente através da qual passamos a enxergar o mundo.  

Uma criança interior ferida nos causa

  • Baixa autoestima,
  • Imagem corporal distorcida,
  • Medo de críticas,
  • Resistência a mudanças,
  • Profundo medo de abandono nos relacionamentos.  

Essas vivências em nossa infância podem fazer com que nossas fantasias infantis se tornem recorrentes e venham à tona em diferentes situações em nossa vida adulta.  

As fantasias da criança interior funcionam como professores que nos permitem ver onde precisamos de cura. Onde precisamos honrar a parte de nós mesmos que não conseguiu o que precisávamos, em uma fase muito importante de nosso desenvolvimento. 

As “verdades” que nos foram ditas 

Em geral, a criança toma tudo que lhe é dito como verdade, principalmente se essas falas são pronunciadas pelos, pais, professores, avós ou demais pessoas que a criança entende como sendo importantes ou referência em suas vidas.  

Acontece, porém, que nem todas as coisas que ouvimos nessa fase de nossas vidas foram positivas e isso, infelizmente, pode ter nos deixado confusos, assustados e até mesmo desconectados da nossa natureza infantil.  

Alguns exemplos comuns dessas falas entendidas pela criança como “verdade”, são:

  • Você é muito…” (chato, fraco, sério, barulhento, burro, etc.);
  • Você não é bom o suficiente em…” (matemática, esportes, fazer amigos, etc.);
  • Você não tem modos”;
  • Você deveria ser como…” (seu irmão, seu colega, seu primo);
  • Desse jeito, você nunca terá…” (amigos, emprego, um amor);
  • Foi culpa sua se eu…” (Gritei, te bati, fiquei zangado).

Sinais de que sua Criança Interior pode estar ferida  

  • Medo de receber críticas;
  • Medo ou vergonha de se expressar em algumas situações;
  • Tendência a esperar que outras pessoas falem primeiro para saber o que é “certo” fazer ou dizer, ou de que forma se posicionar;
  • Colocar-se em situações onde se tenta ajudar ou “salvar” alguém;
  • Dificuldade em dizer “não”;
  • Sentir-se responsável pelas emoções dos outros.

Esses são apenas alguns exemplos de como a criança interior ferida se expressa.

O que ocorre na maioria das vezes é que não damos a devida atenção para esses sinais. Nossa tendência é descartar ou invalidar essas emoções, como o pai ou a mãe fizeram no passado. Dessa forma, mantemos o ciclo e nossa Criança Interior permanece não sendo ouvida e se manifestando em momentos de nossa vida adulta em que somos confrontados com experiências que nos remetem a alguma experiência já vivida.  

Um exemplo

Vamos imaginar a cena de Marcos, que acabou de receber um telefonema de seu chefe solicitando que faça duas alterações na planilha enviada, pois mesmo que o trabalho esteja bom, esses ajustes se fazem necessários.  

Marcos gagueja, envergonha-se, e embora o chefe afirme que o trabalho esteja muito bom, Marcos se sente incapaz, e pensamentos como “não sou bom o bastante”, “nunca faço nada direito”, inundam sua mente.  

Isso acontece porque, embora o seu “eu adulto” tenha entendido que apenas alguns ajustes são necessários, sua criança interior está assustada porque uma memória infantil foi acessada. Quando Marcos tinha 9 anos, e foi até seu pai mostrar que tinha se saído bem na prova de matemática, com nota 8,0, a resposta que teve de seu pai foi: “Quando você vai conseguir tirar 10,0 igual o seu irmão?”. 

Naquele momento seu “eu infantil” foi constrangido e diminuído. A pessoa que Marcos queria agradar com a nota 8,0 o deixou se sentindo inferior.  

No telefonema do chefe, a criança interior de Marcos estava com ele e reviveu a situação de sua infância. Por esse motivo, sentimentos como “não faço nada direito”, “não sou bom o bastante” se fizeram presentes.  

Como acolher e lidar com nossa Criança Interior?  

Neste exato momento nossa criança interior está experimentando incertezas, medo, confusão.

Quando comecei a acolher minha criança interior, percebi quantas vezes neguei minha própria realidade. Quanta dúvida e medo carreguei.  

Começar a validar (ouvir e ver) a criança interior como um pai amoroso e sábio, pode parecer estranho ou bobo no início. Não se assuste, é perfeitamente normal. O ego vai resistir a este  trabalho porque está sempre procurando proteger a criança interior.  

O ego dirá coisas como “isso é bobagem”. Ou “que perda de tempo”. Apenas observe, pois isso faz parte do processo.  

O trabalho com a criança interior causa empatia por nós mesmos, por nossos pais, e até pelos outros pois, muitas vezes, a partir da cura de nossa criança, conseguimos sentir a criança interior  de outras pessoas se manifestando diante de alguma situação.

Acessando nossa Criança Interior  

Existem muitas técnicas que nos ajudam a acessar nossa Criança Interior e muitas emoções surgirão à medida que esse “contato” for acontecendo.  

Seguem alguns exercícios que você pode usar para iniciar um processo de resgate de sua Criança Interior:  

Frases que você pode usar para iniciar o processo de cura de sua criança interior:

Em um lugar tranquilo, respire profundamente, ponha a mão em seu coração, conecte-se com sua criança interior através de memórias de sua infância. Permaneça por alguns minutos acessando suas memórias infantis. Caso seja difícil pra você lembrar de muitas situações da infância, você pode fazer esse exercício olhando fotos sua quando criança.  

Repita então as frases seguintes para sua criança interior:  

  • “Eu estou segura(o) sendo eu mesma(o)”;
  • “Você está segura(o) agora”;
  • “Está tudo bem sentir medo, eu estou aqui, entendo seus medos e protejo você”;
  • “Você não precisa ser o que não é para agradar os outros e eu também não preciso ser assim”;
  • “Nossos pais são seres humanos feridos também, que podem ter, inconscientemente, projetado seus traumas em nós. É importante perdoá-los”;
  • “Eu te amo, eu me amo. Nós estamos seguras(os) agora.”

Celebre o nascimento de sua Criança Interior

Independente de como você foi recebido ao nascer, se você foi planejado ou não, se seus pais celebraram ou não o seu nascimento, reserve um momento para celebrar e dar as boas vindas a sua criança interior. Nesse momento, diga à sua criança, tudo que diria a um bebê muito amado e esperado que tivesse acabado de nascer.

Pense em tudo que você sempre quis ouvir de seus pais e diga a sua criança, expresse o seu amor. Deixe que sua criança saiba o quanto ela é amada por você. 

Brinque com sua Criança Interior

Você lembra do que gostava de brincar quando criança? Lembra seu desenho, filme ou música  preferida? Quando foi a última vez que você fez alguma dessas atividades?  

Vamos permitir que seu lado infantil venha à tona! Guarde um tempo para se divertir! Assista  aquele desenho que você adorava quando era criança, coma aquele doce que você pedia sempre aos seus pais, pule, dance, cante…  

Veja outras crianças brincarem, isso também vai te trazer lembranças de suas próprias brincadeiras.  

Esses exercícios podem gerar muitas emoções, por isso não tenha pressa, faça no seu tempo. Se necessário, pare, respire, reinicie em um outro dia.  

Curar a jornada interior é um processo muitas vezes LONGO. É onde aprendemos a ter paciência e aceitação por nós mesmos e por nossa história.  

Michelly Fernandes – CRP 05/28290  

Bibliografia:

  1. Pollard, John K. – Self Parenting: The Complete Guide to Your Inner Conversations – Paperback 1987
  2. Hay, Louise L. – O Poder está em você – São Paulo: Madras, 2015
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