Desenvolvimento pessoal

O ciúme e suas faces

O ciúme e suas faces

Já percebeu que comumente as pessoas que sentem ciúme em demasia, não sabem exatamente o motivo que as fazem ser assim?

Outros dizem que o ciúme faz bem, porém deve ser bem dosado, assim como “uma pitadinha de sal no relacionamento”, e você,  o que acha sobre esse assunto?

Pois bem, irei abordar algumas possíveis formas de se pensar como o ciúme é sustentado, porém ressalto que não estou afirmando que todos os casos se baseiam exatamente no que irei escrever, afinal, toda a causa suscita em nível individual.

Projeção

Projeção é um dos mecanismo de defesas da psique. Os mecanismos são movimentos inconscientes, que na realidade se exteriorizam em deformação da causa que sustenta a problemática do sujeito, ou seja, o fato da causa ser algo “traumático” ou mesmo inconscientemente, faz com que o indivíduo crie um “esconderijo secreto”, tão secreto que o próprio sujeito se esquece de quando e como escondeu.

Mas delimitando este assunto à projeção inerente ao ciúme, este mecanismo de defesa sucintamente se movimenta em direcionar ao outro aquilo que se sente, como se o outro estivesse sentindo ou pensando o que você está sentindo ou pensando, mas isso ocorre geralmente na esfera negativa.

Por exemplo, pela via do ciúme, imagine que você, mesmo sem intenção de praticar, deseja ficar com outras pessoas para além de seu(a) parceiro(a), e através desse desejo próprio, que fica insuportável a si mesmo, então “aponta” a quem está se relacionando, como um(a) traidor(a)!

Este movimento se manifesta conscientemente, mas suas raízes estão no movimento inconsciente, ou seja, aquilo que o impulsiona a tomar a atitude de apontar seu(a) parceiro(a), comumente esta em nível inconsciente, por trás de seus motivos de acreditar ou desconfiar que esta sendo traído(a).

Poder

Podemos pensar neste quesito em vários aspectos, financeiros, estético, dentre outros, reconhecendo que todos nós seres humanos estamos envolvidos em uma cultura, os padrões são criados e compartilhados socialmente através da linguagem, o que possibilita a todos nós termos conhecimento daquilo que “está em alta”, numa tentativa fantasiosa de poder, ou seja, aqueles que possuem e estão de acordo com o que culturalmente está sendo reconhecido como “o certo, o errado, o belo e o feio, se encaixa nos padrões ou são marginalizados (colocados às margens em relação ao centro).

Direcionando este conceito ao ciúme, podemos imaginar que se você escolhe e está com alguém que se encaixa em tais padrões, poderá perceber seu(a) parceiro(a) como um troféu, e todos(as) querem tomar ele(a) de você!

Essa fantasia, que pode sim ser permeada pela realidade, faz do sujeito depositar em quem se relaciona “um certo poder que mais ninguém possui ”, talvez essa pessoa se encaixe nos padrões socialmente elevados em aspectos financeiros, ou a beleza dele(a) te faz imaginar que qualquer um gostaria de estar em seu lugar,  mas não se esqueça da sua escolha, você que, de certa forma, elegeu ele(a) para ser seu(a) amado(a).

Sendo assim, podemos dizer que esse movimento talvez possibilite uma faca de dois gumes, a fantasia concernente ao imaginário que o faz acreditar que seu(a) parceiro(a) seja aquele(a) que todos querem, lhe transmite a sensação de insegurança, mas também escolher e estar com aquele(a) que todos querem, te proporciona um lugar de poder.

A falta

Por última possibilidade de reflexão neste texto, mas não menos importante, podemos pensar pela via da falta, o que o neurótico tende muito a se fazer.

A falta, é um conceito eminente para a Psicanálise, exatamente por sermos sujeitos faltantes que desejamos tanto, perceba que nossas satisfações são ligeiramente passageiras, ao conquistar-se algo, logo os pensamentos já elaboram outra coisa a ser conquistada, então atuamos na realidade para “termos e sermos mais”, em uma soma absurda de quereres, na tentativa de tamponar essa falta, porém perceba que é graças à falta que não estagnamos, pois estamos sempre em movimento no percurso da vida.

Levando essa lógica da falta ao tema ciúmes, uma das possíveis formas de se pensar na incidência desse sentimento ao sujeito, seria a fantasia de “encontrar no Outro aquilo que lhe falta”, como se este Outro pudesse lhe propor tudo aquilo que você deseja! Isso também está em nível inconsciente.

É como se você tivesse aquela sensação que, se acaso ocorra a eventualidade de perder essa pessoa, perderá tudo que se tem, porque ele(a) lhe causa a ilusão de completude, da outra “metade da laranja”, pois vejamos, o fato de imaginar que “você pode perder essa pessoa”, ratifica a fantasia que seu(a) parceiro(a) é sua propriedade, ou como se fosse uma parte própria de seu corpo, e se essa pessoa vai embora, a dor é como se estivesse perdendo um membro que completa seu corpo.

Então, levanto a seguinte questão: O que faz você enaltecer demasiadamente esse ser, tão humano quanto você mesmo?

Para essa possibilidade de resposta, teoricamente vários conceitos podem ser atribuídos, a transferência, por exemplo, explicando de maneira breve ao que se refere esse movimento, transferência seria transferir ao Outro sentimentos próprios, porém este conceito é muito amplo, pois inconscientemente transferimos àqueles que criamos laços sociais, tudo aquilo que já vivenciamos ou fantasiamos.

Por exemplo, você depositar e transferir ao seu(a) parceiro(a) a mesma raiva que sentia de sua mãe, ou ao amigo(a) o mesmo companheirismo que já sentiu ou desejou sentir por seu(a) irmão(a). Por isso que dizemos que toda transferência é uma transferência de amor, pois suscitou através de uma demanda de amor ao Outro.

Como escrevi anteriormente, isso é apenas uma possibilidade para resposta, mas de qualquer forma é importante recordar que deve ser considerado em nível individual para cada um, pois cada sujeito vivencia e fantasia em modalidade particular, se tratando de inconsciente então, nem o próprio sujeito sabe bem ao certo o que se refere a seus motivos de querer e sua forma de amar, ou a causa de seus ciúmes serem tão repetitivos em todas as relações que produz, comumente para (re)descobrir suas próprias causas.

Sozinho não é possível, de fato é necessário conversar com um profissional, mas essa demanda também inere na esfera individual.

Fernanda Dalla Paula Donato
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