Desenvolvimento pessoal

O fracasso como parte do sucesso, ou a semente da verdade

“Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?” esta pergunta aparece no conto e nas redes sociais.

Ela está a espreita de todos nesse tempo em que a exposição pautada em ideais de perfeição, sucesso e, por que não dizer, bem-estar e felicidade, açoitam como chicotes a alma na nossa cultura. Como colou Fernando Pessoa no Poema em linha reta, “nunca conheci quem tivesse levado porrada. /Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”.

Os ideais de perfeição e o repúdio ao erro aniquilam a diversidade e ressecam as sementes da criatividade. 

É de sementes que quero falar. Que sementes trazemos ao mundo com nossas ideias e ações? Que potências únicas cada um carrega e como as expressa? Semente de uva não faz nascer manga, afinal de contas, as expectativas de uma sociedade baseada em monocultura fazem com que tantas sementes raras se sintam impossibilitadas de germinar. Assim, a diversidade se perde.

Reconto aqui uma pequena história que pode nos ajudar a refletir sobre essa questão. 

Thai e a semente da verdade

Em um reino distante havia um imperador que não possuindo herdeiros, convocou as crianças da região e deu a cada uma, uma semente. Elas deveriam cultivar a semente por um ano e ao final desse tempo levar o resultado do seu trabalho ao rei.

Ele então escolheria quem seria seu sucessor. Entre as crianças do reino, havia Thai, um garoto com grande dom para cuidar das plantas, tarefa que ele realizava com paixão e paciência, seu jardim era belíssimo. O coração de Thai se iluminou com essa oportunidade. Porém, por mais que se esforçasse, a semente que recebeu não brotava.

Ao final de um ano, nada havia acontecido e o menino sentia-se tão envergonhado que sequer tinha vontade de apresentar-se ao imperador.

Depois de uma conversa com seu avô, que era homem honesto e sábio, ele decidiu que deveria apresentar-se ao imperador. Por esta razão, ele deveria apresentar-se ao imperador e contar sua experiência. A verdade nem sempre era bonita como uma flor, mas era preciso encará-la com coragem.

Thai se encheu de coragem e dirigiu-se ao palácio. Ao chegar, encontrou crianças com as mais belas plantas. O imperador conversou com cada criança e perguntou o que aprendera com a semente. 

As crianças falaram sobre o talento, a perseverança e o dom para cultivar a semente. Apesar dos esplêndidos resultados, o rei não esboçava contentamento. Finalmente Thai se apresentou, sentia-se envergonhado.

Entre lágrimas contou sobre sua dedicação e esforço que não lograram êxito em fazer brotar a semente. O imperador lhe consolou, “não se envergonhe, você fez o que pôde. Estou surpreso por ter recebido aqui lindas plantas de sementes mortas”.

Todas as sementes foram queimadas antes de serem entregues às crianças, nenhuma poderia germinar. Thai foi então escolhido para suceder o rei.

Entre a criação e o sucesso, tantos fracassos 

Mas que é o sucesso e o que é o fracasso? Para quem cultiva plantas acontece que nem toda semente brota, nem sempre dão as flores e a folhagem esperada e muitas vezes, sem que saibamos porque, elas morrem.

Nestes casos o jardineiro fracassou? Quem observar o processo de uma criança aprendendo a andar, verá que ela cairá muitas vezes até que consiga andar com firmeza. As quedas e tropeços de quem está aprendendo a andar são fracassos? 

Se o sucesso do jardineiro é o viço de sua planta e o da criança aprendente, o caminhar seguro, precisamos atentar para o fato de que só se aprende a cuidar das plantas observando-as, inclusive quando adoecem e morrem.

Faltou ou sobrou água, sol, nutrientes? Para a criança, aprender a cair é importante para aprender a andar, assim se desenvolve o equilíbrio tão necessário para adquirir um caminhar firme e seguro.

Parece mesmo um paradoxo, mas para que haja o sucesso, há de existir o fracasso. 

A imagem de sucesso como ideal de perfeição se associa a imagem do fracasso como erro. O que não deu certo não merece ser visto.

Perde-se de vista a trajetória e a possibilidade de aprender com o que não atingiu o resultado esperado. O erro é aquilo que foge ao planejamento, é a surpresa e o que flerta com o mistério. É justamente aí que mora a criação, esse ir além das fronteiras do que se conhece. A imagem do erro pode ser colocada em perspectiva e apontar para novos caminhos. 

O que os descaminhos revelam

Thai foi o único a plantar a semente da verdade. E a verdade foi um fracasso, ele teve a coragem de dizer que não alcançou o êxito pretendido, sentiu vergonha.

Encarar este sentimento com coragem o levou a tornar-se imperador. Empreendedores de sucesso possuem uma longa lista de fracassos; as grandes inovações são fruto de inúmeras tentativas. Negar o erro, o fracasso, ou mesmo a falta de correspondência com imagens idealizadas de perfeição promovem o distanciamento da verdade do sujeito.

E se o erro for o chamado para um caminho mais autêntico? As plantas ao perderem o viço demonstram suas reais necessidades, a criança ao cair e tropeçar desenvolve o equilíbrio fundamental para alcançar um caminhar seguro.

Não seriam os erros e fracassos parte essencial da aventura da criação? A coragem para assumir o fracasso é parte do caminho para tornar-se imperador de si mesmo. Ao se apropriar das experiências dolorosas, sofridas, te tornará também mais confortável consigo mesmo, mais humano.

“Arre, estou farto de semideuses! / Onde é que há gente no mundo? /
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?”
(Poema em linha reta, Fernando Pessoa).

O trabalho de escuta da alma, a psicoterapia, oferta o espaço de construção de autenticidade a que cada sujeito tem direito.

É um trabalho de encontro com a própria verdade, com as sementes que não brotaram e com a que busca o momento de ser cultivada. Já se perguntou qual é a sua verdade? Que experiências dolorosas você sente como fracasso e procura negar?

Atenção aos erros e descaminhos, eles podem ser a chance de grandes e inusitados encontros!

 

Referência:

“A semente da verdade: um conto folclórico oriental sobre ética e honestidade.” Recontado por Patrícia Engel Secco. Rio de Janeiro: Editora Melhoramentos, 2018. 

“Poema em linha reta”, (Álvaro de Campos) Fernando Pessoa. In: http://www.releituras.com/fpessoa_linhareta.asp 

Fernanda Alves Cohim Silva
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