Desenvolvimento pessoal

Afinal, o que é o amor?

O amor costuma ser o tema central de muitas análises e de diversas vidas. Esse afeto parece ser algo que sentimos para nos ajudar a conviver com a solidão de existir, é algo que precisamos para lidar com o vazio, que nos ajuda a caminhar. Mas sempre parece haver mais impasses que soluções no amor. 

Um processo de análise pode ajudar a mapear esses impasses, na busca de soluções. E, se dirigida com coragem, uma análise pode ser o caminho para que encontremos nosso jeito singular de amar. 

Nas histórias de amor, na literatura, nos filmes, nas séries e na vida, uma questão sempre aparece: o que é o amor? E mais ainda: por que muitas vezes não acontecem finais felizes? Parece não haver uma complementaridade no amor, algo parece sempre resistir, não encaixar completamente. Por vezes o amor se apresenta de um lado como o amor romântico, o amor ideal, e de outro lado como um amor louco, uma paixão desenfreada.

Qual é seu jeito de amar?

Muitos tentam dizer o que é o amor, e também o que é amar, de acordo com formas prescritas pela sociedade e pela cultura. Mas isso também não parece dar certo, tem algo que não se encaixa, que resta. O amor ideal não parece ser o verdadeiro amor. Mas será que há algum verdadeiro amor?

A aposta é que não há um verdadeiro amor, mas um amor real. E que a análise, ao relatarmos nossa vida, contarmos nossa história, podemos encontrar esse quinhão de amor real que sempre esteve latente. 

A partir disso, podemos ficar cara a cara com essa forma singular e estranha de amar que nos constitui. Nesse momento, nos deparamos com as diversas impossibilidades que nos rodeiam. E destas impossibilidades, a que mais nos causa sofrimento, costuma ser a impossibilidade que há no amor, a impossibilidade do encaixe perfeito.

O que fazer diante da impossibilidade do amor?

Em seu seminário, Jacques Lacan diz que perante essa impossibilidade, resta-nos “a coragem em face desse destino fatal”¹. Ora, que destino fatal seria esse? Pode ser fatal que todos precisamos do amor para viver, e nosso destino seria amar? E precisamos ter coragem para encarar isso?

Ou seria também o destino fatal da escolha do objeto de amor? Seria, como diz Jacques-Alain Miller “o horrível do que ensina a vida amorosa, segundo Freud, é que somente há substitutos”²? Nesse sentido, a coragem poderia vir romper com essa lógica da repetição e substituição dos parceiros, no sentido de uma abertura à invenção na vida amorosa? Ao se ter coragem para dizer aquilo de mais íntimo sobre si em análise, pode abrir-se um espaço para a invenção.

Mesmo assim, parecem pulular mais perguntas que respostas. Se na invenção, não podemos adotar as formas já prescritas de amar, como então podemos nos movimentar? Como se apaixonar por alguém fora dos tipos que costumamos repetir? Como dar espaço para algo novo ou estranho?

O amor e o sertão

Uma memória surgiu nessa encruzilhada, a lembrança de uma cena, um trecho do livro “Grande Sertão: Veredas”, que parece dizer como podemos tentar nos posicionar diante desse destino fatal.

A cena é a primeira travessia do livro, quando Riobaldo conhece um menino sem nome, que futuramente saberá que se chama Diadorim. Nesse encontro, onde nenhum dos dois ainda poderia saber sobre a fatalidade de seus destinos, Riobaldo observa o menino, cata seus sinais enigmáticos com o olhar, gosta de suas finas feições e sua voz leve, aprazível. 

Surge nele um desejo de que o menino não fosse mais embora, e, como em uma história de amor, esse menino também simpatiza com Riobaldo, conduzindo-o a um passeio de barco. Esse passeio acaba sendo a travessia das águas claras do calmo rio de-Janeiro e das águas turvas do enorme São Francisco, a bordo de uma “bamba canoa”, do tipo que afunda.

Coragem para a travessia

Quando a travessia começa, Riobaldo se amedronta. Será que ele temeu o destino fatal da morte? Ou temeu o destino fatal do amor? Mas no meio da efusão de pensamentos de Riobaldo, o menino misterioso, Diadorim, quieto, composto, diz: carece de ter coragem.

“― Eu não sei nadar… O menino sorriu bonito. Afiançou! ― Eu também não sei.

Sereno, sereno. Eu vi o rio. Via os olhos”³

Se é verdade que não há uma complementaridade no amor, estamos a bordo de bambas canoas, nenhum de nós sabe nadar. Sendo assim, resta-nos ter coragem para continuar tentando, continuar errando, e assim, inventar o nosso jeito singular de amar.

Um processo de análise pode nos ajudar nessa difícil travessia, muitas pessoas vivem uma vida inteira sem se encontrar com o real do amor, o que é triste, pois encontrando nosso jeito de amar, podemos saber mais sobre aquilo que desejamos, sobre o que queremos para a nossa vida. E assim, poderemos estar a bordo da canoa que amamos. 

“Se é verdade que não há relação sexual, é porque simplesmente, o gozo – o gozo do Outro tomado como corpo – esse gozo é sempre inadequado, perverso, de um lado, na medida em que o Outro se reduz ao objeto a, e eu direi louco, do outro lado, na medida em que se trata da maneira enigmática pela qual se estabelece esse gozo do Outro como tal. Será que não é pelo enfrentamento desse impasse, dessa impossibilidade, definindo como tal um Real, que é posto à prova o amor, já que do parceiro, ele só pode realizar o que chamei – por uma espécie de poesia, para me fazer entender – o que chamei de coragem, diante desse destino fatal?”¹ (p. 274) 

 

Referências:

¹Lacan, J. Encore, Escola da Letra Freudiana

²Miller, J-A, Uma conversa sobre o amor, em Lógicas da vida amorosa

³Rosa, G. Grande Sertão: Veredas

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