Desenvolvimento pessoal

A pandemia e o luto da perda

As consequências psicológicas da pandemia

A pandemia aflorou o sentimento de perdaPerdemos a liberdade. O que antes era comum, como ir à praia ou caminhar no parque, foi-nos retirado. As atividades corriqueiras – ir ao supermercado ou à farmácia, por exemplo – exigem que fiquemos em total estado de alerta. Perdemos até mesmo a tranquilidade de respirar. 

A saudade do abraço do filho. A falta do carinho dos pais. O colo dos avós ficou na lembrança. Os netos estão crescendo distantes do carinho aconchegante.

O distanciamento social virou sinônimo de perda. Os dias passam e temos a sensação de que pouco foi vivido e muito foi perdido. Os prazeres da vida estão nos momentos simples. Não apenas perdas de ocasiões ou liberdade marcam a quarentena. Perdemos trabalhos, saúde, vidas… 

David Kessler, autor norte-americano especializado em morte e luto, diz que “o luto não é um processo que termina”. Diante disso podemos nos perguntar: “então a dor será para sempre?” A resposta é: não. Kessler também sugere que não usemos pensamentos extremos, como “nunca mais serei feliz” ou “serei para sempre uma pessoa triste”. Portanto, esqueça o advérbio de tempo para expressas suas dores.

Quando seu primeiro namoro chegou ao fim, você sofreu – e chorou – achando que jamais viveria um amor. O tempo passou, a dor foi embora e você consegue, muito provavelmente, falar do antigo namoro com ternura. Este é um exemplo simples de como a vida está em constante transformação e nenhuma condição é definitiva. O amanhã pode ser melhor. 

O momento de luto

O momento de luto deve ser aceito e vivido com naturalidade. Assim como a felicidade faz parte do processo de evolução do ser humano, a tristeza também se faz necessária. Permita-se externar a dor. O choro é a limpeza da alma, então aceite chorar quando tiver vontade. Se tiver vontade de conversar sobre o acontecimento, converse. 

“O luto não é um processo que termina” – David Kessler

Recomendo aos meus clientes que tenham um caderno na mesa de cabeceira ou num local de fácil acesso. Nos momentos de aflição, sugiro que escrevam. Não há regras. A escrita é livre e serve como ferramenta para desafogar. 

Publicado no livro On Death and Dying (1969), de Elisabeth Kübler-Ross, o método traçado pela psiquiatra suíça indica que o luto possui cinco etapas. Confira: 

Negação 

“Não é verdade! ”. 

Existe a negação de estar passando por aquela situação, seja morte, desemprego, rompimento de relacionamento ou qualquer outra perda. O ato da despedida é importante para assimilar a conclusão de um capítulo, de um ciclo. Por isso são feitos rituais, como esvaziar sua escrivaninha do ambiente corporativo ou devolver o anel de noivado. Numa situação de morte é realizado o funeral.

Raiva 

“Durante anos vesti a camisa pela empresa e agora estou no olho da rua!”, “Achava que era o amor da minha vida!”, “Por que ele? Não é justo!”. 

Surgem ideias distorcidas causadoras de raiva e rancor. Nesta etapa, é comum agir de maneira impulsiva e agressiva. 

Negociação 

A terceira etapa é repleta de dúvidas e culpa. Por exemplo, se você perdeu o emprego porque houve corte na empresa em decorrência da pandemia, é nesse momento que surge o questionamento sobre suas atitudes. “Se eu tivesse feito mais hora extra”, “Se eu tivesse sido mais proativo”, “Se eu tivesse entregado a planilha”. 

São questões naturais, mas que devem ir embora com a mesma rapidez que surgiram em sua mente. Definitivamente este não é o momento para fazer um balanço de seus pontos positivos e negativos como profissional. Seja bom consigo e execute o auto perdão. 

Tristeza 

O sentimento de perda, de luto é tão intenso que chega a doer na pele. A fase da tristeza apresenta algumas características, como choro, quietude e melancolia. Como disse anteriormente, permita-se passar por esta etapa. Imaginemos que o luto é uma grande ferida que precisa de remédio para sarar. O melhor medicamento para fechar a lesão é o choro e a aceitação de viver o momento. 

Nos tempos atuais é importante alertá-lo de não tomar como base o que é compartilhado em redes sociais. A vida virtual costuma ser divertida, colorida e perfeita. Na vida real a história muda de contexto. É fácil sorrir em foto, difícil é manter o pensamento pleno quando o mundo parece estar desabando, por isso, não acredite na ditadura da felicidade plena. É uma mentira. 

Aceite o vazio e a solidão. Lembre-se: a tristeza faz parte da evolução. 

Aceitação 

Assim como o mar revolto, certo dia você sentirá que suas águas acalmaram. Não haverá mais a tempestade interna, apenas a certeza de que a dor partiu e que você quer recomeçar. O que você decide fazer com as cicatrizes da “guerra” é uma escolha íntima. Abrir sua própria empresa? Mergulhar num novo relacionamento? Relembrar com alegria as histórias vividas com a pessoa que partiu?

Seja qual for sua decisão, as cicatrizes significam sua vitória e a possibilidade de escrever novos capítulos. 

 

Artigo escrito pela Psicóloga Gabriela Franco de Oliveira Eiras – CRP 06/77298

 

Referências:

https://www.psicologiasdobrasil.com.br/category/perdas-e-luto/

https://saude.abril.com.br/blog/com-a-palavra/luto-em-tempos-de-pandemia-o-que-muda-ao-dizer-adeus/

Gabriela Franco de Oliveira Eiras
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