Desenvolvimento pessoal

E se você começasse a perceber os seus limites? 

Não estamos acostumados a parar. Acredito que ao parar qualquer coisa corremos o “risco” de nos depararmos com a nossa essência, como se o passado, as expectativas nossas e a dos outros nos confrontassem a cada pausa.

– “É isso mesmo que eu queria?”, “isso ainda me dá prazer?”, “afinal, o que eu estou fazendo aqui?”. 

Não que, vez ou outra, essas vozes não se façam perceber. Mas daí, sabemos, distrações não faltam para nos afastarmos de qualquer possibilidade de termos que encarar a essencial “análise de rota”. Sim, tal qual um GPS que teima em saber qual o melhor caminho para nós e reprograma o trajeto com bases nas nossas escolhas de virar ou não tal esquina, é fundamental que às vezes façamos o mesmo.

O piloto automático também precisa de um comando para seguir.

Falo sobre isso agora motivado pela ginasta Simone Biles, que no alto de toda a expectativa do povo norte-americano e do mundo da ginástica, sob o olhar crítico das pessoas que só ouvem falar de um duplo twist carpado a cada quatro anos, mas sempre estarão prontas para julgar cada passo em falso das jovens ginastas; bom, essa jovem teve a coragem de parar.

E bem no meio de uma Olimpíada, fazer uma escolha por si. Mas afinal, o que ela tem? A carreira dela não é isso? Levar o corpo humano e agora, sabemos, esgarçar os limites psicológicos por tanta cobrança e expectativa, para o ideal de beleza, plasticidade e perfeição que nós não imaginamos conseguir? Bom, Simone Biles teve a coragem de ouvir seu corpo, ouvir aquelas vozes que teimamos em silenciar.

Ela não conseguiu mais. Vocês que nunca param, conseguem imaginar o quão libertador pode ser isso? 

Hum, então eu devo dar uma guinada na vida?

Enquanto há vida, há movimento, e essa é uma escolha que cabe totalmente a você. Mas é interessante considerar o valor das experiências que acumulamos ao longo da vida. E já que estamos falando de analisar as rotas que seguimos, é importante verificar em que parte do caminho você se perdeu e seguiu o piloto  automático alheio, e checar o que tem de você no seu caminho atual. 

Antes de qualquer coisa: calma. Não vá pedir demissão e comprar telas e tintas achando que pode viver de pintura de repente. Não é assim. Vamos crescendo e nos tornando responsáveis pela gente, além de corresponsáveis por um tanto de coisas.

Já viu como é ruim, desconfortável e até perigoso fazer uma curva repentina no carro? Pois então, funciona do mesmo jeito com a gente. 

Ou seja, a pessoa pode apenas dar uma pausa para aliviar a pressão, recalcular a rota e, às vezes, retornar para o mesmo caminho. Muitos acham que, ao chegar neste ponto de indecisão, o certo a fazer é largar tudo, apertar o reset e fazer uma faculdade de sociologia.

Sério, não façam isso. Eu sei do que estou falando.

Vá com calma!

Veja que a Simone Biles não abandonou a ginástica. Estava lá, nos dias seguintes, torcendo fortemente pela nossa brasileira Rebeca Andrade. E dias depois, retornou para fazer mais uma prova. Com sucesso, inclusive.  

Eu acredito, inclusive, que você pode até tentar permanecer nos lugares onde está, mas não se sente plenamente confortável e realizado fazendo alguns pequenos ajustes, caso não seja o caso, ou a possibilidade, de uma mudança maior. 

Nós temos uma tendência a nos fazer caber nos lugares pra sermos aceitos. Isso é algo natural e não vai mudar, e não tem problema nisso. Não a curto prazo, pelo menos. Depois de um tempo, e da sensação de ter sido aceito já não provoca mais aquele “calorzinho”, a gente quer algo mais. Quer ser aceito e admirado pelo que realmente somos, não por aquele personagem que criamos inicialmente para cabermos nos lugares.  

Como dizia Carl Rogers, em seu excepcional “Tornar-se Pessoa”, “quanto mais um indivíduo é compreendido e aceito, maior tendência tem para abandonar as falsas defesas que empregou para enfrentar a vida, e para progredir num caminho construtivo”. 

Vá inserindo então pitadas do seu jeito, da sua forma de fazer, da sua forma de lidar, da sua forma de relacionar, nas coisas que você faz. É possível que isso cause algum estranhamento, mas a satisfação de poder agir e se portar de forma mais espontânea na maior parte do seu dia, pelo menos, será a sua boa recompensa. 

Afinal, pare pra pensar, tem um bocado de gente que passa o dia infeliz, fazendo coisas de que não gosta e ainda fingindo ser o que não são! Faz sentido? 

E não vamos falar sobre terapia?

Claro que vamos. Acredito que a terapia é o lugar mais indicado pra se organizar. Geralmente as pessoas, depois de tanto tempo de “atuação”, chegam ao consultório psicológico bastante bagunçadas. Não podia ser diferente, né? 

Então, por meio dos métodos psicológicos adequados, e independente da abordagem psicológica que você escolher, acredito na potência humana capaz de fazer acender a luz da autenticidade. Aquela coisa que só você tem e que, ao deixa-la desligada, o seu GPS interno fica realmente perdido. 

Os tempos atuais, que estão nos exigindo posicionamentos, expondo-nos a conflitos e nos jogando em situações para as quais realmente não fomos treinados, têm, por outro lado, retirado o preconceito que muitas pessoas ainda possuíam em relação à psicoterapia.

Afinal, não é porque você não está vendo que não esteja doendo, que não esteja causando sofrimento.  

E de fato, é preciso ficar atento. Pelos mesmos motivos acima expostos, o nosso corpo não está acostumado a receber tantos estímulos ansiogênicos como tem recebido atualmente. E se, por um lado, não sabemos das consequências disso, sabemos o que podemos fazer, com os instrumentos de que dispomos hoje, para  amenizar o que estamos sentindo e buscar reconectar o que tem se perdido. 

Gostaria que, ao terminar esta breve leitura, você esteja um pouco, ao menos um pouco, mais disposto a ouvir e perceber os sinais do seu corpo e mente. Eles falam e se manifestam o tempo todo. Faça algo com isso. 

Chander Rian de Castro Freitas

Psicólogo – CRP 16/6971

Referência

  1. ROGERS, Carl R. Tornar-se Pessoa. 6ª Ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
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