Psicologia geral

Política e sexualidade: o(a) psicólogo(a) deve ser neutro(a)?

As questões políticas estão cada vez mais presentes no cotidiano do consultório. Antigamente, talvez os pacientes não nos convocassem tanto com relação a esses temas. Bastava uma postura neutra do(a) psicólogo(a) para que esse assunto passasse longe das sessões de terapia.

No entanto, a crise política instaurada neste país tem gerado grandes reflexões dentro e fora do consultório.

As interfaces da psicoterapia com a política

Afinal de contas, o(a) psicólogo(a) pode saciar a curiosidade do(a) paciente quanto ao seu posicionamento político?

Essa resposta depende da linha teórica adotada pelo profissional e de muitos outros fatores. Quando eu percebo o interesse do paciente em saber o que eu penso, eu costumo entender que ele tem direito a receber uma resposta clara e sincera.

Antes de se manifestar, o(a) psicólogo(a) precisa ponderar sobre os efeitos de sua resposta para que a mesma não desvie o propósito da terapia e não seja alguma forma de doutrinação. O(a) psicólogo(a) não está lá para impor suas convicções políticas para ninguém. 

O que o(a) psicólogo(a) pode dizer sobre sua posição política?

Então, como eu resolvo essa questão? Eu lembro da história do Conselho Federal de Psicologia (CFP) nesses momentos.

Para além de mim, o órgão que regulamenta a minha profissão no Brasil tem uma história de defesa de algumas questões políticas relevantes. A minha história pessoal e a história do CFP se unem na defesa da democracia, dos direitos humanos, da ética no cuidado ao outro, dentre outros temas.

Para meus e minhas pacientes, saber que eu trabalho pelo fim da discriminação e pelo respeito à diversidade tem sido uma resposta suficiente para saciar essa inquietação. Aqueles(as) que procuram meu currículo online já conseguem ter uma boa ideia do meu trabalho. Nunca falei o partido ou o nome das pessoas que recebem o meu voto. Eu nunca diria isso. Esse não é o foco da questão. Os(as) pacientes querem saber algo que está além disso.

Os pacientes querem saber quais bandeiras nós levantamos. Afinal, saber que compartilhamos algumas lutas cria mais do que uma conexão poderosa dentro do ambiente terapêutico. Essa resposta do(a) psicólogo(a) cria a sensação de que os(as) pacientes não estão sozinhos(as) em suas batalhas diárias e, realmente, eles(as) não estão sozinhos(as).

E a sexualidade?

Novamente, a resposta do(a) psicólogo(a) vai depender muito da sua abordagem teórica e de outros fatores relevantes. Nessa situação, o(a) profissional também não pode impor crenças no(a) paciente. Precisamos respeitar a individualidade do(a) paciente.

Entretanto, existem alguns conhecimentos fundamentais sobre sexualidade que os(as) psicólogos(as) podem introduzir na conversa quando o(a) paciente quiser debater sobre psicologia e sexualidade.

Abaixo, vamos tratar de alguns pontos essenciais para a compreensão do tema da sexualidade:

Discriminação

Discriminar é agir de modo a diferenciar as pessoas, dando-lhes um tratamento desigual ou injusto. Isso costuma acontecer em função de preconceitos. Os preconceitos podem ser sobre sexualidade, mas também podem ser sobre cor da pele, visão política, etc.

Preconceito

O preconceito é uma ideia na qual nós acreditamos antes de fazer um exame crítico detalhado. Ele pode ser entendido como uma crença ou uma opinião que nós desenvolvemos sem um nível adequado de ponderação. Sendo assim, o preconceito é uma ideia que se distancia da realidade, da lógica, da razão e daquilo que já é conhecido sobre uma determinada questão. O preconceito surge quando estamos intolerantes à diversidade e pensamos de forma superficial.

Sexualidade

A sexualidade é um conceito amplo que inclui nossas formas de viver e de expressar nossos desejos e prazeres corporais em um sentido maior. A sexualidade é um campo que envolve uma combinação bastante sofisticada de aspectos psicológicos, sociais, físicos e biológicos.

Diversidade sexual

A diversidade sexual é um conceito que utilizamos para expressar a ideia de que existem inúmeras formas de viver e de expressar a nossa sexualidade.

Identidade de gênero

A identidade de gênero é a experiência de percepção que cada pessoa tem sobre seu gênero (masculino, feminino ou outros). A identidade de gênero tem relação com o modo como a pessoa se vê e como ela se sente em termos de gênero. Isso não tem nada a ver com características físicas ou com orientação sexual.

Orientação sexual

A orientação sexual refere-se à atração afetivo-sexual que sentimos por alguém. A orientação sexual reflete o nosso interesse por uma pessoa independentemente de gênero. 

Assexual (estrito)

Pessoa que não sente atração sexual por outras pessoas.

Violência de Gênero

A violência de gênero ocorre quando atos de violência psicológica, moral, física e patrimonial (ou qualquer outra forma de violência) são realizados contra qualquer pessoa em função do seu sexo ou do seu gênero. Esse tipo de violência pode ser entendido como uma forma de dominação que surge a partir da ideia equivocada de que haveria uma diferença de poder entre os gêneros (masculino, feminino ou outros).

Por que é importante falarmos desses assuntos?

Ainda há muito conhecimento sendo produzido sobre sexualidade, política e psicologia. O objetivo deste texto é oferecer uma leitura sucinta que pudesse ampliar a sua visão sobre estes temas. Todos os conceitos apresentados aqui de maneira muito breve, seguem sendo atualizados conforme os avanços da sociedade e da pesquisa científica e não devem ser interpretados como um entendimento definitivo do que é a sexualidade humana.

A mensagem mais importante que deve ficar registrada é que a Psicologia vem trabalhando pela defesa da diversidade, pelo respeito às diferenças e por uma sociedade mais justa. Um dos objetivos do trabalho do(a) psicólogo(a) é criar um espaço saudável de reflexão e aprendizagem para que possamos evoluir enquanto indivíduos e aprimorar nossas relações sociais. 

Muito estudo e auto-observação são essenciais para desenvolvermos relacionamentos mais saudáveis. O conhecimento é fundamental para que possamos rever nossas atitudes e renovar nossos sentimentos na convivência com as outras pessoas. Uma sociedade mais justa depende das nossas ações cotidianas. 

Como é o trabalho do(a) psicólogo(a)?

O trabalho do(a) psicólogo(a) deve sempre considerar o respeito ao ser humano em suas diversas formas de ser e de se expressar no seu desenvolvimento sexual, emocional e social. Além disso, colaborar com a disseminação de conteúdos psicológicos de qualidade constitui-se em papel de todo(a) psicólogo(a) que deseja ver essa ciência ser respeitada e reconhecida pelo seu grande impacto positivo na sociedade e na vida de cada uma das pessoas que atendemos com tanta dedicação.

Gabriela Ballardin Geara
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