Desenvolvimento pessoal

Como a psicanalise pode ajudar no combate aos transtornos emocionais?

O que devo saber sobre a psicanálise?

A psicanálise freudiana

A teoria psicanalítica freudiana, foi desenvolvida através do estudo das relações conflituosas entre os filhos e seus pais. O menino se “apaixona” pela mãe e rivaliza com o pai, enquanto a menina se “enamora” do pai e se volta contra a mãe. Esse fenômeno acontece em todas as famílias e essa relação despercebida aos olhos dos leigos gera angústia e é reprimida pelas crianças através da castração (proibições, como exemplo, as célebres frases: “a mamãe é minha!” ou “hoje você vai dormir na sua cama!, o papai é o MEU namorado!”), podendo reaparecer através de sonhos e sintomas neuróticos.

Por essa razão a psicanálise freudiana pode ser chamada de “edipiana”. (Revista de Psicanálise –  Zeljko Loparic, 1997 ). Uma alusão ao mito de Édipo, que se apaixona pela própria mãe, Jocasta. 

Nessa teoria, essa relação triangular (mãe, pai e filho) é concebida como preparação para as relações posteriores e seria o complexo nuclear das neuroses. A forma como a criança se relaciona dentro desse triângulo (mãe, pai e criança), é o modelo de relações que ele usará futuramente.

Todavia, em 1925, Freud reconhece que a mãe é o objeto identificado e introjetado por ambos os sexos, e não só pelo menino (Freud, 1925, p. 259). Trazendo então um questionamento para o paradigma edipiano: O que acontece antes dessa fase triangular?

A relação com a mãe, por ser dual, acontece antes do complexo de Édipo, definido por situações triangulares. Segundo Melaine Klein, os sentimentos de culpa, perseguição e angústia, associados à agressividade, surgem na fase exclusiva, onde só existe mãe e bebê.

Podemos então questionar: Há transtornos iniciados antes da fase classificada como complexo de Édipo? Seria  possível as psicoses serem iniciadas em fases mais primitivas?

Psicanálise winnicottiana

Para Winnicott, nessa fase da relação mãe x bebê (antes da fase edipiana), existem problemas iniciais da vida humana ao qual ele chama de agonias impensáveis. Impensáveis por serem de uma época tão primitiva que ainda não há um indivíduo capaz de experienciá-las. 

A análise Winnicottiana compreende que é essencial a presença de um ambiente facilitador para que o indivíduo continue existindo. No começo da vida, o bebê não é um indivíduo independente e necessita de cuidados para se desenvolver. Cuidados esses que geralmente são dispensados pela mãe ou qualquer pessoa que desempenha essa função. 

Ele necessita se sentir real, ter o mundo apresentado em pequenas doses e se sentir seguro para desenvolver-se e vir a ser. Os transtornos emocionais se dão quando esse ambiente facilitador não é confiável o suficiente para assegurar o desenvolvimento e a evolução pessoal do ser humano, acontece então uma falha no desenvolvimento emocional.

Compreender essa relação e a formação das angústias impensáveis é fundamental para o tratamento dos transtornos emocionais. Uma regressão à dependência em que se deu o trauma, à interpretação e ressignificação desses acontecimentos pelo analisado, para que, ele mesmo, possa restabelecer a comunicação com o ambiente e refazer o sentimento de confiança (Winnicott, 1989, p. 196).

Para Winnicott, ao invés de uma mãe objeto, como para a teoria Freudiana, temos uma mãe ambiente, e as necessidades de um indivíduo oriundas ao vir a ser. Um indivíduo que necessita ser cuidado, ter suas necessidades primárias identificadas e atendidas para que seu desenvolvimento ocorra de forma natural.

Psicanálise na clínica psicológica

O setting terapêutico permite o restabelecimento dessa relação que vem a ser um protótipo para as futuras relações, sejam elas familiares, afetivas ou profissionais.

O profissional da psicanálise winnicottiana, através da escuta e da interpretação analítica das necessidades do paciente, oferece uma intervenção voltada para o retorno ao desenvolvimento do amadurecimento emocional, favorecendo a elucidação dos transtornos emocionais e maior compreensão das relações interpessoais. 

A função de qualquer profissional da área da psicologia psicanalítica é ouvir sem julgamentos, sem valores morais, livre de opiniões particulares ou ideológicas. A escuta é qualificada, analisada e devolvida para o paciente, para que ele possa se ouvir na pessoa do analista, compreender-se e elaborar os seus conflitos e, para que esse processo analítico aconteça, é necessário que haja um envolvimento de ambas as partes.

O psicanalista winnicottiano estabelece o mesmo relacionamento com o paciente que a mãe ambiente, possibilitando a regressão aos eventos cujas falhas causaram a interrupção do desenvolvimento emocional, ocasionando possíveis transtornos emocionais como a depressão, ansiedade, fobias, pânico.

Os cuidados primários que são necessários para o desenvolvimento emocional do indivíduo são praticados pelo analista através da escuta, propiciando ao paciente um ambiente seguro para a sua elaboração dos traumas vividos durante essas falhas ambientais, permitindo ao sujeito revisitar suas necessidades mais primitivas, ressignificá-las e elaborá-las de forma saudável. 

É natural que se estabeleça um vínculo afetivo com o profissional, o que é necessário para que o processo da análise possa ocorrer. A esse vínculo, damos o nome de transferência, e é baseado nessa transferência que as experiências emocionais se alicerçam. 

Devo confiar em meu analista?

O papel do psicólogo é pautado no código de ética regido pelo Conselho Regional de Psicologia.

Todo o conteúdo compartilhado dentro do setting analítico é mantido em sigilo e não pode ser divulgado sem a autorização do paciente. O profissional da psicologia tem uma escuta direcionada ao acolhimento e a compreensão dos conflitos emocionais, diferente de uma escuta leiga ou casual, ainda que o ambiente psicoterapêutico seja informal e descontraído.

Portanto, é importante ressaltar que a função do profissional não é julgar, nem tão pouco absolver o paciente das suas culpas. Não cabe ao profissional da psicologia responsabilizar ou não os envolvidos no fenômeno compartilhado. 

A psicoterapia é um lugar de acolhimento, de desenvolvimento, de autoconhecimento e autorresponsabilidade. É necessário respeitar o tempo de cada um no processo de elaboração dos acontecimentos e a responsabilização é decorrente desse processo.

Cabe ao psicólogo propiciar esse ambiente, conduzir essa relação que terá aspectos positivos e negativos, ou seja, todo processo de desenvolvimento causará encontros e desencontros consigo mesmo. A confiança no analista e no seu respaldo profissional é fundamental para a evolução dessa relação.

Portanto, sinta-se à vontade para esvaziar-se de si mesmo, fale, transborde, sinta, chore se for necessário e assim poderá se conhecer e se transformar. Confie e evolua.

Referências

  1. Freud, S. “Algumas consequências psicológicas da diferença anatômica do sexo”, in Studie Naugabe, V. p. 259. 1925
  2. Loparic, Z. Revista de Psicanálise. Vol. IV. N°2, outubro de 1997.
Sirlei Griziele Da Silva Moreira
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