Psicologia geral

Psicodrama – O que é? Técnicas? Entenda também o Psicodrama Infantil

“Um Encontro de dois: olhos nos olhos, face a face. E quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos e colocá-los-ei no lugar dos meus; E arrancarei meus olhos para colocá-los no lugar dos teus; Então ver-te-ei com os teus olhos e tu ver-me-ás com os meus.” (J.L.Moreno)

Foi inútil tentar não começar este texto com a epígrafe acima. Quem vem estudando o tema ou ao menos já teve um vislumbre sobre o que é o Psicodrama, ou quem é Jacob Levy Moreno, certamente se deparou em diversos outros textos com o verso transcrito, dada sua abrangência, profundidade e leveza em torno do tema.

A origem do Psicodrama

Moreno (1889 – 1974), médico, psicólogo, filósofo e dramaturgo romeno naturalizado norte americano, de família judia de origem ibérica, viveu boa parte de sua vida em Viena (Áustria), onde construiu sua formação pessoal e profissional. Destde breve relato biográfico se pode constatar o quão identitariamente multifacetado é o criador desta abordagem da Psicologia.

Sua vastíssima  cultura, suas ideias filosóficas e religiosas, sua paixão pelo teatro, bem como sua inclinação para a pesquisa e investigação sobre as interrelações humanas, contribuíram para o desenvolvimento e sistematização do trabalho que ficou conhecido como ‘Projeto Socionômico’, criado a partir do desenvolvimento e expansão de suas pesquisas com os projetos do ‘Teatro da Espontaneidade’, do ‘Teatro Terapêutico’, da psicoterapia de grupo, da sociometria e do psicodrama público.

O Projeto Socionômico ou Socionomia deve ser compreendida, conforme o próprio Moreno, de acordo com a etimologia da palavra. Assim, para melhor compreensão devemos desmembrá-la nos termos ‘sócio’ – do latim ‘socius’, companheiro – e ‘nomia’ – do grego ‘nomus’, lei, regulamento -, concluindo portanto que o termo se refere a leis do desenvolvimento das relações.

Enquanto recurso prático, Moreno pretendia fazer uso desta teoria como meio de verificação do florescimento, desenvolvimento e solidificação da interrelação indivíduo-grupo, e do modo como o sujeito vivencia esse processo.

Caracteriza-se a Socionomia pela tentativa de interseccionalizar, ao menos teoricamente, os aspectos subjetivo, psicológico, objetivo e social do indivíduo em relação.

Moreno pretendia trabalhar junto à comunidade para fins de transformação social, mediante o desenvolvimento de uma concepção de ser humano e de saúde, fundamentadas na espontaneidade e nos papéis que o ‘Eu’ vai adquirindo ao longo da vida, culminando em uma catarse do ‘si mesmo’.

Assim, do seio da Socionomia nasce a Sociometria. Esta, por sua vez, se subdivide em três ramos: o Sociodrama, a Psicoterapia de Grupo e o Psicodrama propriamente dito.

Não entraremos em maiores detalhes sobre a Sociometria e as demais subdivisões, uma vez que o presente estudo visa explanar de maneira geral o Psicodrama enquanto abordagem psicológica, portanto, adiante atentaremos apenas para o histórico, características, métodos e aplicações do Psicodrama.

Da mesma forma que analisamos a Socionomia, pela via etimológica, verifiquemos que Psicodrama é composto da partícula ‘Psico’ – do grego ‘psyche’ , espírito – e ‘Drama’ – do grego ‘Dráma’, ação – portanto, podemos definir Psicodrama como a investigação da alma por meio da ação.

A principal proposta da abordagem em estudo é propiciar o reconhecimento dos conflitos e das diferenças para então auxiliar na busca de alternativas para solução destes, tendendo a uma expansão dos recursos disponíveis ao sujeito para lidar com sua realidade.

Nenhum lugar mais condizente para o nascimento do Psicodrama do que o teatro dramático. E assim se deu.

Conta a história que esta prática foi levada a público pela primeira vez, ao estilo das Commedia dell’Arte do séc. XVII, em um teatro dramático de Viena, onde Moreno fez uma apresentação sozinho, sem roteiro nem preparação.

No palco, somente uma poltrona com ares de trono, em cujo assento descansava uma coroa dourada. A trama, consistia na participação do próprio público, cada um por sua vez, e espontaneamente, representando o papel de rei, e sendo julgado digno ou não do trono pelos demais espectadores.

À época, a Áustria encontrava-se recém saída de um grande período de conflitos internos, portanto, a representação era reflexo do momento histórico vivido naquele momento. Uma representação catártica, apoiada na espontaneidade.

Assim, o trabalho serviu para confirmar a hipótese do seu criador de que a atuação dramática de conflitos – a teoria dos papéis –  propicia a melhor visualização dos mesmos e de suas soluções possíveis.

Ficou comprovado que o encontro espontâneo, o compartilhamento de angústias,  e o processo criativo grupal, são agentes terapêuticos que possibilitam o resgate de energias perdidas na representação de papéis desgastados e a busca de novas maneiras de atuar no meio social.

A emoção co-criada pelo grupo, promove discriminação e integração harmônica do individual e do coletivo, do mundo interno e a realidade compartilhada, tanto pela comunicação verbal como não verbal.

Desde então, enquanto teoria e prática psicológica, o Psicodrama vem se transformando e desenvolvendo, sendo adaptado para o atendimento em clínica, seja nos moldes da psicoterapia individual, seja na modalidade coletiva, organizacional, o que só contribui para novos modelos referenciais de psicopatologia, da experiência emocional humana, individual e grupal, propiciando melhor expressão dos conflitos e acolhimento das dores psíquicas.

Pelo prisma do arcabouço teórico, o método psicodramático, como já dito superficialmente, tem na representação dramática o núcleo de trabalho pela via da exploração dos vínculos humanos, da ação associada ao discurso, e especialmente da representação dos conflitos, no momento presente, relacionando com o passado.

Alicerces teóricos do Psicodrama

Além da espontaneidade e da criatividade, o Psicodrama tem, como alicerces teóricos: a teoria dos papéis,  a tele, a empatia, o co-inconsciente, e a matriz de identidade. Vejamos cada um deles.

Espontaneidade e criatividade

Espontaneidade e criatividade são conceitos que variam entre os indivíduos e as situações enfrentadas por cada um, funcionando como um catalisador psicológico, ou seja, regulando a quantidade e qualidade necessária de atuação necessária para cada situação vivenciada a cada momento.

O próprio ato de nascer, segundo Moreno, está diretamente ligado à espontaneidade e criatividade, uma vez que o parto em si é uma situação nova a ser enfrentada, e sem buscar novas respostas adequadas àquela situação, o recém nascido não sobrevive, sendo certo que este ato criativo espontâneo indicará o percurso de desenvolvimento da criança, sob o aspecto do desenvolvimento da matriz de identidade e do desenvolvimento de papéis, como veremos em seguida.    

Tele

Quanto ao conceito de tele, pode-se dizer que este traduz a capacidade de se perceber os acontecimentos e as interrelações entre os seres de forma objetiva, ainda que tais fatos não ocorram de forma verbalmente expressa ou fisicamente perceptível.

Empatia

A empatia trata da capacidade de um indivíduo, verificando a situação de outra pessoa, ter-se a percepção imediata do que sentiria caso estivesse naquela situação.

Co0inconsciente

O conceito de co-inconsciente é algo próximo do inconsciente coletivo Junguiano, ou seja, refere-se às vivências e sentimentos (conscientes e inconscientes) que são comuns entre as pessoas, no caso, entre as pessoas do grupo terapêutico.

A teoria dos papéis parte do princípio de que o indivíduo, ao longo do seu desenvolvimento, vai aprendendo diversas formas de agir no mundo, bem como representações mentais, e possibilidades identificatórias com os outros seres, assumindo, por fim, um conjunto de dimensões psicológicas do seu ‘eu’ (self) de versatilidade potencial variada, ao que se dá o nome de ‘papel’ social.

Alguns ‘papéis’ ficam inibidos pelas exigências do meio e circunstâncias da vida, necessitando, posteriormente terem sua energia vital liberada, o que seria a função primordial do Psicodrama.

Já a matriz de identidade necessita uma explicação um pouco mais pormenorizada, por se tratar de conceito complexo e que abarca os demais.

Moreno defendeu que o primeiro ato criativo do ser humano é o próprio ato de nascer. Simbólica e existencialmente falando é o ato de se autocriar – em que pese depender essencialmente da ajuda dos outros –  que se dá no momento do nascimento e desenvolve-se ao longo da vida, completando-se com a maturidade.

Este caminho existencial até a maturidade é marcado pela submissão da capacidade criadora inata do ser humano a condutas estereotipadas, ritualistas, vazias de significado e sentido, chamadas de cultura ou identidade cultural.

As 5 fases distintas

E essa identidade irá ser configurada em uma matriz, segundo esta teoria, em cinco fases distintas, que vão desde a fase em que mãe e bebê são percebidos por este como correspondentes, atuando a mãe como um ego-auxiliar (fase do duplo);

passando pela fase em que a criança concentra sua atenção no outro e não reconhece a si mesmo; após, à fase do espelho, quando fantasia e realidade se distanciam na percepção da criança, trazendo a capacidade de abstração;

Em seguida, a fase em que desempenha o papel do outro imaginariamente; e, por fim, culminando na fase em que a inversão da identidade se completa, quando a criança está apta a desempenhar o papel do outro, diante de um terceiro que, por sua vez, desempenha o papel dela – é a chamada fase da inversão de papéis, que em outras palavras significa que a criança passa a desempenhar o papel de adulto para outra criança.

Com relação às diversas técnicas dramáticas desenvolvidas por Moreno, estas foram criadas para terem correspondência direta com as etapas do desenvolvimento psíquico descritas acima.

Assim, podemos dizer que todo o processo psicodramático tem o objetivo de levar o protagonista ao envolvimento com a experiência vivenciada no presente, desimpedindo a energia vital inibida pelos acontecimentos do passado.

Moreno indica três modalidades procedimentais para o trabalho psicodramático: o psicodrama, para tratamento de conflitos individuais; o sociodrama, para os conflitos dos grupos sociais; e o role play, no caso de treinamento de papéis profissionais e técnicos, mais utilizado no campo organizacional.

A prática psicodramática, seja qual for a modalidade escolhida, começa pelo envolvimento do grupo com a experiência a ser vivenciada, mediante o compartilhamento de histórias, lembranças, sensações e impressões sobre o cotidiano que de alguma forma esteja impactando o momento presente do grupo.

As 3 fases da ação dramática

A ação dramática se divide em três fases distintas. A primeira é chamada de aquecimento, quando se prepara o grupo para a entrada em ação, com a escolha da cena a ser desempenhada, do enredo, e do protagonista, cuidando para que todos tenham o máximo de envolvimento possível, para o pleno surgimento da realidade grupal.

Na segunda fase, da representação propriamente dita, atua-se na cena dramática, no maior nível de espontaneidade possível.

E, por fim, na terceira fase, do compartilhamento, o grupo e a platéia participam conjuntamente, apresentando suas percepções.

Compõem a cena psicodramática: o protagonista, que pode ser um indivíduo, dupla ou grupo; o cenário, elaborado pelo grupo com os materiais disponíveis, mediante as informações do protagonista sobre a cena real a ser transcrita no palco; o diretor, papel assumido sempre pelo psicoterapeuta; o público, que é o grupo terapêutico em si.

O encontro espontâneo e criativo, no aqui e agora, ou seja, o envolvimento dos participantes com o tema e com a experiência a ser vivenciada, é o centro da psicoterapia de grupo. E cabe ao diretor, ou seja, o psicoterapeuta, a função de utilizar das técnicas psicodramáticas, desde a escolha da cena até às reflexões sobre a experiência ao final do processo.

O psicoterapeuta, repita-se, deve promover todos os esforços para envolver os participantes na criação conjunta do enredo, do cenário, do apoio ao protagonista, o que ao fim e ao cabo favorecerá o crescimento de cada membro do grupo, pela capacidade de contribuição de cada um nas soluções possíveis para as questões trabalhadas.

Participando da experiência do grupo, cada membro tem a possibilidade de fazer descobertas riquíssimas sobre a própria vivência e enriquecer sua experiência emocional, ao mesmo tempo que se tornam agentes transformadores dos demais.

Da mesma forma, o espectador, ao identificar-se com os atores e as experiências vividas no palco, sofre o que Moreno chamou de catarse, certa conscientização espontânea dos próprios conflitos e possíveis soluções.

REFERENCIAS:

PSICODRAMA – disponível em https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Psicodrama&oldid=3298413 – acessado em 20 de setembro de 2018

O QUE É PSICODRAMAdisponível em http://www.febrap.org.br/site/pagina.php?cat=8&pag=12 – acessado em 20 de setembro de 2018

SOBRE O PSICODRAMA – disponível em http://www.sedes.org.br/Departamentos/Psicodrama/sobre_o_psicodrama.htm – acessado em 20 de setembro de 2018

A TEORIA PSICODRAMÁTICA E O DESENVOLVIMENTO DO PAPEL PROFISSIONAL  – disponível em http://repositorio.uscs.edu.br/bitstream/123456789/131/2/Teoria%20Psicodramatica.pdf – acessado em 20 de setembro de 2018

PSICODRAMA COM CRIANÇAS NA VILA SANTA ANITA – disponível em https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/169470/001049172.pdf?sequence=1 – acessado em 20 de setembro de 2018

PSICODRAMA: Jacob Levy Moreno – disponível em http://www.impsi.com.br/site/index.php?option=com_content&view=article&id=52&Itemid=60 – acessado em 20 de setembro de 2018

Onde está o reconhecimento do ele na matriz de identidade? Intersecções entre Moreno e Lacan – disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-53932012000100009 – acessado em 20 de setembro de 2018

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