Desenvolvimento pessoal

A psicoterapia e suas possíveis (trans)formações na vida

A psicoterapia parte de um lugar desconhecido, não solucionável, da falta, do vazio, para que seja concebível se apresentar disponível e predisposto a criar o que for possível, enquanto der, com um olhar singular, sensível e carinhoso para cada indivíduo e seus desejos.

É também aquele lugar desconfortável onde se paga pra descobrir que a culpa não é – toda – do outro (ou sua). Para Roudinesco, a cura, na psicoterapia, não é outra coisa senão a transformação existencial do sujeito. 

Para isso, existem algumas características para o desenvolvimento da psicoterapia que é:

  • Trabalho com conflitos;
  • Situações de problema;
  • Insight e elaboração;
  • Fortalecimento de funções egóicas;
  • Focalização;
  • Focalização da angústia servem como ‘bússola’ do tratamento;

Pequena nota sobre o conceito de desejo

O desejo é uma questão. Em Lacan, o desejo é uma pergunta. O desejo é um conceito em psicanálise, que para a psicanalista Ana Suy é o filho da falta. Para ela, é preciso não ter algo para poder desejar. Por isso o desejo é metonímico. Desliza de objeto em objeto, sem jamais se satisfazer totalmente.

No entanto, que o desejo não se satisfaça de modo integral, isso não quer dizer que não haja satisfações: elas existem, com a condição de que sejam parciais. O desejo não tem objeto que o satisfaça de modo definitivo na realidade. É natural nos lamentarmos por isso, achar uma pena que não possamos encontrar uma felicidade definitiva.

Não há o que satisfaça o desejo integralmente, mas sim o que o causa. Toda vez que encontramos algo que nos traz prazer pela via da satisfação parcial do desejo, a consequência disso é: mais desejo! Assim, o desejo não pode ser dito, mas é o desejo que nos leva a dizer, a viver, a desejar mais e mais ainda.

Trilhando seu prumo um tanto torto, aqui ou acolá, o desejo é mutante, mutável, andarilho e ambulante. Driblador nato das armadilhas neuróticas levantadas contra ele – e contra si portanto -, o desejo, nem sempre esbelto à primeira vista, carrega o que de mais honesto há em cada um: a sua verdade.

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Escuta ativa

O Poeta Rubem Alves nos diz que é na escuta que o amor começa, e na escuta que ele termina.

A psicoterapia, através da linguagem, oferece uma escuta ativa, promovendo uma saída, para que haja um movimento, em que comporta a falta, o contraponto, a trajetória e a história de cada um. Freud nos ensina que falar e ter alguém que escute, tem um poder enorme. Pois colocar em palavras aquilo que somente você pensa ou que sente e não sabe explicar muito bem, tem uma força transformadora muito potente, ou seja, ser verdadeiramente escutado, transforma vidas.

Além de ser escutado, há também o eco da escuta de si mesmo. Que às vezes surpreende, e há uma grande importância para pensar, refletir e fazer algo, até que consiga lidar de uma melhor forma com a questão que tanto angustia. Em tempos difíceis as angústias aumentam e, com ela, a busca de tratamentos rápidos e generalizados que prometem resultados milagrosos (curo depressão em tantos dias, por exemplo), que acabam desconsiderando o que tem de mais importante em cada um, a subjetividade.

Para Roudinesco, no que consiste o psiquismo, o que adoece o sujeito diz respeito a um estado, em outras palavras, em sua forma de viver, de se relacionar no mundo, consigo e com o outro. Viver nos exige, é um ato que exige ser renovado a cada dia, a cada gesto, a cada escolha, a cada renúncia.

O resultado da psicoterapia muitas vezes é a descoberta das sutilezas da vida que nos salvam

Na clínica, é muito comum aparecer nos discursos as seguintes coisas: “dedo podre”, “destino”, “mercúrio retrógrado”, etc. Arrisco dizer que esses nomes dados, se trata do inconsciente, que na psicanálise é um saber que não se sabe, isso quer dizer que há uma baita porção de energia gasta para ficar sem saber daquilo que já sabe.

Quando se está em processo psicoterapêutico, muitas vezes descobre-se coisas importantes de si, e muitas dessas vezes, muitas mesmo, o que se descobre são sutilezas. 

Coisas que não parecem nada demais, se você se imagina contando o que descobriu para um outro. Porque no fim das contas, o que se descobre é o que já se sabia, mas não podia se saber que era sabido. Quando a gente para de gastar tanta energia nessa resistência, o desejo ganha mais força. Aí até parece que quem faz psicoterapia fica mais inteligente.

Afinal, o que é inconsciente?

É com Lacan que a gente aprende (sobretudo no Seminário 11) – e no setting terapêutico também se apreende – que é dos tropeços que o inconsciente se trata. Que as manifestações inconscientes se revelam muito pelo contrário de profundas, mas tão rasas quanto a superfície de um espelho d’água, refletido ali nas mais cotidianas coisas de nossa existência.

Ou seja, o inconsciente não está nas profundezas da noite, nem no lado escuro da mente (muito embora já tenha havido tempo de se pensar que sim). Ele está no tropeço do dito, na falha dos atos, no lapso da memória, no equívoco do dizer. Ele está bem ali na superfície. Está na fala, uma vez que é justamente fundado pela linguagem. Para reconhecê-lo, basta endereçá-lo àquele que possa ouvi-lo.

Portanto, compreende-se que a vida também acontece quando estamos (des)atentos. Talvez, até mais. Talvez, seja quando ela aconteça como vida mesmo.

Manoel de Barros nos adverte:

“A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem das suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro.
Arte não tem pensa:
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.” ⠀⠀

A partir da poesia, concluímos que a vida mora nos detalhes, e a psicoterapia é um detalhe, que implica, que move e modifica, podendo transformar as mais profundas angústias em poesia, amor, e o mais importante: no reconhecimento das pequenas alegrias diárias.

Referências:

  1. Freud, S. (1980). O mal-estar na cultura. (J. Salomão, Trad.). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas (Vol. XXI, pp. 81-178). Rio de Janeiro: Imago.
  2. Lacan, J. (2008). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (2ª ed.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
  3. Roudinesco, Elisabeth (1999). Por que a psicanálise?  (1º ed.). Rio de Janeiro: Zahar.
  4. Kuss, Ana Suy Sesarino (2015). Amor, Desejo e Psicanálise (1º ed.). Paraná. Ed Juruá.
Rubia Boeno de Andrade
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